A classificação dos índios Pimenteiras tem desafiado os pesquisadores. Nem os cientistas Spix e Martius que estiverem no Piauí, puderam ou tiveram elementos sólidos para classificá-los. Deles apenas disseram que “eram dos mais robustos e desempenados entre os índios que até agora nos haviam aparecido, e tinham nos traços da fisionomia, assim como na linguagem muito rica em sons, palatinos, um certo desembaraço e firmeza, que debalde procuramos em outros índios”(Martius, Viagem pelo Brasil, p. 274). Porém, o que sabemos de certo é que apareceram nas nascentes do rio Piauí no final do ano de 1769, quando assassinaram o morador Faustino Pereira. Vieram de Pernambuco e há quem diga que pertenciam ao grupo lingüístico Cariri, o que não podemos atestar. Então, por esse tempo os demais moradores requerem providências ao governo. Em janeiro do ano seguinte(1770) o governador prepara as primeiras diligências para repreendê-los, com muita temeridade, pois desconheciam a qualidade, quantidade e forças de que dispunham. Sobre o assunto, o governador Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, assim se reporta ao tenente-coronel João do Rego Castelo Branco: “(...)// Vejo mais o que me expõe a respeito do gentio, que principia a insultar a Ribeyra do Piauhy, e quanto é justo o requerimento daqueles moradores; sendo porém certo, que ainda se ignora que qualidade de gentio é esse dito, conforme as informações, que já se me tem comunicado; também já enviei a providência, que presentemente se pode acomodar para rebater de alguns daqueles insultos, transferindo para melhor tempo o resto que possa ser eficaz a coibi-los no caso, que continuem// Estimarei, que V.M. passe bem, e me dê ocasiões de dar gosto. Deus guarde a V.M. Oeyras do Piauhy 17 de janeiro de 1770// Gonçalo Lourenço Botelho de Castro// Snr. João do Rego Castel Branco”(Casa Anísio Brito. Códice 147. p. 177v/178).

 E, de fato, não se pôde saber muito sobre essa nação desconhecida, que possuía o mesmo nome da localidade onde se localizou. Isso fica evidente pela correspondência que segue, do governador a um militar de Parnaguá, o primeiro que perlustrou aquelas terras: “Carta ao Ten. Francisco Carvalho da Cunha. Como soube, que V.M. se resolveu o ano passado a entrar nas terras chamadas as Pimenteiras contíguas ao Distrito dessa Freguesia, e me é preciso ter delas notícia, e não menos das Nações, que ocupam, espero que V.M. me informe sobre este para com a certeza possível, declarando-me a qualidade da gente, que nelas encontrou, nomes das Nações, e forças, que possuem, e tudo o mais, que possa servir de instrução, a qual V.M. dará logo por escrito, e por pessoa que seja capaz de fielmente a entregar nesta Secretaria// Estimarei que V.M. conserve sempre a sua saúde, e as maiores prosperidades, que desejo. Deus guarde a V.M. Oeyras do Piauhy 26 de Fevereiro de 1770// Gonçalo Lourenço Botelho de Castro// Sr. Tenente Francisco Carvalho da Cunha” (Casa Anísio Brito. Códice 147. p. 193/193v).

Portanto, as terras eram conhecidas por Pimenteiras, mas o governo não conhecia os índios que lá habitavam. Todavia, existiu uma nação de mesmo nome em Pernambuco. Seria a mesma? Talvez, sim. Porém, o que há de certo é que nenhum grupo tribal piauiense que lhe foi contemporâneo conhecia seu idioma, razão pela qual somente em 1790, com a prisão de onze deles pelo capitão Ignácio Rodrigues de Miranda, comandante militar do rio Piauí, pôde-se preparar intérpretes. Mesmo assim o desconhecimento de sua história continuou, por falta de interesse do conquistador.

(Meio Norte, 31.7.2015).