No mundo ocidental, a concepção geral da poesia como fonte de saber e instrumento de educação remonta à antiguidade clássica, sendo Homero, educador de toda a Grécia, a figura mais notável no gênero. Se tomarmos como exemplo trechos da rapsódia VI da Odisséia, que narram a chegada de Ulisses à terra dos féaces, veremos que eles testemunham situações e costumes típicos da época, como jogos dos adolescentes, o caráter enérgico e determinado de Nausica, que bem delineia a posição de destaque das mulheres, o entretenimento, o ócio e a dança, as descrições do palácio onde reinava Alcino, a consideração para com o hóspede, o espírito de religiosidade etc. Nessa perspectiva, o poeta identifica-se e confunde-se com o pedagogo, ao manter viva a experiência ancestral, transmitindo-a em seus cantos.

 No Brasil ressalte-se a conhecida tarefa missionária do Pe. Anchieta que, no início do século XVI, utilizou-se da poesia e do teatro como instrumento de persuasão nos trabalhos de catequese. Valeu-se aquele educador do princípio horaciano "docere cum delectare" pelo qual unia o útil ao agradável, isto é, tornava agradáveis as lições de catequese, para melhor incuti-las no espírito dos alunos. Grande foi, portanto, a sua atividade como poeta e como iniciador da poesia lírica brasileira com intenção pedagógica.  

José Carlos Libâneo, filósofo e pedagogo, assevera que "as práticas educativas estendem-se às mais variadas instâncias da vida social, não se restringindo, portanto, à escola e muito menos à docência, embora estas devam ser a referência da formação do pedagogo escolar". O educador que se desenha com base nessa acepção é aquele cuja prática educativa, em caráter de intencionalidade, ocorre num espaço que ultrapassa os limites da escola. Nessa linha de raciocínio, Jacky Beillerot, citado por Libâneo, atribui ao pedagogo duas esferas de ação: uma escolar e outra extra-escolar. No campo da ação escolar, distinguem-se as atividades dos professores, coordenadores, orientadores educacionais, instrutores, consultores e psicopedagogos. No âmbito da ação extra-escolar identificam-se aqueles profissionais que ocupam parcialmente o seu tempo em atividades pedagógicas "...tais como administradores de pessoal, redatores de jornais e revistas". Pedagogo, afirma Liabâneo, "é o profissional que atua em várias instâncias da prática educativa, direta ou indiretamente ligadas à organização e aos processos de transmissão e assimilação ativa de saberes e modos de ação, tendo em vista objetivos de formação humana definidos em sua contextualização histórica. Em outras palavras, pedagogo é um profissional que lida com situações referentes à prática educativa em suas várias modalidades e manifestações." (1)

É precisamente no campo de ação extra-escolar, isto é, nas redações dos jornais que surpreendemos a prática pedagógica de Mário Faustino. Em 1946, ainda adolescente, iniciou suas atividades no jornal A província do Pará, onde escreveu editoriais, crônicas e artigos sobre Literatura e Cinema.

Benedito Nunes, na introdução do livro O Homem e sua hora, que compreende os textos de Mário Faustino, publicados na página Poesia-Experiência, do SDJB(2),  chama a atenção para o propósito teórico dessa página que, "concernente ao conhecimento do fenômeno poético, estética e historicamente considerado, juntava-se a finalidade didática de ensinar poesia." (3)  

Tudo que Mário Faustino ali publicou foi dedicado aos leitores de poesia e aos poetas novos, tendo a estes dado especial atenção, quando em linguagem jornalística estudou, refletiu, avaliou e difundiu a poesia de todos os tempos, por meio de uma poética explícita nos dois universos de sua produção: na teoria sobre o fazer poesia e na própria poesia que criou. O didatismo de Mário esboçava-se não só no plano da crítica, mas também no âmbito da prática poética, sendo pois irrefutável a perfeita sintonia entre os princípios de estética que defendia nos artigos e ensaios e a poesia que criava intencionalmente, com finalidade educativa. A esse respeito, Benedito Nunes declarou: "Era a crítica da poesia praticada não só a modo de tribuna e de oficina, conforme dela dizia o seu idealizador e editor, mas também à maneira de uma escola no sentido próprio, didático, do termo, de transmissão de ensinamentos: uma teoria e uma prática poéticas, segundo o princípio, consubstanciado no lema que adotou, Repetir para aprender, criar para renovar."(4)  Acrescenta Benedito Nunes que, "entre o repetir para aprender e o criar para renovar, estava implícito o aprender para criar". Daí relacionarmos esse raciocínio ao pensamento de Paulo Freire: "quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa e foi aprendendo socialmente que, historicamente, mulheres e homens perceberam que era possível  - depois, preciso - trabalhar maneiras, caminhos, métodos de ensinar."(5)  Donde se conclui que, ao transmitir aos homens novas formas de conhecer o mundo, através da experiência poética, e reforçar no leitor a capacidade crítica para efetuar uma nova leitura de mundo, ele, poeta, estará também construindo o que Paulo Freire chama de "curiosidade epistemológica."

A docência crítico-literária de Mário Faustino envolve o movimento dinâmico entre o fazer e o pensar sobre o fazer. Para Mário Faustino, poeta era aquele que além de criar a boa poesia, também deveria ensinar como fazê-la. Para tanto, revela-nos duas atitudes, com relação à concepção literária de intenção didática: uma exterior, exposta nos ensaios de poética e demais trabalhos de crítica literária e outra interior, quando o próprio fazer poético se apresenta como tema no interior do texto, às vezes até com alusão ao processo criador, configurado no que conhecemos como metapoema. Exemplos de metalinguagem externa são os Diálogos de Oficina e a série de artigos desenvolvidos em capítulos na página Poesia-Experiência, como Evolução da Poesia Brasileira e Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea. Outros exemplos podem ser arrolados, como os muitos reviews e ensaios que escreveu e publicou nas seções O melhor em Português - estudo dos clássicos portugueses; É preciso conhecer - poetas modernos estrangeiros traduzidos pelo autor; clássicos vivos - autores antigos de épocas e nacionalidades diferentes; subsídios de crítica ou Textos e pretextos para discussão - ensaístas estrangeiros.  

Para exemplificar o que nos propusemos demonstrar, tomamos de empréstimo a terminologia do poeta e selecionamos algumas "pedras de toque" (touchstones, segundo Mathew Arnould) do ensaio Diálogos de Oficina, as quais esclarecem as pretensões pedagógicas de Mário Faustino:
- Sempre considerei minha arte como um meio, jamais como um fim em si...

- Poesia para mim é instrumento [...] Meio, por exemplo, de comover os homens; meio de os alegrar, meio de ensiná-los: ut doceat, ut moveat, ut delectat? Todos escrevemos para ensinar, para comover, para deleitar. (Ezra Pound, 1977, cita Rodolfo Agrícola que, numa edição do século XVI, diz que a gente escreve ut doceat, ut moveat, aut delectat, para ensinar, para comover ou para deleitar...)

- A própria alegria é comovente se genuína, e o verdadeiro poema é sempre pedagógico.


- Toda poesia verdadeira é didática. E nenhum meio de comunicação ensina tão profundamente, e de modo tão inesquecível, quanto a poesia.

- Falando de modo menos geral, há, entretanto, a poesia propriamente didática. E lamentável é que já não seja praticada com todo o esplendor de outrora, quando o poeta se confundiu com o pedagogo, quando os aedos mantinham viva, transmitindo em seus cantos a experiência ancestral de cada povo, quando Virgílio ensinava a lavrar a terra e o que plantar nas estações apropriadas.

- A poesia ensina: o mau poeta é um criminoso da mesma laia de um mau professor.

 - A poesia prega. O mau poeta é igual ao falso profeta.

- A boa poesia eleva, aperfeiçoa a língua; a má avilta o idioma, e o mal poeta contribui para rebaixar-lhe os padrões.

- Primeiro mandamento do poeta é ser um bom poeta, como o do médico é ser bom médico, o do professor ser bom professor, o do sacerdote ser bom sacerdote.

- Os grandes poetas sempre se interessaram ativamente pela filosofia, pelas ciências e pela política de sua época, encontrando-se em cada um deles o retrato mais ou menos fiel e minucioso do que se passava e do que se fazia na dinâmica social do tempo em que viveram.  

  No plano da atitude interior, apenas para exemplificar, avultam os textos que teorizam a poesia no corpo do poema, fundindo teoria e práxis, a exemplo de Un coup de Dês, de Mallarmé; de A Rosa do Povo, de Drummond; de A psicologia da composição, de João Cabral de Melo Neto etc. Nesse exercício, Faustino tematiza o fenômeno da criação literária, com ênfase no conceito de poesia, nos perfis do poeta e finalmente no então momento da poesia brasileira em crise.

Em Prefácio(6),  poema de abertura do livro O homem e sua hora, na construção anafórica "Quem fez esta manhã" três vezes repetida numa clara alusão ao poeta artesão "que faz" é posteriormente associada à imagem do poeta inspirado e à do poeta agonistes, na sua luta pelo domínio da expressão verbal. Salientem-se as principais metáforas que comparecem no texto, como  labirintos do tesouro: lugar da poesia; algo muito difícil  de  realizar; paráfrases do touro: o trabalho do poeta, aqui representado como símbolo de coragem e de poder fecundador;  mitos essenciais: algo quase inacreditável; metamorfose alada: mais um atributo do poeta, aquele que se transforma em altos vôos; deus que muda: o poeta como alguém que sempre se transforma; raio a fecundá-la: quem fez esta obra fê-la com a intenção de instaurar o novo. O raio simboliza a suprema potência criadora. 

  O poema e a poesia, enquanto motivo de reflexão no interior do texto, comparecem na obra de Mário Faustino, ora como temas principais, ora como temas que subsidiam outros motivos poéticos. Esses dois temas ganham força no poema-título O homem e sua hora, composto em 235 versos, na maioria decassílabos, sendo para muitos um verdadeiro tratado de poesia. Mário Faustino promove longo diálogo com a poesia e com o poeta, com o propósito didático de presentificar no texto suas lições de poética.  

A didática de Mário Faustino, como vimos, bem se enquadra na linha dialética de discussão, mediante o exercício de uma concepção crítica acerca do que é poesia, da sua finalidade e da função do poeta. Esses questionamentos nós os surpreendemos tanto na poética implícita nos metapoemas por ele criados, quanto na poética explícita nos "Diálogos de Oficina" e demais textos teóricos e críticos sobre poesia.


São questionamentos que somados a outros vão constituir um conjunto de preceitos ou de sugestões que nos servirão, enquanto educadores, de elementos de apoio para uma maior compreensão da poesia em sua especificidade, entendida não como produto da linguagem, mas como produção de linguagem, isto é, mais precisamente, como produção de sentidos.           
 ____________

 1.LIBÂNEO, José Carlos. Que destino os educadores darão à pedagogia? In Pedagogia, ciência da educação? São Paulo : Cortez, 1996, p.107-134.
 2. Trata-se do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. A página Poesia-Experiência circulou de 23 de setembro de 1956 a 1 de novembro de 1958.
 3.NUNES, Benedito. A poesia de Mário Faustino. In Poesia de Mário Faustino, Rio de Janeiro : Editora Civilização Brasileira, 1966, p.4.
 4.NUNES, Benedito. A obra poética e a crítica de Mário Faustino. Belém : Conselho Estadual de Cultura, 1986, p. 30.                                                                                                                                          
 5. Freire, Paulo. Pedagogia da autonomia - saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Brasil: Paz e Terra (Colecção Leitura), 1996.
 6.PREFÁCIO                                                                                
Quem fez esta manhã, quem penetrou
À noite os labirintos do tesouro,
Quem fez esta manhã predestinou
Seus temas a paráfrases do touro,                                                    
A traduções do cisne: fê-la para
Abandonar-se a mitos essenciais,
Desflorada por ímpetos de rara
Metamorfose alada, onde jamais                                  
Se exaure o deus que muda, que transvive.                  
Quem fez esta manhã fê-la por ser                               
Um raio a fecundá-la, não por lívida                            
Ausência sem pecado e fê-la ter
Em si princípio e fim: ter entre aurora                
E meio-dia um homem e sua hora.  

 Palestra de abertura da III Jornada de Estudos em Literatura e Culturas Ibéricas, proferida na Universidade Federal do Piauí, em 12 de junho de 2007. O palestrante é autor de Literatura Piauiense em Curso (Mário Faustino). 


 
>