[Marcelo Martins Eulálio]

Muitos imaginaram que com a queda do Muro de Berlim e, consequentemente, com a derrocada do comunismo, a partir de 1989, uma nova ordem global de progresso e de prosperidade se estabeleceria e a democracia, finalmente, triunfaria sob todas as outras formas de governo. No entanto, o que se viu?

O mundo árabe-mulçumano continua imerso em conflitos intermináveis contra tudo e contra todos e, sobretudo, contra si mesmo. A Rússia quer polarizar o poder mundial com os Estados Unidos, empreendendo uma campanha para expandir seus domínios políticos e econômicos. Os países da África, não bastassem a surreal miséria, a corrupção generalizada, a deliquescência das instituições, o desemprego em massa, os tráficos sórdidos e as epidemias, passam por graves guerras intestinas, aumentando exponencialmente o número de civis mortos. A China, apesar de uma espetacular ascensão econômica, no mundo político ainda é fonte de preocupação e incertezas.

Os Estados Unidos, após a retirada da União Soviética do cenário mundial, assumiram a hercúlea tarefa de salvar o mundo, um mundo desajustado! A propósito, o filme Independence Day, dentre outros, cumpriu muito bem o papel de colocar os Estados Unidos na condição de único país capaz de salvar a civilização da Terra (há outra?) do ataque de naves alienígenas.

No mundo real, entretanto, essa tarefa, muitas vezes, é desastrosa, e os exemplos são muitos: 1992-1993 a malfadada aventura na Somália; em 1994, a intervenção do Haiti, para estabelecer no poder o presidente Jean-Bertrand Aristide; em 1995, a guerra da Bósnia; em dezembro de 1998, a campanha de bombardeios maciços contra o Iraque, batizada “Operação Raposa do Deserto”; em 1999, a guerra do Kosovo; em 2001, a guerra do Afeganistão; em 2003, a segunda guerra do Iraque; em 2004, nova expedição no Haiti, desta vez para derrubar o presidente Aristide.A ocupação do Iraque pelos Estados Unidos mergulhou aquele país numa violência comunitária que persiste até os dias de hoje e não se sabe quando irá acabar.

Quanto à Europa, esta não sabe qual direção tomar. Como bem colocou Amim Maalouf (O mundo em desajuste), “o Ocidente não conseguiu aproveitar plenamente a vitória sobre o comunismo por também não ter sabido estender a prosperidade para além de suas fronteiras culturais. Como exemplo, os efeitos quase milagrosos da construção europeia que permitiram, em curtíssimo prazo, erguer a Irlanda, a Espanha, Portugal e Grécia, antes de se dirigir com amplas passadas na direção da Europa Central e da Oriental, nunca conseguiram atravessar o simples estreito de Gilbratar e passar para o outro lado do Mediterrâneo, onde agora se ergue um muro alto que, mesmo invisível, nem por isso é menos real, cruel e perigoso do que aquele que antigamente dividia a Europa”.

Lógico que a crise milenar do mundo mulçumano tem parcela de responsabilidade nessa situação, mas não é o único, pois, como anota Maalouf, “se voltarmos o olhar para o Novo Mundo, um vaso território em que o Islã nunca teve raízes, observa-se fenômeno similar, com a incapacidade dos Estados Unidos em estender sua prosperidade ao sul do rio Grande, no México, seu vizinho”. Não há como discordar da análise de Maalouf quando afirma que “as enfermidades do mundo mulçumano, por mais reais e trágicas que sejam, não explicam tudo. O mundo ocidental tem as próprias cegueiras históricas e as próprias falhas éticas.”

O mundo ocidental tem também suas enfermidades. Em relação à União Europeia, esta se encontra em meio a uma grave crise econômica, que ameaça atualmente a sua própria existência. Os pobres se tornam mais pobres, a classe média está em queda e não há luz no fim do túnel. E é assim em todo o mundo. O homem ocidental lançou-se para além do Velho Mundo.

É inegável o mérito da civilização ocidental que, mais do que qualquer outra, traçou sua trajetória num mundo de “certezas” e criou valores universais, mas se revelou absolutamente incapaz de transmiti-los de maneira conveniente, pois não levou (e não leva) em consideração a experiência da alteridade que permite modificar o olhar sobre si mesma. Mas o mundo ocidental precisa romper com a ideia de que é o centro do mundo. Vivemos catástrofes ambientais e políticas.

O Ocidente não compreende o Oriente e o Oriente não compreende o Ocidente. Vivemos atualmente num universo de incertezas. É preciso compreender que do modo como está não pode continuar. Não podemos aceitar mais que cidades sejam destruídas e crenças antigas ameaçadas de extinção. Será que não estamos diante de uma “grande tribulação, tal como não houve desde o princípio do mundo até agora” (Mateus, 24, 21)?

É preciso salvar o mundo da ignorância da brutalidade, da guerra de todos contra todos! É preciso harmonizar a fé e a razão! É preciso que as civilizações ocidental e oriental compreendam que as guerras não são produto de necessidades, mas das decisões pouco sábias. A inaptidão tanto do mundo ocidental quanto do oriental, para o estabelecimento de um diálogo eficaz que leve a uma convivência pacífica, tolerando-se as diferenças e crenças culturais, paga, hoje em dia, um alto preço. E até quando estaremos dispostos a pagar por esse preço.

(Foto:hojeemdia.com.br)

Marcelo Eulálio é advogado e professor universitário.