Ah! Não me diga que concorda comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que estou errado.

Oscar Wilde

Existem ideias na Física que levam tempo para serem compreendidas e, por consequência, aceitas. Apesar dos estereótipos que existem por aí, posso garantir que o cientista, de um modo geral, é um indivíduo bastante conservador. Para que ele mude de ideia ou, usando a expressão do físico e filósofo Thomas Kuhn, mude seu paradigma é preciso muito esforço e determinação.

Quando Newton apresentou a famosa Lei da Gravitação Universal, passou um mau tempo tentando explicar como o Sol distante aproximadamente 150 milhões de km da Terra conseguia influenciá-la com uma força diretamente proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles. Os filósofos da natureza na época não consideravam essa ideia “científica”. Ao contrário. Newton foi acusado várias vezes de estar usando “truques mágicos”.

No entanto, o fato é que a lei funcionava. Aliás, funciona até os dias de hoje, mas a sua verdadeira causa só foi compreendida mais de duzentos anos. Em 1915, Albert Einstein publicou sua Teoria Geral da Relatividade onde explicava que os efeitos gravitacionais observados por Newton eram o resultado da curvatura do espaço. Ou seja, o Sol atrai a Terra porque sua massa é muito grande (1,98892 × 1030 quilogramas) e ele deforma o espaço – como acontece com uma bola de futebol quando a jogamos em um lençol esticado – fazendo com que a Terra – que pode ser comparada a uma bola de tênis – se desloque em sua direção.

Não pensem, contudo, que essa hipótese foi imediatamente aceita. Apenas em 1919, quando duas equipes de cientistas deslocaram-se para América do Sul e África, com o objetivo de fotografar um eclipse solar total, é que, finalmente, as primeiras evidências experimentais da curvatura do espaço, prevista por Einstein quatro anos antes, foram obtidas. E posso garantir que mesmo então muitos cientistas não ficaram completamente convencidos.

Atualmente existe outra ideia “esquisita” sendo testada. As equipes do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça (ETH) e das universidades canadenses de Sherbrooke e Calgary conseguiram estabelecer uma “comunicação” entre átomos distantes entre si. Os cientistas chamam o fenômeno de “interação mediadora de fótons”. Nos experimentos, dois átomos, distantes mais de dois centímetros, estão sendo capazes de se “cumprimentar” e até mesmo passarem a funcionar como se fossem um conjunto de uma única espécie de molécula.

A essa altura consigo ver você mexendo a cabeça e rindo dessas informações bizarras. O problema é que, como aconteceu com a Lei da Gravitação Universal e a Teoria da Relatividade, esse fenômeno consegue explicar muita coisa e, o mais importante, funciona quando o assunto é o universo atômico.

Para nós que vivemos nesse “mundo enorme”, dois centímetros não é nada (pode olhar em uma régua e essa sensação será confirmada), mas em nível atômico é uma distância astronômica. Faça o seguinte experimento mental: imagine que cada átomo é uma bolinha de gude; pense que em dois centímetros existem 200 milhões de átomos/bolinhas de gude alinhados e que o primeiro e último átomo dessa enorme fila querem “conversar”. Consegue perceber o que representa dois centímetros no mundo atômico? É uma distância gigantesca!

Outra coisa que pode parecer engraçada é dizer que os átomos podem se “cumprimentar”. Nesse caso, a expressão é usada mais em benefício dos leigos, pois para os físicos o sentido é outro. Para eles, significa permutar informações por meio da troca de “partículas” de luz chamadas fótons. Algo muito importante quando se pensa em computadores quânticos. O entendimento correto dessa interação entre fótons representará informações sendo transmitidas a velocidades próximas as da luz, além de um imenso armazenamento de dados em uma única máquina, os badalados supercomputadores do futuro.

Enfim, não sei se você continua rindo, mas se está, não o culpo. Os fenômenos quânticos são realmente difíceis de entender e de aceitar. Os comportamentos observados dentro do átomo são “esquisitos”, pois contrariam o senso comum. No entanto, por mais surreais que esses fenômenos sejam, eles existem e a compreensão do seu comportamento pode ser a chave para novas e avançadas tecnologias. Os computadores quânticos são apenas um exemplo do que pode resultar desses estudos. O que mais virá disso? Não sei. Acredito que ninguém sabe. Afinal, como já dizia o filósofo espanhol José Ortega y Gasset, "A ciência consiste em substituir o saber que parecia seguro por uma teoria, ou seja, por algo problemático”. Para saber quais problemas serão gerados teremos de aguardar, mas algo me diz que não será por muito tempo.