Millôr Fernandes morreu em 2012, com 88 anos. Foi um grande homem das letras e do desenho. Lembro ao leitor que ele, tal como Machado de Assis, nasceu na cidade do Rio de Janeiro. Não tinha compromisso com ninguém ou com partido político; o que lhe dava muita liberdade para manifestar-se como quisesse e nos era útil por essa razão. O humor em Millôr, - sendo como humorista que mais o conhecemos -, era corajoso, desmascarador, culto e, nesse sentido, elitista, meio britânico. Ele nos escancarava a nos mostrar como gente pequena, nas nossas mentiras, tibiezas e malícias; e colocava aos políticos e governantes como os piores entre nós. Sim, os piores. Millôr não parecia fazer o seu criticismo com amargura evidente, mas sim com aquele travo de desgosto que os escritores fingem ter para inventar os seus melhores personagens, ou seja, os convincentes ao leitor. Agia, imagino, a inventar-se como crítico e a extrair da sua opinião sarcástica a própria opinião subjetiva que antes já devia ter. Fernando Pessoa dizia que o poeta é o fingidor que termina por sentir aquilo que primeiro diz para emocionar o leitor ou o ouvinte. De seu lado, como eu soube de boa fonte, o grande humorista só percebia a graça que algo tinha para os outros quando terminava cada trabalho de desenho e texto. No entanto, em lugar de sorrir, ele sofria como um poeta. Era homem sério. Millôr é, era ou foi um artista. Sabia organizar forma, cores, textos escritos e os diálogos, para mostrar a crueza da nossa barroquíssima brasilidade. Desvendava o que corria por trás do corriqueiro e do aparentemente ingênuo, puro ou nobre, para mostrar a desonestidade, o pecado, o engodo, a mediocridade e a traição dos próceres e dignitários, ou seja, dos políticos, sejam eles militares de 1964 ou civis, de antes e de sempre. Pensava: Por que não fazer a crítica frontal dos poderosos se neles se percebem a estupidez, a ignorância, a esperteza e a maldade que se veem no geral dos humanos? Entretanto, Millôr, mesmo que genial, devia fazer algum esforço criativo para nos levar, os que o admiravam como crítico social, à noção clara da nossa pobreza civilizatória e mediocridade moral. Se ainda estivesse vivo e atuante, nesses anos de 2014 e início de 2015, hoje sucumbiria de gargalhadas, que arrebentariam sua barriga de homem magro e severo, se lesse os cadernos de Brasil ou de Política dos jornais paulistas e cariocas deste começo de janeiro. Ele acharia que os políticos se tinham rebelado contra ele. Eles e elas se teriam antecipado, ao lúcido fluminense, na publicação da versão mais escarnecida e fiel de si mesmos e dos seus desígnios. A falsidade desassombrada, militante, e a desconexão intencional entre os que fazem e o que dizem fariam Millôr abater-se, tombar. Os seus personagens das charges, que até agora publicaria, teriam medonhamente assumido vida, nesta terra da piada-pronta, onde o humor é o próprio fato>