[Geraldo Lima]

  

Tinha uma garrafa de cerveja entre mim e ele — fria, indiferente a tudo. Entre mim e ele, aquela garrafa com sua armadura de isopor. Devia restar ainda meia garrafa de cerveja entre os meus olhos e os dele. Talvez menos. Ou nada, provavelmente. Ele enchia e virava um copo após o outro, pouco se importando se eu estava bebendo ou não.  

Estava ali para ampará-lo, para lhe dar razão, mas, quase sem querer, eu ia desviando a minha atenção para coisas fúteis, gravando imagens como esta: a pele do isopor era azul — um azul já meio desbotado, danificado por rabiscos e pequenas escavações — e alguém gravara ali o nome e uma data qualquer. Havia também um coração trespassado por uma flecha bastante rústica, e, dramatizando ainda mais a cena, duas gotas de sangue azul-claro pendiam paralelamente em busca do nada. Pensei numa mulher já meio grogue fazendo aquele desenho, inspirando-se não no cara sentado ao seu lado, cheio de planos, todo solícito, mas no outro que lhe arruinara a vida, o quase-cafetão que lhe enchera a cara de bolachas durante muitos anos. Que história mais louca poderia ser contada a partir daquele lugar-comum!  

Mais uma vez ia desviando a minha atenção, fugindo do problema, da realidade ébria e deselegante. A imaginação ia aflorando, e eu podia ver, inclusive, uma mulher passando em frente ao bar e me pôr a contar todas as flores da sua blusa antes que desaparecesse do outro lado. Uma mulher com flores na blusa acabara de passar. Ela brotou do lado direito e, ao passar, deixou escorrer uma olhadela para dentro do bar. Essa olhadela veio até mim, significativa, mas, subitamente, como se tivesse se arrependido, a mulher a recolheu à penumbra dos olhos. Insisto. Agora ela vai passar em câmara lenta, como naquela propaganda de sabonete — uma constelação de lindas mulheres flutuando ao ritmo de uma música clássica —, e vai passando, leve, as flores desprendem-se da blusa, as pétalas, rebelando-se contra o cálice, dançam demoradamente antes de chegar ao chão. Sou tomado de intensa emoção diante dessa imagem. Sinto que estou trêmulo de tanta emoção.  A beleza pode nos arrastar até o inferno!  O olhar da mulher, demorando agora uma eternidade dentro do meu, queima a minha alma e, quando ela se afasta, já não reproduz o mesmo mover brusco de asas que fogem. 

Essa minha fuga repentina queria apenas barrar o progresso de algum pensamento ruim que estivesse lá no fundo, cutucando as paredes do meu crânio, louco para vir à tona.  Eu estava era desejando uma parede bem espessa, intransponível. Como eu ansiava por uma espécie de Muro de Berlim se interpondo entre mim e ele naquele instante! Havia apenas a garrafa e a fragilidade do isopor. Suas palavras então alcançaram em cheio os meus ouvidos, e eu compreendi, de uma vez por todas, que já não era mais possível ignorar a realidade. 

 Palavras: radiação atômica. Contaminado, entreguei-me ao amargo da sua voz, — Aquele desgraçado está transando com a minha mulher, você entendeu?,  ele havia jogado o corpo pra frente e quase cuspia na minha cara.  Como não poderia ter entendido, se aquela era a décima vez que ele repetia aquilo? Dava até a impressão de que ele estava querendo dizer que aquele desgraçado estava transando com a minha esposa também.  

Meu Deus...  

Enchi os copos. A espuma, no meu, subiu até escorrer pela borda, lenta, preguiçosa. Parecia alguém chorando. Alguém se derramando, jorrando de si. Ele levou o copo até a boca e, numa talagada só, tomou tudo. Bateu o copo na mesa. Ele então veio com o copo do alto e o bateu violentamente na mesa. Vi o copo descendo vertiginoso e, instintivamente, movi-me para trás. No instante mesmo em que o copo começou a descer, antevi a miríade de cacos. O copo, intacto, ali: um milagre. O meu ainda estava cheio. A espuma se assentara; havia, em todo o líquido, uma paz, uma placidez de lago. Mas os olhos dele suplicando um comentário, um conselho, palavras que dissipassem a névoa diante deles, — Eu sei que você já me disse, mas... você tem realmente certeza do que está me dizendo? Pode ser só fofoca... a Maiara me parece incapaz de...   — Eu vi! Porra, eu vi! 

Senti um calafrio. Ficar sabendo por intermédio de terceiros é uma coisa; ver, presenciar, outra bem diferente: só o esboço dessa cena terrível (sua mulher nos braços de outro, e não importa se despida ou não, o efeito é o mesmo) provoca em minha garganta uma secura tal, que imagino que morrer se assemelha a isso. Só não consigo entender como Celso vira tudo aquilo e não reagira na hora.  

Fugira?  

Tapara os olhos?  

Desmaiara?   

— O que você fez na hora, cara? 

Ele virou o copo novamente, sôfrego, o copo vazio. Seus gestos, quase inconscientes, eram frouxos e punham em perigo a frágil existência do copo.  Eu não tinha para onde me mover — ou fugir.  Virei-me para o dono do bar e fiz o gesto com o dedo indicador, pedindo mais uma. Enchi os copos. — Eu tô arrasado... Se eu mato aquele desgraçado... tô cheio de razão, não tô? Indiquei-lhe o copo cheio, ele, no entanto, ficou com aquele olhar parado, líquido, cravado em mim, o corpo indo e vindo, vez e outra pendendo para os lados. Ia voltar carregado para casa: oitenta e cinco quilos nas minhas costas. E se eu ficasse bêbado também, trocando as pernas, é que a coisa ia ficar bonita. De repente os olhos dele se estancaram lá naquela rachadura que ia do pé da mesa até a parede. A rachadura serpenteava da parede até o pé da mesa. A rachadura era um aleijão indo do pé da mesa até os limites da parede. Da parede até o pé da mesa, aquele esboço de precipício... Ah, eu poderia ficar nessa brincadeira a tarde toda, nesse vai e volta sem fim. Mas o que ele realmente estava vendo ali? Uma cicatriz?  De modo que a rachadura estava lá, e os olhos dele também. Uma rachadura que ia do piso até os olhos, dos olhos ao coração, do coração ao nada...  

Estávamos fugindo.   

Até então ele não tocara no copo de cerveja, e eu não quis interromper o seu repouso, a sua distração, e aquilo ficaria como desculpa por eu não mover nenhuma palavra de dentro de mim que fosse capaz de consolá-lo. Eu precisava dizer algo, mas o quê? E como dizê-lo? Sempre fui uma lástima nessa coisa de consolar amigos. Se eu chego a um velório, fico ali, em volta, me esquivando, rodeando sem saber como me aproximar dos parentes do falecido e lhes dirigir um “aceitem os meus pêsames”. Qualquer coisa que eu diga me parece extremamente idiota. Virei o último gole e, como não tinha nada mais importante a fazer, fiquei batendo com a quina do copo na mesa. Esse ruído trouxe o meu amigo de novo à tona. E com ele a comoção. O drama. O aperto na garganta. 

— O que está me deixando mais desgraçado da vida é que um amigo... porque aquele miserável se dizia meu amigo... seu amigo também, tá me entendendo? Nosso amigo... um filho da puta daquele... abri a porta da minha casa pra ele... você também... é bom ficar esperto... e ele me faz uma desfeita dessas...  

 — Onde foi que você viu os dois? Foi na sua casa? na rua? num...  

 — Não importa onde foi, porra... Pra mim, mulher de amigo meu é homem, tô certo ou não tô? Confiamos nele, não confiamos? Então? 

Daquele jeito eu realmente não poderia aconselhá-lo, se ele estava a todo instante querendo me fazer ver que eu também poderia estar em perigo, que a segurança do meu lar havia sido violada também pela ingratidão de um “amigo”. Ia lhe dizer para me deixar fora daquilo, que eu confiava na minha esposa. Ia dizer, mas não disse, pois me faltava a segurança, a firmeza, a certeza absoluta. Senti um aperto no coração, um princípio de vertigem: pensava no nosso “amigo” e via claramente nele a capacidade de seduzir até os mortos. Desde o princípio sabíamos disso, no entanto, ingenuamente, confiamos nele. E como geralmente estávamos longe de casa, tomando umas e outras...   

Como era possível a esposa de Celso, tão pacata, com seus olhos de anjo, dona de casa exemplar (eu seria capaz de pôr minha mão no fogo por ela), ter feito uma coisa daquela? Custava-me acreditar naquilo. A minha, mais fogosa (e a palavra “fogosa” aqui me causa arrepios), tinha sua vida apenas de casa para o trabalho, do trabalho para casa, a não ser que...  

Era isto que eu temia: essas conjecturas, esse mover-se por entre espinhos, esse antecipar-se aos fatos. O veneno da desconfiança. Fraqueza e dor. Por onde o Davi andava naquele exato momento? Veio-me então a imagem destruidora: ele chegando à minha casa, tocando a campainha; enquanto aguarda que a minha esposa venha abrir a porta (o calhorda sabe direitinho que não estou em casa!), ajeita o cabelo, a gola da camisa e, assim que ela abre a porta, ele sorri — o mais lascivo dos sorrisos, dentes e desejo expostos —, e tudo fica claro, uma claridade que me cega, e, como um canal de TV que sai do ar, fica tudo chuviscando à minha frente. Não vejo mais nada. Não quero ver mais nada! 

— É uma merda mesmo, cara! Então aquele filho da puta fez isso com você, Celso? Fez isso com um amigo... Então, imagine o que ele não é capaz de fazer com um inimigo, hein? Ergui os olhos para encontrar nos olhos dele a mesma chama de indignação, o mesmo lampejo de morte, mas deparei com o vazio. Ele se debruçara sobre a mesa. —Tá chorando, Celso?  Ergueu a cabeça bamba, o olhar embaçado, — Se eu matar aqueles dois, tô cheio de razão, não tô? Tanta coisa que eu poderia lhe dizer naquela hora, mas me faltava convicção, aquela mesma que, em outros tempos, não me deixaria vacilar ao dizer-lhe: — É uma questão de honra, né, cara? Ninguém vai te condenar por isso.  Mas não lhe disse nada, não valia a pena lhe dizer coisa alguma. Eu nem estava raciocinando direito. 

 Silêncio incômodo. Vontade de sair correndo, voltar logo pra casa.  — Diz pelo menos que eu devo dar um tiro no meu ouvido... qualquer coisa, caralho!  Lembrei-me então de Capitu, de Ema Bovary, de uma prima que traíra o marido aparentemente sem motivo algum, por pura sacanagem.  Poderia lhe falar sobre aquilo, mas literatura naquele momento não encaixava muito bem. E em que a suposta sacanagem da minha prima poderia ajudá-lo? 

De repente bateu-me uma moleza, uma melancolia meio besta, me senti fraco como Bentinho, um merda como Carlos Bovary, um sujeito sem atrativos como o ex-marido da minha prima, como todos os tipos bonzinhos, supercorretos — e frouxos. O Celso não ia sair daquela lengalenga, não ia ter coragem mesmo de dar tiro em ninguém. 

— Nós somos uns bostas, Celso. 

Ele ficou me olhando assim com aquele olhar bêbado, arrasado, não sei se concordando ou se indagando que diabos eu queria dizer com aquilo. O dono do bar desceu mais uma, indiferente ao que estava acontecendo. Quantas garrafas de cerveja nós já tínhamos tomado?  Se ele dissesse que eram trinta, teríamos como contestar? A minha memória estava prejudicada: o álcool e a angústia roubavam-me o equilíbrio e a lucidez. Tudo começava a ficar turvo à minha frente, e, até que eu tivesse certeza de alguma coisa, o dono do bar ia faturar um pouco mais. E para envenenar o ambiente, para insuflar mais ainda a dor e a vontade de beber, achou de colocar uma musiquinha doída pra tocar. Um homem, com o coração destroçado, reclamava do desamor da mulher amada. Vidinha fodida. Parecia até que o mundo todo era só ingratidão.

O certo é que a vida me parecia mais precária ainda naquele instante: um copo de vidro nas mãos de Celso, um isopor cheio de escoriações, um piso com feridas expostas, gangrenadas.

                                                                      

Do livro de contos ainda inédito ‘A saga do nada’.