[Dílson Lages Monteiro – da Academia Piauiense de Letras]

Analisando o caráter social da literatura brasileira, o crítico Fábio Lucas diz que “a rigor, toda obra que fixasse uma personagem (imitação do homem real) poderia, em sentido amplo, ser considerada de caráter social”. Ao fazer tal explicação, esclarece que “a perspectiva social será apanhada toda vez que a personagem ou o grupo de personagens tiver seu destino ligado ao da sociedade global de que faz parte, sob o impulso das forças fundamentais que conferem historicidade às tensões entre indivíduos ou grupos”.

A obra do romancista e desembargador Oton Lustosa, da Academia Piauiense de Letras, de evidentes traços neorrealistas, tem-se afirmado pela perspectiva social, de que se constitui exemplo o romance Meia-vida, relançado pela APL (Coleção Centenário), em 2016. Vive-se nessa obra, principalmente, as tensões do drama de Santino, entregador de jornal, funcionário de hotel, líder estudantil, na ânsia de alcançar mobilidade social; o drama de Santino e de sua classe social, mergulhada na miséria de que ele, à exceção, consegue em parte se desvencilhar. Ainda que a superação alcançada pelo herói não signifique a transformação completa pela qual ansiou, conforme se subentende no final dessas notas.

O personagem Santino endossa Fábio Lucas, para o qual, “o ficcionista social (...) será aquele capaz de representar nos seus tipos e heróis a perdida unidade do homem, isto é, fixar aquele ser a quem roubaram horizontes, mas que aspira a ser íntegro numa sociedade que o mutila”. Santino delineia-se à proporção que a descrição de hábitos e costumes desenha-se como elemento central, funcionando para alicerçar o fundo moral que configura a construção dos personagens e dá a eles a consistência necessária para os questionamentos sociais que movem o leitor; para a caracterização histórico-geográfica do espaço e  para a curiosidade pelos dramas de personagens sem  horizontes, senão o da reprodução dos valores mais imediatos de suas vivências.

Em prefácio a Meia-vida, o acadêmico e notável crítico literário M. Paulo Nunes, ao apresentar o tema da obra  – “a vida fervilhante, com as suas vivências, e sofrências, do aglomerado urbano que procura sobreviver em torno do Troca-troca, na beira do rio Parnaíba, na praça Rio Branco, com suas bancas de jornais e seus camelôs e a mulher da vida,ou nos cabarés da Paissandu e do Morro do Querosene – reproduz a vida miúda sem quaisquer perspectivas”.  Ao focalizar esses tipos e espaços, retoma Oton Lustosa, conforme assinala Nunes, antigo filão que é o romance de costumes, ambientando a narrativa na Teresina da década de oitenta do século XX, somente assim situada para dar substância ao caráter político de que também é portadora a obra.

Ao centrar-se na vida cotidiana de personagens que vivem à margem, vasculhando-lhes os dramas, Oton Lustosa vai além do sentido mais habitual dessa categoria de romance. Espaços e valores servem tanto para descrever e documentar um tempo, quanto para lançar luz sobre a desigualdade, fugindo das explicações meramente deterministas. 

Para os romances de costumes, mais frequentemente, as desigualdades advinham da vontade de Deus ou da força agressiva da natureza. A esse propósito, diz o já citado crítico Fábio Lucas: “Embora descrevesse muitas vezes o estado sub-humano dos indivíduos alienados da propriedade dos bens, não indicava nunca a razão da miséria. Quase sempre, o fenômeno era analisado sob um prisma de comiseração e piedade, e as soluções que pudessem daí ser inferidas não passavam de um apelo à solução parcial, individual e ineficaz, em maior amplitude. Condenava-se a miséria, sem se condenar a sua causa”.

Em Meia-vida, entretanto, o destino de Santino traz implícitas as explicações para os encaminhamentos que a vida engendra, sem as marcas fechadas da solução fácil ou do determinismo. Em sua cosmovisão, a segregação familiar e os destinos da vida, antes de estarem ligados aos caprichos da natureza ou ao curso inflexível da imposição social, explicam-se pela organização dos homens, pela dinâmica da sociedade do capital.

Ao se ler ou reler Meia-vida, a atenção flui naturalmente para três pontos, que se cabe mencionar, a fim de, do ponto de vista temático-discurso, compreender a obra.  Antes de mais nada, Oton Lustosa constrói um panorama do centro da Teresina, focalizando pontos tradicionais de concentração de trabalhadores informais, cujo perfil é delineado, sobretudo, para, além de pintar o dia a dia, sondar as perspectivas de vida.

A construção desses espaços, embora se atenha também, a representar o lado malandro desses ambientes, por meio, por exemplo, das prostitutas e ladrões, volta-se com maior ênfase para a dignidade do trabalho, expresso em personagens como o feirante do Troca-troca Zezão e a vendedora de pratos feitos Mundica. Neles, o trabalho e a honestidade falam mais alto, desfazendo preconceitos e projetando olhar humano sobre os desprotegidos da fortuna e da sorte.

Outro ponto merecedor de anotação é o olhar para a política, aqui significada como forma legítima de representação dos anseios coletivos (a ilustrar esse enfoque, a luta bem intencionada de Santino para se fazer representante estudantil e a participação política para se ser vereador), mas também como troca de favores. Disso se servem, conforme a obra, políticos do Sul do Estado, tendo em Santino, um intérprete vocacionado para percorrer hospitais com enfermos ou encaminhar pedidos ao gabinete de “autoridades”.

Lendo Meia-vida, ocorrem questionamentos que, em essência, dirigem o leitor para o argumento da obra: “Sob quais critérios se constroem as representações sobre os semelhantes? A partir de critérios morais? A partir de habilidades pessoais? A partir da conta bancária? A partir da capacidade de influenciar? A partir do talento para a comunicação interpessoal? A partir do número de amigos? A partir de quê?”.

As perguntas validam o terceiro elemento que absorve o leitor  e que é um dos  esteios  de sua argumentação: “Como superar as adversidades, em um espaço marcado por lugares socialmente delimitados?”.  

Em Meia-Vida, cujo título retoma analogicamente o pneu de bicicleta semigasto e, nesse sentido, vidas cujos desejos não se completam, como bem destacou prof. M. Paulo Nunes, a superação social encontra em Santino explicação em quatro elementos: o trabalho honesto e dedicado; o exercício cotidiano da bondade; as escolhas que se realiza e, claro, uma boa dose de oportunidades, que surgem quase como uma consequência.

Em Meia-vida, o desembargador e romancista Oton Lustosa pratica uma escritura de resistência. Seu engajamento, longe de quaisquer comodismos ou reafirmação do olhar piedoso burguês é, acima de tudo, a crença na capacidade humana de superação, ainda que marcada pela dúvida, pelo pessimismo e pelas frustrações dos novos lugares sociais assumidos.