Foi um indígena muito inteligente e resoluto, com perspicácia e senso de liderança, que opôs-se ao duro sistema colonial unindo as nações nativas do Meio-Norte brasileiro em pertinaz resistência contra a invasão de suas terras pelo colonizador estrangeiro.

No entanto, pouco se sabe sobre sua origem e formação, vez que seu nome só entra nos anais da história a partir de 1712, quando tem início o Levante Geral dos Índios ou a Revolta de Mandu Ladino. Foi este o mais notável movimento de resistência nativa contra a colonização portuguesa que se deu nesta parte da América. E se diferencia de outros pela consciência de seu líder e pela recepção de suas ideias pelas mais diversas nações, até então separadas e divergindo entre si. Essas divisões e antagonismos davam brechas à invasão pelo inimigo comum, que jogava umas tribos contra as outras, aproveitando-se das disputas entre elas. Então, o mérito de Mandu Ladino foi perceber essa política colonial, desenvolver a consciência de um senso comum, de um pertencimento dos indígenas à mesma causa e, assim, elaborar um discurso que penetrou fundo na alma indígena. Uniu em torno de si os irmãos de infortúnio, os perdedores do sistema colonial e juntos ousaram sonhar com a expulsão do elemento estrangeiro, com o restabelecimento de suas terras e com a recuperação de sua liberdade. Lutaram e morreram na defesa desse ideal. Lutaram, pois, por um belo sonho e tiveram uma morte digna. Mandu Ladino, o indômito líder indígena era do pensamento de que seria melhor morrer de pé, na luta, do que acovardar-se e viver de joelhos, recebendo migalhas do invasor lusitano.

Mas voltemos um pouco no tempo para tentar recompor a trajetória desse líder indígena. Os poucos traços de sua biografia escondem-se nas entrelinhas da correspondência oficial. Teria ele nascido por volta de 1686 no sopé da serra de Ibiapaba, na fronteira do Piauí com o Ceará. Embora existam dúvidas sobre sua etnia, pode-se dizer que era da nação Aranhi, uma das que foram dizimadas no violento processo de colonização, no primeiro quartel do século XVIII. Perdeu os pais aos seis anos de idade, quando da entrada do capitão Bernardo de Carvalho e Aguiar, em 1692, aniquilando sua nação e família na conquista do sertão das Cajazeiras, em que se incluía as ribeiras da Cabeça do Tapuio, Sambito e Poti. Temos certa convicção de que seu pai era um cacique da nação Aranhi, razão pela qual mais tarde seria fácil o reconhecimento de sua liderança entre os demais nativos. Perdendo todos os entes queridos conseguiu fugir da sanha inimiga com um punhado de sobreviventes para a serra de Ibiapaba, onde recebeu abrigo entre os missionários jesuítas. Por aqueles dias estavam em franco desenvolvimento as Missões de Ibiapaba, que deram origem à cidade de Viçosa, no Ceará. Ali o nosso biografado foi batizado com o nome cristão de Manoel e viveu o restante de sua infância e adolescência, sendo educado de conformidade com os ensinamentos dos padres jesuítas. Perspicaz e inteligente o pequeno Manoel sobressaia-se nas lições e leituras na língua geral e no idioma lusitano, daí sendo considerado um garoto ladino. Criado pelos padres fácil foi apreender as lições e delas tirar o máximo proveito. Tornara-se um jovem alfabetizado no sistema colonial, porém, sem esquecer suas origens nativas.

Com a mocidade deixa as Missões e busca trabalho nas fazendas, vivendo estre essas e as aldeias de seus antepassados, na bacia do Poti, em contato direto com seus parentes colaterais: Aranhis, Crateús, Alongases e outros.

Aliás, em 1710 descem os Crateús para o arraial Nossa Senhora da Conceição, na bacia do Longá, de Antônio da Cunha Souto Maior. Foram levados por Bernardo de Carvalho e Aguiar, em execução a ordens de Souto Maior, descendo ao todo 145 indígenas dessa nação. Mais tarde, seria esse um contato de Mandu Ladino no lugar, vez que convivera com eles nas cabeceiras do Poti, com quem tinha parentesco distante. Portanto, fácil foi ao líder nativo buscar esse apoio na hora necessária (PT/TT/RGM/C/0008/380651. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.524v).

Em dezembro de 1711, estava o cristão  Manoel muito bem e de paz entre os índios Aranhis, quando foram violentamente atacados, juntamente com os Anapuru-Assu, pela tropa capitaneado pelo mestre-de-campo Antônio da Cunha Souto Maior, sofrendo perdas irreparáveis. Em carta datada de 5 de janeiro de 1712, comunica aquele chefe militar ao governador do Maranhão, que “tinha morto e aprisionado a todos os índios de corso das nações Aranhi e Anapuru-assu, e já por aquela parte do Iguará, e Parnaíba não havia mais gentio que alguns Caicaíses, a que vinha dar guerra para no São João que vem se passar com a tropa ao rio Mearim, aonde habitava a poderosa nação dos Barbados, que são os que fazem todo o dano aos moradores daquele rio” (AHU_ACL_CU_013, Cx. 6, D. 482).

Para a continuidade da guerra, entre o preparo de armas e munições, pede aquele militar que o capitão-mor do Ceará lhe mandasse reforço das nações Araricós e Anacés, estes últimos da Serra de Ibiapaba, onde vivera Mandu Ladino.

Também Mandu Ladino, com esse revés assume a liderança de seu povo, unifica o comando de algumas nações, desdobrando-se, assim, em articulações e preparo para reagir contra esse massacre de sua gente. O ponto inicial dessa reação foi o massacre de uma divisão militar que retornara às referidas matas do Iguará e Parnaíba, matando a todos, inclusive ao seu cabo Tomás do Vale. O assunto é assim tratado pelo rei em ordem de 19 de dezembro de 1712, autorizando a remessa de quatrocentos indígenas da capitania do Ceará:

“O governador do Maranhão, em carta de 12 de agosto deste ano, me deu conta da rebelião que houve com os índios que tinham ido com o cabo Antônio da Cunha Souto Maior à matas do Iguará e Parnaíba, que depois da nossa tropa ter destruído a maior parte daquele gentio, se levantaram contra os soldados, e os mataram todos, e ao seu cabo Tomás do Vale, escapando um só soldado, que fora dá conta ao dito Antônio da Cunha, que tinha ficado no arraial”( ACL_CU_015, Cx. 25, D. 2308).

No entanto, sem perda de tempo marcham os indígenas sobre o arraial matando também ao referido mestre-de-campo Antônio da Cunha Souto Maior e a seus comandados, fato que chocou a todos e espalhou terror entre os colonizadores lusitanos. Foi quando despertaram e passaram a respeitar o nome de Mandu Ladino, agora armado com bacamartes e munições apreendidas no arraial, de que aprendera a usar com os brancos.

Para reconstituir minimamente os traços biográficos e os passos desse bravo líder indígena, muito significativo é o depoimento do cronista Bernardo Pereira de Berredo, que governou o Maranhão (1718 – 1722) ao final do conflito quando foi morto Mandu Ladino. Então, a sua crônica é um testemunho do governante que liderou a morte do indígena. Anotou ele em seus Annaes Históricos do Estado do Maranhão(1749):

“Tinha sido cabeça de uns, e outros insultos um índio chamado Manoel com a antonomásia de Ladino, que nascido no grêmio Católico, e devendo a sua educação aos Missionários da Companhia de Jesus, era o que fazia entre todos eles ostentações mais bárbaras da sua primeira natureza” (BERREDO, Bernardo Pereira de. Annaes históricos do Estado do Maranhão, em que se dá notícia do seu descobrimento, e tudo o mais que nelle tem succedido desde o anno em que foy descuberto até o de 1718, offerecidos ao Augustissimo Monarca D. João V, Nosso Senhor. São Luís: Typographia Maranhense, 1849).

Em outro trecho anotara o mesmo cronista sobre o assunto:

“Seguia-se a sucessão de 1713, e a ela também a fatalidade da lastimosa morte de Antônio da Cunha Souto Maior, que, servindo o emprego de mestre-de-campo da conquista do Piauí, os mesmos tapuias de sua obediência, com quem fazia a guerra a todos os de corso daquele vastíssimo país, aleivosamente lhe tiraram a vida, que tinha feito merecedora de larga duração, assinalada honra do seu procedimento” (op. cit.).

O padre Manuel Aires do Casal(1754 – 1821), sacerdote, geógrafo e historiador português, em seu livro Corografia Brasílica, o primeiro a ser editado no Brasil, em 1817, acrescentou:

“Os [indígenas] que mais deram de fazer, foram os da vizinhança do Rio Poti, comandados por um índio doméstico, que fugira duma aldeia de Pernambuco, e os atiçava a uma teimosa resistência, enquanto não pereceu violentamente, a tempo que nadava para a outra banda do Parnaíba. Mandu Ladino era o seu nome vulgar” (CASAL, Manuel Aires de. Corografia brasílica ou Relação histórico-geográfica do Reino do Brazil composta e dedicada a sua Magestade Fidelissima por hum presbítero secular do Gram Priorado do Crato. Tom. I. Rio de Janeiro: Na Impressão Régia, MDCCCXVII).

 Pensamos que há equívoco nessa informação de que o jovem Mandu Ladino fugira duma aldeia de Pernambuco, pois as aldeias aqui vizinhas, em que os índios tinham contato com os do Piauí, inclusive muitos eram daqui originários, eram as de Ibiapaba. Ao contrário de Berredo, cujo depoimento é contemporâneo aos fatos, o de Aires do Casal é de cem anos depois, sendo, assim, como memória mais passível de equívoco.

Depois desse massacre que escandalizara a capitania, contra eles foi mandado o comandante Francisco Cavalcante de Albuquerque, que saiu de São Luís em campanha pelo vale do rio Itapecuru. Entretanto, em pouco tempo recebeu ordens para retroceder até a casa forte do Iguará, que ficava na boca da capitania do Piauí, na expressão de Berredo. E que se juntasse ao comando do novo mestre-de-campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, que fora eleito pelos fazendeiros e nomeado pelo mesmo governador para substituir o inditoso Souto Maior. Então, continuam o combate aos nativos de Mandu Ladino, com ordem expressa de matá-lo, ocasião em que o perderam, massacrando, porém, os Aranhi de sua companhia.

O cronista e governador contemporâneo Pereira de Berredo, assim narrou esse preocupante momento, referindo-se ao governador que lhe antecedeu:

“... e desejando o governador o seu justo castigo, o dispôs bem com a expedição destas novas ordens, que executou Francisco Cavalcante com a devida pontualidade; porém parecendo ao mesmo general, que ele havia faltado maliciosamente na parte mais essencial à verdadeira inteligência delas, lhe despachou segunda, pra que tanto que chegasse ao Iguará, obedecesse ao novo mestre-de-campo da capitania do Piauí, Bernardo de Carvalho e Aguiar, que então se achava naquele mesmo sítio; e unido com ele Francisco Cavalcante, se não logrou o principal projeto do senhor de pancas no merecido estrago do índio Manuel, cabeça dos insultos, por fugir a seus golpes, os descarregou na nação Aranhi da mesma fereza dos Barbados, que deixou destruída, satisfazendo bem, com os acertos desta segunda ação, os presumidos erros da primeira” (op. cit.).

Pelo dito governador são mandadas repetidas ordens para o Ceará, primeiro para enviar em socorro quatrocentos indígenas aliados, depois mais cem.

No entanto, também no Ceará chegara a ação bem coordenada do chefe Mandu Ladino. Notícia de 17 de julho de 1714, deu conta de que os indígenas de Ibiapaba não poderiam ser enviados naquele momento porque havia um levante indígena na região, onde foram por eles mortos cento e sessenta colonos, havendo ameaça de também serem atacadas as missões de Ibiapaba, cujos indígenas aliados eram necessários para a própria defesa. Nesse tempo o caudilho Mandu Ladino, à frente de seus comandados, parte em direção à Vila Nova da Parnaíba, no Igarassu, montando-lhe cerco e atacando-a em todas as direções, no afã de destruí-la. Resistindo a esse cerco, sustentava suas posições a duras penas o capitão-mor João Gomes do Rego Barra, sem forças suficientes para rompê-lo. É quando corre em sua defesa, com numerosa tropa, o mestre-de-campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, levantando o cerco depois de ligeiro combate, de que morreram muitos indígenas. Em seguida, perseguindo um contingente indígena ou maloca, os empurra para uma ilha de difícil acesso e combate. Receoso do enfrentamento em terreno perigoso, prefere Aguiar negociar termos de paz, aceitando os indígenas a pacificação e presença de um missionário entre eles. Ladino escapa ileso e alcançando outras posições sustenta sua luta com maior vigor e ousadia. As rebeliões e estragos são por toda parte, nenhum contingente indígena sendo confiável pelos brancos. As ações são coordenadas entre os Crateús, Aranhis, Anapurus, Anacés, Barbados, Caicaíses e tantos outros indígenas confederados do Piauí, Ceará e Maranhão. Foi o maior levante indígena de que se teve notícia nesse território, escandalizando e apavorando o colonizador lusitano. Esse momento de nossa história, que teve princípio em 1712, ainda pouco estudado é conhecido como Levante Geral dos Índios ou Revolta de Mandu Ladino.

Infelizmente, com inferioridade de armas foram sucumbindo à espada e ao bacamarte inimigo as diversas nações indígenas rebeladas. O líder Mandu Ladino foi alvejado pelo tiro certeiro de Manuel Peres Ribeiro, sargento-mor da Parnaíba, em 1719, quando retrocedia de um combate, atravessando a nado o rio Parnaíba. Com o tiro nas costas ainda se debate em desesperado movimento de pernas e braços, porém, aos poucos vai paralisando os membros até afundar nas águas plácidas do rio Parnaíba. Morria um sonho, nascia uma lenda!

No entanto, a reação indígena ainda perdurou por dois anos, até 1721, quando foram definitivamente aniquiladas as principais nações indígenas da bacia parnaibana pelas tropas de Bernardo de Carvalho e Aguiar. Foi um genocídio, cujo silêncio cúmplice perdura até os dias de hoje. Ao fim desses combates, Bernardo de Carvalho muda-se para o Maranhão, ocupando novas terras incorporadas ao domínio português e, no Piauí, tem início nova fase da conquista. Foi, enfim, instalada sua primeira Vila, denominada Mocha, cujo levante impediu a instalação por sete anos. No entanto, permanece para sempre em nossa história o nome de Mandu Ladino, o líder indígena que ousou desafiar o jugo português, razão de figurar nessa galeria de figuras notáveis de nossa terra.

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*A imagem que ilustra a matéria é de Mandu Ladino, exposta no Centro Artesanal de Teresina, no antigo quartel, à Praça Pedro II, em  Teresina.

** REGINALDO MIRANDA, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI.