[Geraldo Lima]

 

ART. 1º Os dentes da noite são vesgos, e minha amada não me vê por entre os corpos dissolvidos no passeio — ela possui olhos para não me ver. A minha amada me abandonou, saiu pela porta dos fundos sem ao menos me dizer adeus. Estou  fragmentado, lacrimejante, podre nos seios da noite. As pernas da noite fedendo a mijo, a cuspe de bêbado sem lua. 

ART. 2º Sentido não há. Engulo a dor. A dor de Waldick Soriano. A dor de Schopenhauer. A dor de Antero, bêbado periférico. O peito partido. A minha amada sem alma, pedra-nada. Lâmina de prata no coração do vampiro, estaca. Estou perdido como tiroteio em cego. Cego estou por ela, os olhos cegos. Os olhos cegos como cego. Que comparação mais besta: uma comparação como uma comparação.  Jesus Cristo — per si. Rex Iudeorum. Iesus Nazarenus —, na parede, fixado, apenas uma estampa. E tantas foram as rezas, as súplicas, no entanto ela me abandonou, saiu sem ao menos me dizer adeus — a sala oca, as fotografias lívidas. A noite é uma prostituta de dentes cariados. Gengivas sangrando o leite negado ao filho, os lábios vermelhos.

ART. 3º Sem lua, bêbado cuspido por entre o mijo das pernas abertas, a noite de seios podres, lacrimejantes, fragmentado estou, abandonado pelo único olho/cílios negros da minha amada. Vesgas são as noites de dentes.

PARÁGRAFO ÚNICO. Trago uma manhã em estilhaços esculpida no fundo das meninas dos olhos. Meninas doloridas: Dolores e Dores. Colírio.

ART. 4º Agora me precipito num pranto sem limites, o coração derretendo-se, o mel sacrificado. As horas estão em devaneio, e o meu corpo abatido entrega-se aos braços do horizonte. Na pele ainda trago a sensação dos toques dela: rápidos toques na superfície do meu corpo; mãos dengosas, as dela. Uma cruz e um  homem crucificados em minha memória, voltando sempre, um lance após o outro, flash na tela deteriorada do meu cérebro, minha cabeça bombardeada.Voltando sempre, a cruz e o homem. E ela, a minha amada, longe longe, assistindo à telenovela. O olho vidrado do vídeo. Estilhaços de nada. O vento fresco: um travesti morde o  meu  pescoço e jura-me eterno amor, lambuza-me, a boca aflita sussurra em meu ouvido a sua tara pela minha cor mulata. Calafrio!  Abro os olhos. Fito qualquer coisa: é melhor do que me fitar. O espelho em branco-nada. O cigarro aceso. Strip-tease. Viajo nos seios de uma morena, e toda ela exala um perfume barato. E viajo no seu ventre. Beijo-a, um hálito azedo disfarçado (inútil tentativa) com chiclete de hortelã. Passeamos de ônibus, ela de olhos. Minha amada, saindo, jogaste-me na rua! Não posso viver sem ti, perco o tino ao meio-dia, a grama ao lado da rodoviária, os corpos estirados/abandonados sob o sol. Depois, o peito partido, pouco, pulsando nervoso, replay: o flash, os lances fatais. A boca da noite com a língua azul. Os becos escuros. Vitrinas.

ART. 5º Mais uma vez, derreto-me em lágrimas, o coração pusilânime, o peito vazado, veias, abismos. Amada minha, amo os teus lábios, o teu batom, os teus dentes, não como amo os dentes da prostituta que espera o freguês, a saia curta, cílios postiços, os desejos cifrados. A prostituta sobe e desce. A avenida é uma tripa luminosa. Os seios, os beijos. A boca. Estou me sentindo perdido. Sentido não há. A noite, o vão das pernas labirínticas, e os corpos todos em mim. Depois, mato o tempo contemplando mariposas suicidas.

ART. 6º Vermelhos lábios, os filhos negados. O leite sangrando gengivas. Cariados dentes de prostitutas. Dentro, muito dentro delas, faz escuro: músicas trágicas. A noite de estrelas suicidas.

PARÁGRAFO ÚNICO.  Nada está perdido, apenas está espalhado por aí. Por isso trago uma manhã em estilhaços tatuada no âmago do peito. Cacos.

ART. 7º O sol arde nas vidraças. Estou dilacerado pelo nada que minha amada traz nas mãos.  Eletrocutado.  Arquivo/acta; esquivo/acato. E as paredes de olhos vesgos, vagos, ébrios de sol. Nuvem nenhuma. Gestos brutos. O cassetete... Documento, malandro! Identidade! Eu a perdi em minha amada, deixei-a amortecida no sono popular do olho-algum que ela traz na testa.O policial recolhe a minha língua, estou silenciado.  Insatisfeito, ele mete os dedos no abismo da minha consciência e arranca tudo, menos a tua imagem, amada minha. Os gestos brutos, o precipício da tarde. Amada, te amo tanto. O dia se perde nos labirintos dos edifícios, os papéis, os ofícios. As janelas do 5º andar...

ART. 8º Olho os olhos de vidro, de lente de contato. A vida como a cal. A terra suja de sangue, o jornal. O esperma esquecido na grama, e eu nem conhecia aquela morena, mas os seios dela se perderam por entre as minhas mãos — dois seios enormes, viajados. Lábios vermelhos. Um antro. A prostituta me beija, um beijo de cachaça misturada com uísque, um bafo... um drinque reles, um beijo frio, assassino do beijo que me negaste, amada. Mas a prostituta me abandona ao constatar a minha rotina de pedestre; — mais educada do que tuas mãos vazias, ela me acena de longe, dando um tchau. Amada minha, te amo tanto. Os olhos, tua cegueira incomum, nunca me viste de verdade. Estou. A noite tem dentes podres, os vermes.

ART. 9º O tempo, agora, tem dentes cruéis. Nacos de existência flutuando de bar em bar, e nada me resta senão a tua fotografia amassada no bolso traseiro. Não é possível viver só de lembranças, amargas lembranças, olhares armados com mísseis imperialistas. Batalhas sangrentas durante o jantar.

PARÁGRAFO ÚNICO. Nada está perdido, apenas não me encontro em meio a tantos pedaços.

ART. 10. É impossível o meio, o termo — termômetro da vida. Estou no fim e no começo de algo que desconheço. Sei apenas que iniciei, ontem, a minha derrota: a batalha inútil, as armas invisíveis. O princípio da angústia.  Meu peito prensado cada vez mais por esta dor, minha boca amarga... Ah, o mundo está se decompondo aqui dentro de mim, um apodrecer sem fim. E ela se masturbando no quarto, amando loucamente o pôster colado na lateral do coração. Oh, amada! Ó amada. O vinagre e a soda cáustica. Nada. Os becos.  Os bêbados.  A torta filosofia dos bêbados. O vão enorme das pernas, avenidas humanas arranhadas pelo toque do aço. A vida urbana dos meus instintos mais primitivos. E a minha cabeça à deriva, servida, logo depois, na bandeja (de bandeja), enquanto Salomé se despe perante Herodes e trai a si mesma; horas depois, Cristo é crucificado sob os efeitos malignos da Nona Sinfonia. A multidão delira. O céu assemelha-se a uma tela enlouquecida de Van Gogh, e os corpos deslizam por entre os automóveis. As imagens distorcidas pela televisão, tanto que, no lugar da cabeça de João Batista, mostram a de um manequim exposto no CNB. E choro. E não consigo intimidar o pranto. Agnus Dei, ego sum puer, no entanto ela foi capaz de me abandonar na hora crucial de minha vida. A música de Amado Batista faz meu peito chorar, estúpida ironia. Estúpida ironia! E as prostitutas, os carros de luxo.

ART. 11. Há três dias que estou adormecido neste banco de ponto de ônibus. Há três dias que estou aqui, amada, os lábios. E já me pareço com o louco, o louco do estacionamento com o rádio ligado, colado ao ouvido, sempre às 19 horas, A Voz do Brasil desnorteada por entre os carros. A dança dos luminosos: vermelho, verde, vermelho, verde, vermelho, verde...  azul, vermelho, azul, verde...  Cine Bristol! Cine Bristol! Os olhos verdes veem-me: duas lentes que insinuam e brilham. Um lance.

ART. 12. Entro neste labirinto e nem sei como me guiar. Amada, tudo em dois lances:

         a) Lance 1 — Sorriem. Veem-me verdes olhos, apalpam-me mãos de seda.

        b) Lance 2 — Cine Bristol! A música erótica, os cartazes. Bataklan! Luminosos cegos de desejo, vesgos. Lábios, lábios que me procuram. Aqui estou, abandonado       por ela, buscando um louco refúgio, sem saída. Os corredores estreitos...  A mão macia arrasta-me...

PARÁGRAFO ÚNICO.  Morro de medo.  Mordem-me os dentes postiços, roçam-me os seios de silicone, os desejos babélicos, barbitúricos. E os sapatos à beira da cama, à beira do precipício. Incenso. Putas/putos. Insano.  Os desenhos de sacanagem ornamentando as paredes... Eu te amo tanto, amada minha!!

          

Do livro A noite dos vagalumes, 1998, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF.