O altruísmo, como se pode inferir, foi o último acontecimento evolutivo dos humanos, correspondeu ao nosso destroncamento da animalidade comum. Em seguida a isso, foi o processo cultural que levou os humanos a se comportarem com individualismo e mutualismo mais que com altruísmo. Esse passou a ser manipulado. Ocorre que, na medida em que passamos a nos organizar hierarquicamente, com chefes tribais acima dos guerreiros comuns e os demais, no que se incluem as fêmeas e as crianças, deixamos de gerar sociabilidade entre nós apenas diretamente, o que nos ensejava oportunidade para o altruísmo natural.

O altruísmo passou, é a minha hipótese (não clara em Edward Osborne Wilson e em Michael Tomasello), a ser mediado pela presença interativa do chefe do grupo. Ele, ainda que principalmente liderasse na guerra, exercia poder modelador das condutas na medida em que o reconhecimento e a punição vinham dele. Eu imagino que a continuidade do desenvolvimento da conduta social altruísta, decorrente, conforme Wilson, da competição e da guerra entre grupos humanos no remotíssimo passado, cessou por conta das mesmas guerras.No início, o gene altruísta espalha-se nos grupos vencedores, uma vez que, na guerra, os grupos formados por individualistas tendem a ser mais fracos. Em seguida, ele passa a ser inibido pela estrutura organizacional do grupo que assume um chefe permanente. Tal chefe logo se cerca de seus leais “capitães”, e ocorre, suponho, um processo de perda das manifestações espontâneas e genuínas de altruísmo.

O altruísta espontâneo passa a ser um tolo. O altruísmo, isto posto, atrofia. Com a formação do Estado, na sua forma mais seminal, em lugar da tribo, o processo da volta ao individualismo e ao mutualismo se torna contínuo. Novas estruturas sociais hierárquicas impõem competição individualista dentro delas, sem que se forme competição entre organizações, uma vez que todas se sujeitam às mesmas ordens vindas de cima. Em outras palavras, as estruturas organizacionais artificiais da chamada civilização desfazem as possibilidades das organizações sociais de formação espontânea encontradas na infância da humanidade.

Em suma, os sistemas políticos tendem a fortalecer o individualismo e o mutualismo. Enfraquecem o altruísmo. Do mesmo modo, os sistemas econômicos, desde o mais seminal até o contemporâneo, substituíram por inteiro a economia das dádivas e, em seguida, a economia das trocas. Desarticularam as associações e, posteriormente, toda a geração de riqueza autossustentada no âmbito interno das famílias. No mundo contemporâneo, cada fabricante ou produtor vende para todos individualmente. E todos pagam individualmente pelos produtos que receberem. Isto posto, os sistemas econômicos, mesmo o antigo sistema soviético, levam ao individualismo e ao mutualismo (“é dando que se recebe”). Isso também ocorre na medida em que artificializam, por manipulação modeladora, o bom e velho altruísmo.

No entanto, os genes do altruísmo estão fixados nos humanos. Não desapareceram. Estão em todos nós e podem ser evocados. A importância do altruísmo cresce porque a humanidade contemporânea quer praticar bem, mas pratica “amadoramente”, o trabalho de equipe. O trabalho de equipe dentro das organizações é cada vez mais importante porque as organizações passaram a competir entre si em todo o espaço do planeta. É como que uma reprodução da concorrência entre os grupos de humanos primitivos por território e por meios de sobrevivência. A economia totalmente globalizada levou a isso. Pelos conceitos e técnicas dominantes hoje em dia, em Gestão, o trabalho de equipe é de ser obtido pela inibição do individualismo e do mutualismo. Ou seja, a cooperação entre humanos, no ambiente das organizações sociais artificiais, em direção a um propósito comum ou compartilhado, deve ser obtida pelo afastamento do individualismo e da simples relação de troca do mutualismo.

Penso que essa técnica de reprimir e de premiar a conduta cooperativa, no entanto, não é a melhor. Ela supõe, muito equivocadamente, que o ser humano é visceralmente egoísta e calculista. Não considera que os humanos são também visceralmente altruístas. Ora, tal fato nos faz pensar: Por que não ressuscitar o velho e bom altruísmo, diretamente? Por que não fazer isso em lugar de se impor a cooperação, como se essa, a cooperação, já não fosse da natureza humana e precisasse só ser evocada? A verdadeira e fecunda cooperação se afina e depende para seus resultados do altruísmo genuíno. Aquele altruísmo que fez com que os grupos humanos, em que esse atributo era mais presente, tivessem sucesso na guerra e na ocupação de espaços, nos tempos remotíssimos.

A cooperação criada mediante truques de gestão tem fraqueza de origem. As organizações empresariais, que reconhecerem o altruísmo como sendo da natureza humana, poderão desenvolver modelagens e gestão de pessoas com resultados melhores ou mesmo excelentes. Em linha com isso, se favorecem a criação, a invenção e a inovação, e ainda a produtividade. No plano do Estado e da administração pública ocorre de os políticos e funcionários agirem sem atenção ao interesse público, mas simplesmente pensando em seu benefício ou no quanto obtêm pelo que fazem.

Por certo, haveria muita vantagem para a população se os governantes e políticos em geral se voltassem para o bem comum, se agissem com sacrifício e devoção ao bem dos outros. Como ajudar, no século 21, a que seja possível a formação de equipes de excelência em todos os setores da economia e da vida pública? A resposta, penso, é pela educação no plano dos ensinos fundamental e médio. O altruísmo, ou a cooperação para os resultados comuns do grupo, deve ser estimulado e praticado no setor educacional. Mas em direção a que objetivo ou intenção comum, uma vez que o altruísmo depende de uma referência compartilhada?

Respondo: em direção à própria aprendizagem, ou ao processo de aprender. A ideia do ensino vindo especificamente de cima, ou seja, vindo da diretoria da escola ou do professor regente deve ceder lugar à aprendizagem dos alunos em que o professor é um igual mais experiente que ajuda generosamente o grupo a aprender os conteúdos. Os alunos passam a ser colegas que se ajudam entre si em favor do projeto comum de cada um aprender. As formas e processos de aprender devem ser as que possam dar certo para um aprendizado de 100% do conteúdo para 100% da turma. Os professores devem transforma-se em “coaches” e em consultores dos alunos em cada matéria. O ensino deve ser focado em blocos em que se desenvolva conhecimento a contar de grandes temas, como se intenta fazer na Finlândia.

Na medida em que a educação se paute pela ativação do altruísmo em direção a equipes de alta sinergia na geração de quantidade e de qualidade do aprender, teremos futuros profissionais capacitados para a economia do conhecimento na era da competição globalizada. Teremos gente capaz para formar verdadeiras equipes, seja como empresário seja como colaborador. O mundo político e da administração pública terão, de igual modo, gente capaz para gerar altruísmo a partir do sistema político em favor da população. Provavelmente, a escolha de políticas, de programas, de obras e serviços se dirigirá ao bem comum. Não mais se voltará ao mutualismo pela preferência pelos parceiros e amigos, de que se espera a retribuição. Não escolherá o total individualismo que se mostra na corrupção<>