Se em algum cataclismo todo o conhecimento científico fosse destruído, e fosse possível transmitir apenas uma frase para as próximas gerações, qual afirmação poderia conter o maior número de informações com o menor número de palavras? Creio que seja a hipótese de que todas as coisas são feitas de átomos.

Richard Feynman

 

Um arrepio percorreu a sua espinha, ao mesmo tempo em que uma gota de suor escorria pelo rosto. Mexeu-se ainda mais nervoso na cadeira. Um dos monges lhe lançou um olhar de advertência. Controlando-se, refletiu sobre a melhor maneira de agir. Uma solução seria continuar copiando como se nada entendesse. O problema era que o abade sabia que ele era capaz de ler e quando descobrisse o teor desse documento iria interrogá-lo sobre o porquê de não ter sido informado de imediato.

Não! Ele não se arriscaria. Agindo impulsivamente, levantou-se da cadeira e recolheu todo o material espalhado pela mesa. Ao ouvir o ruído, os monges pararam o trabalho e levantaram as cabeças. Respirando fundo, andou em direção ao seu superior imediato, o velho monge responsável pelo trabalho de todos os copistas do scriptorium. Agora o silêncio era absoluto, pois até mesmo o raspar das penas sobre os pergaminhos havia cessado.

Mantendo uma atitude tranquila e humilde, disse ao velho monge que precisava falar em particular com o abade.

- Meu filho, esse não é o momento. Volte a sua mesa e continue a tarefa que lhe foi designada – respondeu o velho, ignorando-o.

- Não posso, irmão – falou num sussurro, sentindo a voz tremer.

O monge mais velho não era tolo. Ao fitar o rosto do rapaz e vê-lo ali em pé, com os pergaminhos debaixo do braço, percebeu que algo de muito grave estava acontecendo. Largando a pena e cruzando as mãos sobre mesa, perguntou ao jovem:

- Irmão, o que o preocupa?

Baixando ainda mais a voz, o rapaz respondeu:

- São esses papéis. Eles não deveriam estar aqui.

O homem mais velho o olhou com atenção. Ele sabia, o abade fizera questão de informá-lo, que esse não era um jovem inculto, ele entendia o que estava copiando. Portanto, era óbvio que alguma coisa na leitura o perturbara. Olhando de forma severa para os outros monges os obrigou a voltar ao trabalho. Depois, levantando-se, pediu ao jovem que o seguisse.

Para chegar até a sala do abade era preciso atravessar um pátio que separava o prédio principal do scriptorium. Os dois monges fizeram todo o trajeto no mais absoluto silêncio. Quando, enfim, chegaram diante da sala, o homem mais velho bateu na porta e aguardou. Em seguida, ouviram uma voz abafada dando-lhes permissão para entrar.

- Bom dia, Eminência! – disse o monge mais velho.

O abade levantou a cabeça para responder quando viu que o irmão não estava sozinho.

- Algum problema? – quis saber, sem se preocupar com cortesias.

O monge fez um sinal ao rapaz para que falasse.

- Eminência, são esses papéis. Eles não deveriam estar aqui – repetiu o jovem, de cabeça baixa.

O abade franziu a testa, sem entender e, impaciente, perguntou:

- Como assim, “não deveriam estar aqui”? Não cabe ao irmão julgar o que pode e o que não pode estar aqui. Esse não é o seu trabalho.

O jovem monge olhou, com medo, para seus dois superiores. No entanto, intuiu que precisava terminar o que havia começado:

- Os documentos com o quais tenho trabalhado são claramente heréticos. Atentam contra Deus e a Santa Eucaristia – disse de um fôlego só.

Os dois homens mais velhos se olharam espantados. Recompondo-se, o abade pediu com um gesto que o jovem se aproximasse e colocasse todo o material sobre a mesa.

- Está tudo aqui? – perguntou o abade.

- Sim.

- Você comentou sobre esse assunto com mais alguém?

- Não.

- Muito bem. Você agiu corretamente. Agora saia, volte ao trabalho com a consciência limpa e não se preocupe mais com esses manuscritos.

Depois fez o sinal da cruz abençoando-os, e deu permissão para que se retirassem. Os dois monges inclinaram as cabeças em sinal de humildade e respeito e saíram em completo silêncio. Não houve mais perguntas. De volta ao scriptorium, o jovem monge recebeu outra tarefa: um pequeno texto de Aristóteles sobre botânica. Não pôde conter um suspiro de alívio.

Em sua sala, o abade lia o que fora transcrito. Sentiu sua respiração se acelerar. O rapaz tinha razão. Deixando o texto sobre a mesa, levantou-se e nervoso começou a dar voltas tentando descobrir o que fazer. Destruir. Essa era a opção mais razoável. O fogo daria cabo de todas aquelas heresias. Contudo, todos os documentos que entravam no mosteiro eram registrados, como iria explicar o desaparecimento desses papéis. Decidiu que o melhor era passar essa responsabilidade para os seus superiores em Roma.

Sentando-se, pegou um pedaço de pergaminho e redigiu uma breve mensagem a um amigo bispo. Sem entrar em detalhes, pedia que os documentos fossem entregues à Santa Sé para a devida avaliação. Feito isso, juntou todos os papéis e colocou-os em um cofre de ferro com cadeado. Em seguida, chamou seu secretário e ordenou que o cofre fosse enviado a Roma ainda hoje.

Quando, finalmente, tudo estava resolvido, sentiu-se mais tranquilo. Agora precisava apenas ficar de olho no jovem copista. A melhor solução seria transferi-lo para outro serviço. Quem sabe, a cozinha. Afinal, todos sabiam que conhecimento demais era o caminho mais seguro para cair nas mãos do demônio e ele, como guia espiritual daquele mosteiro, precisava zelar pela pureza das almas imortais de seus irmãos. Satisfeito consigo mesmo, retornou ao trabalho, procurando esquecer aquele pequeno contratempo em seu dia.

 

FIM.