[Paulo Ghiraldelli Jr.]

Há termos que são esgarçados, usados para tudo e, então, acabam não servindo mais para nada. Ou ganham a geladeira, da nossa parte ao menos, os filósofos, ou só contribuem para causar mais confusão e desserviço. O termo “machismo” é um deles. As feministas abusaram da palavra e induziram toda a sociedade a usar “machismo” nas mais diversas ocasiões. A regra errada ficou assim, na cabeça de muitos: há mulher na frase e está na berlinda, então é machismo! Errado. Bem errado esse comportamento.

Por conta da minha denúncia desse uso errado, algumas feministas resolveram se insurgir contra mim. Elas não sabem que como professor orientei teses em feminismo, de acadêmicos e militantes, e que sou desde minha juventude defensor de minorias (não quando as minorias começam a agir com práticas fascistas de perseguição). Mas, enfim, agora surgiu uma boa oportunidade, mas infelizmente sobre um caso desagradável, como não podia deixar de ser, para esclarecer bem o termo popularmente.

A figura da presidente Dilma aparece de pernas abertas na abertura dos tanques de gasolina dos carros (figura 1), de modo que a vagina da presidente é o buraco para se colocar a mangueira de gasolina. Pois bem, o que é isso?

Machismo ocorre quando a mulher é colocada em condições ou situações de demérito ou de exposição ao ridículo e coisas semelhantes pela sua própria identidade (social) de mulher. Isso é machismo. Criticar a presidente dizendo “essa mulher não sabe governar” não é machismo (até pode vir a ser em determinado contexto), pois caberia a frase “esse homem não sabe governar”, se não fosse mulher, o  que é também comum – nos dois casos pode-se admitir, ao menos em princípio, que é uma crítica ao governante independentemente de gênero. Agora, o desenho não está criticando Dilma, está colocando a presidente numa posição de mulher que se permite a situações de não recato, e isso única e exclusivamente por causa da presidente ser mulher. Ou seja, o desenho não está preso a nenhum contexto para ser interpretado. A posição sexual oferecida a todos é o que está desenho, e essa posição é referente à presidente como mulher, na sua condição de mulher, e se isso é porque ela é uma governante que o autor do desenho não gosta, fica secundarizado no seu trabalho, na sua estampa. Então, aí sim funciona o machismo. Isso é machismo. O macho por ser macho faz alusão à mulher por ser mulher como o que é possível de ser degradado.

Nada está ali no desenho faz alusão a Dilma como mulher-presidente, mas sim a Dilma como mulher e, nesse caso, submetida à figura que significa: “uma mulher de poucos recatos, aberta em sua parte íntimas para todos – eis o que é Dilma”. Isso não é crítica política. Pode ser considerada até uma caricatura aceita com charge “pesada”, dependendo do grau de liberdade de expressão em um país, dependendo da cultura permissiva etc. Mas, na nossa sociedade, independente da aceitação ou não, isso é machismo. Se isso é punível como crime, ofensa etc. não diz respeito ao que penso como filósofo. Antes disso, como filósofo, o serviço é mais “agrário”, digamos, é o de limpar terreno no campo semântico. Só assim a avaliação ética pode vir.

Muitas vezes se ataca alguém dizendo que tal pessoa foi “machista” ao dizer a uma mulher determinada coisa pejorativa. Mas não é assim. Para que exista o machismo é necessário que a mulher seja atingida na sua condição de mulher sem que exista outro elemento central a ser referido ou se sobrepondo. É o que ocorre no desenho que, diga-se de passagem, falam por aí que foi feito por uma mulher que, depois de identificada, tentou jogar a culpa no ex-marido.

Insisto: temos de usar as palavra corretamente. É uma virtude.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, 57, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).