[Dílson Lages]

 

Li hoje um pouco de Peter Buker. Ele ensina  como ler imagens. Há, atualmente, diversa bibliografia sobre o assunto, em correntes de conhecimento para cada gosto. Abundam, inclusive, livros somente de fotografias. Penso o quanto a imagem não será utilizada em pesquisas futuras. O quanto ainda será dimensionada, dissecada, para as explicações e dúvidas que a curiosidade humana teima em inventar.

 

Lendo texto de Buker,  me vi no fim da década de setenta em meu mais distante contato com a tecnologia. Cinco anos de idade, somente, mas a reminiscência é de ontem. O estranhamento da poesia, creio, surte o mesmo efeito que o de minha postura no sofá diante daquela jeringonça. O desconhecido levantou a lâmpada, pôs uma lona preta sobre o rosto e o aparelho e de repente: - Flash! Estava ali reunida a lembrança da infância.

 

O desconhecido era desses que andavam de porta em porta nas pequenas cidades, fotografando numa época em que fotografia era ainda preciosidade. E impressionava. Aliás, até a década passada ela foi empregada inclusive para comover eleitores – um velho cacique da política, especialista em comover, há bem pouco tempo, usava em suas andanças eleitorais uma maquinazinha em que a foto saía na hora. Voto certo.

 

Como esquecer um candidato desses?  Mesmo que o afeto fosse de mentirinha, a foto comprovava que um dia fora abraçado pelo Dr. Ele, na casa do eleitor esteve, sentou no tamborete, deitou na rede, bebeu nos copos da casa, botou a criancinha no colo... e conversou como se estivesse no próprio lar. A fotografia provava; o eleitor, tão carente de aproximação dos que se dizem seus representantes, nunca esqueceria.

 

Andando pelo centro de Teresina, entrei numa dessas lojas tem tudo. Da entrada, vi o conjunto de telas reluzentes e filas em torno das máquinas. Aproximei-me, sobrepondo meus óculos às imagens do monitor. Fotos e mais fotos, selecionadas de uma pendrive. Fácil, prático, imediato. Uma criança entregava um celular para a mãe que pedia o acréscimo de uma fotografia, guardada no aparelho, à lista selecionada. Hoje, talvez, a banalização da foto não rendesse mais ao velho cacique os frutos de outros tempos.

 

Aquele estranhamento de meus cinco anos é agora a confirmação de que as imagens serão em breve muito mais úteis e valorizadas do que já o são. Porque as cidades – com todos os seus artefatos – e nós, os humanos, seremos mais que objetos da paisagem, mais que mercadorias. Afinal, estaremos em todos os lugares, rastreados pelo “Grande Irmão”.

(Na foto, o escritor Dílson Lages, ladeado pelos irmãos, é o segundo à esquerda).

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