O professor Hayden White é um marco na teorização sobre a historiografia, ou seja, sobre a escrita da história. O referido estudioso demonstrou que os ‘escritos de história’ se assemelham a ‘escritos de estória’. O ponto principal de White é o de mostrar que os fatos como historiados (ou seria, estoriados), por alguém de uma linha argumentativa, representam apenas uma das possibilidades de os eventos se relacionarem. Sobre iguais fatos documentados, os historiadores poderiam variar, em muito, sobre quem são os heróis e quem são os vilões, ou sobre a justeza ou a ilegitimidade de uma guerra. Ocorre que o passado não é recuperável diretamente e passível de ser posto sobre uma bancada para estudo isento. Ele não é resgatável, íntegro, por meio de uma máquina do tempo. O que conhecemos, conforme leiamos este ou aquele historiador original, - não me refiro ao resenhista, ou seja, quem escreve com base em outros escritos historiográficos -, é resultado da imaginação do escritor em tornar o passado verossímil e, por tal, inteligível para os viventes de hoje. Impõe-se ao historiador criar uma “estória histórica” a partir de indícios e registros incompletos. O autor historiográfico chega ao ponto de induzir, com sua forma de narrar, o leitor de sua obra a uma percepção de comédia ou de tragédia, ainda que os fatos sejam neutros enquanto ainda não interpretados. A interpretação dos fatos e a lógica subjetiva que faz a integração do seu conjunto são reconstrução arbitrária, eivada dos valores pessoais do pensador e resultado da visão a partir do mirante no tempo, de onde ele observa o passado inerte. A nossa mente é organizada para processar discursos e não para entender imagens dispersas, ‘flashes’ autônomos sem concatenação. Assim, a história precisa ser apresentada, pelo seu autor, com início ou contextualização, discussão e, por fim, conclusão, sob a pena de o leitor do estudo fazer livremente esse trabalho. Isso ocorre mesmo quando um pesquisador expõe seus estudos com mínima narrativística. Ele usa, então, em lugar da contação escancarada da sua história, de recursos comunicativos sutis, que discretamente, mas com contundência, “contam” os fatos. São exemplos desses meios: a ordem de apresentação dos fatos ou registros; a omissão deste ou daquele evento; a inclusão de acontecimentos que poderiam ser vistos, por outro estudioso, como paralelos e não causais; a escolha do recorte de tempo a conter os fatos; a escolha de um protagonismo, o de uma pessoa ou o de um propósito qualquer, como um povo ou facção política. Até mesmo os historiadores desinteressados da literatura têm de usar da composição ou estrutura de narração, com início, alguma discussão e conclusão. Os grandes historiadores são escritores assumidos e bons; eles, sem dúvida, fazem literatura e contam ótimas estórias>