ENTREVISTANDO A POETA ROSIDELMA FRAGA

 

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE RORAIMA

PARFOR: LETRAS LÍNGUA PORTUGUESA E ESPANHOLA

PROFESSOR: HUARLEY MATEUS DO VALE MONTEIRO

DISCIPLINA: Literatura e Panorama da Literatura Brasileira

    ACADÊMICAS: Izabel Lúcia de Freitas, Reginete Sabino de Macedo, Suziane da Silva Oliveira.

 

 

1)      Qual o foco de sua produção literária?

 

RF: Falar em foco de produção poética na contemporaneidade pressupõe um estilo de época. Meu estilo é não ter estilo. É não seguir escolas ou grupos, nem regras, nem foco específico que defina minha poesia, tendo em vista que prefiro que não leiam meus poemas de modo engessado apontando características de um grupo de poetas locais ou regionais, até porque o verso é quase sempre intertextual. Creio que a violação ao estilo e ao foco advém do modernismo brasileiro que legou a nós poetas a liberdade do verso, do tema, da expressão da linguagem, dentre outras conquistas dos poetas vanguardistas. Assim, se tivesse que definir minha poesia de 2002 até agora, eu diria que comecei por um surrealismo em poemas já esgotados de antologias que participei (umas oito antologias espalhadas por aí), perpassando pela segunda obra que tem uma poesia voltada para um existencialismo cantado sob o tema da ausência, da perda, da violência e dos desencontros humanos de toda ordem, os quais cercam meu primeiro livro Poiesis em verso e prosa (poesias e contos). E um terceiro momento se refere à veia lírico-amorosa e erótica, de meu terceiro livro Cantares de amor, mas que também está presente em alguns poemas da obra anterior.

 

2)      Quando você se percebe como escritora?

RF: Eu nasci predestinada ao verso e à palavra. Recordo-me de meus pais que se preocupavam comigo por gostar de isolamento, de estar sozinha trancada. Eu estava escrevendo, rabiscando. Sempre tive imaginação criadora. Quando aluna de ensino médio, eu escrevia cartas e poemas amorosos para amigas mandarem para seus namorados ou amantes. Ganhava dinheiro vendendo sensibilidade. Foi então que prestei vestibular para Letras e não consegui mais parar de inventar. Em 2001 mostrei todos meus cadernos ao poeta e professor Isaac Newton Almeida Ramos que falou de meus poemas e ainda prefaciou meu livro Poiesis em verso e prosa. E em seguida, resolvi participar de concursos literários. Tomei gosto porque publicavam e divulgavam os poemas que iam para jornal, para livros.  Acabei acreditando que minha doença ou minha cura era ser poeta. Criei blogs e nem a senha tenho mais. Passei a mostrar para um público acadêmico que servia para ser poeta ou para alguma coisa. E em 2005, eu me inscrevi em concurso de redação para professores com tema voltado para obras de Machado de Assis, Drummond e outros escritores. Ganhei em três concursos, fui ao Rio de Janeiro receber a premiação que eram: livros, certificados e troféus. O incentivo de leitores me motivou. Tirei os poemas da gaveta e dos blogs e lancei meu primeiro livro depois de ter participado de umas nove antologias. Se avaliar minha resposta perceberá que até agora eu não me vi escritora. Eu nasci para inventar e mentir. Confesso que sou boa nisso. Entre mentira e invenção, Manoel de Barros ensinou-me que 90 por cento do que um poeta escreve é invenção e somente 10 por cento é mentira. E eu creio que aprendi isso com Fernando Pessoa (o melhor poeta a meu ver) quando escreveu que poeta finge tão bem a dor que deveras sente. É assim que me vejo, inventando e mentindo para o bem da verdade da poesia.

 

 

3)       Ao se tornar escritora, você enfrentou dificuldade de difundir sua obra? Qual(is)?

RF: Eu não vi e não vejo nenhuma dificuldade em tempos virtuais e digitais. Tudo é mais fácil hoje. Poetas saem às redes sociais, blogs e outros universos midiáticos, mas eu sou diferente, gosto de divulgar somente para amigos e família. Não tenho nenhum orgulho e vaidade. Tanto faz um poeta renomado falar de meus poemas como um mendigo de praça pública, eu apenas quero a poesia. Não busco glória e consagração. Por isso, vale a divulgação, mas vejo mais exposição de autor que de verso. Por tudo isso, eu serei a única cúmplice de nunca ser lembrada, pois sempre corro de palco, de público. Queria lançar meu livro por procuração no começo. Porque a obra é que deve aparecer e falar através da linguagem que é corpo.  O autor é apenas um ser insignificante e reles mortal que morrerá e será roído como verme machadiano.

 

 

4)       Na difusão de sua obra você sentiu a presença de preconceito por ser mulher?

RF: Ao contrário. O ser mulher na “difusão” de meus livros apenas confirma que a mulher na contemporaneidade abre portas para a representação feminina e surge dos escombros para falar em alto e bom som para que e para quem escrevemos. A propósito, tenho um poema “Mulheres em mim” que retrata essa liberdade e diz não ao preconceito em muitas faces do ser mulher em mim. Ei-lo:

Mulheres em mim

 

Explodem dentro de mim

A Mulher Madalena

A Mulher mãe de santo

A Mulher rasga-pranto.

 

Desabrocham dentro de mim

A Mulher Negra tagarela

A Mulher diz-que-me-disse

A Mulher Diadorim

A Mulher andorinha

A Mulher puta de botequim.

 

Eternizam-se dentro de mim

A Mulher do deboche

A Mulher corre-corre

A Mulher pode-pode.

 

Vivem dentro de mim

A Mulher Beatriz

A Mulher de Diamante

Que sequer pensa em Dante.

 

Perpetuam-se dentro de mim

A Mulher Laura de Petrarca

A Mulher Musa dos poetas

A Mulher que chora por amor

Que arde no fogo sem sentir dor

E brota das cinzas e depois vira FLOR.

 

 

5)       Você é mato-grossense, mas afirma em sua biografia que é roraimense de coração. O que leva a fazer tal afirmação?

RF Nasci em Alto Araguaia e passei minha infância em Alto Garças, ambas de MT. Meu sangue é mato-grossense, encrenqueiro, cheio de coragem e força. Depois a vida letrada me mandou para Goiás que me embriagou de amor pela terra, pelas pessoas. E quando cheguei a Roraima, senti o mesmo carisma dos goianos e o sangue mato-grossense. O calor do abraço e do sorriso de caboclos com a  diversidade cultural me fizeram amar as pessoas da terra. E a comida gostosa do norte também.  Se eu morrer aqui, diria que amei essa gente. Se for embora, elas ficarão em mim, na memória e na alma para sempre, assim como a educação e paciência dos goianos vieram comigo e o lado de “onça do mato” me seguiu para essas bandas daqui.

 

6)       No contato que tivemos com sua obra percebemos que você possui outras. Dentre elas, qual a de maior destaque na sua produção literária? Onde foi publicada?

RF: Como já disse. Nenhuma tem destaque. Eu sou o esconderijo da obra. Publiquei poemas em A nova literatura virtual, Palavras na era da imagem, Poemas de amor para sempre, pela Litteris Editora (RJ), e outras antologias como Palavras do tempo, da Editora Scortecci, em São Paulo, que não me recordo. Há todas listadas em meu lattes. Dos livros, publiquei minha dissertação de mestrado, pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (RJ), e os dois últimos: Poiesis em verso e prosa e Cantares de amor. Tenho um quarto livro que será, a priori, “A lírica dos amantes” que está quase pronto, mas não tenho tempo e nem editor ainda. Não quero publicar pelas mesmas editoras que não divulgam a obra. Até agora não tenho destaque e nem obra que mereça ser elevada. Elas estão por aí e o tempo dará todas as respostas, como bem disse o Eclesiastes: “Há para todas as coisas um tempo e um propósito debaixo do sol, o resto é vaidade”. E a minha única vaidade é a poesia, sem exibicionismo da autora.

OBSERVAÇÃO: As obras POIESIS EM VERSO E PROSA, e CANTARES DE AMOR podem ser adquiridas no site http://www.livrariacultura.com.br OU http://www.multifocoeditora.com.br .