ENTREVISTA IDENTIDADE E CULTURA: ZECA PRETO E ELIAKIN RUFINO

 

Profa. Dra. Rosidelma Fraga

 

1. RF.  O autor Stuart Hall (2003) conclui que “o racismo biológico e a discriminação cultural não constituem dois sistemas distintos, mas dois registros de racismo” (HALL, 2003, p. 68). Efetivamente, eu como leitora recém chegada em Roraima, não vejo nas músicas do trio Roraimeira nenhum traço peculiar de denúncias sobre o racismo biológico e cultural que muitos indígenas ainda sofrem em pleno século XXI. Há um distanciamento entre o que se propõe como arte de exaltação cultural e o que de fato ocorre com o indígena no que se refere ao preconceito como se fosse uma utopia. Por exemplo, enquanto em A mulher no garimpo há uma visão preconceituosa e revoltante sobre a mulher indígena, em músicas como Ser índio e Casa de caboclo há imagens de exaltação que orgulham os seres indígenas e negros. Como os escritores vêem essa dicotomia entre a arte e a realidade com o indígena, em particular?

 

ZECA PRETO: Em nossas obras procuramos passar o Belo como forma de alertar esse mal (preconceito, não mate a mata, não faço o índio de escravo, etc). Ao contrário procuramos mostrar a estética. Por exemplo, se me falam: “Como é linda essa floresta” Eu minha comunidade jamais irá derrubá-la ou tocar fogo. Em Ser índio e só, fazemos um parâmetro entre Os Lavrados e Os Pampas, e enfatizamos que somos índios em qualquer lugar, seja no Caburaí, ou seja, no Chuí e poetizamos dizendo que: “de Pacaraima vejo os Pampas” e o queremos ver o nosso índio cantar. Achamos que o Belo é uma forma de instruir e fazer compreender muitas coisas.

ELIAKIN: Algumas músicas do Trio Roraimeira são de exaltação ao que Roraima tem de mais bonito: a paisagem natural exuberante e a paisagem social plural e diversificada.  Para que o show Roraimeira pudesse contribuir na divulgação turística do nosso Estado, fizemos uma opção preferencial pela estética. No entanto, em minha carreira solo, tenho uma extensa lista de músicas e poemas que tratam da vida os povos indígenas em Roraima. Música, recomendo: Tudo índio, Memória da tribo, Posto de atração, por exemplo. Poema, recomendo a leitura: Presença indígena, Estilo colonial, A corrida do ouro (escrito em 1989 e publicado no Facebook na segunda-feira, dia 17 de julho). Nós nunca quisemos deprimir nossa plateia, expondo no palco, os problemas cruciais de Roraima, como o garimpo, a corrupção e o racismo contra os índios. Cantamos a integridade e a dignidade, o talento e a beleza indígena, que não desapareceram com a invasão branca. Os problemas, embora mereçam uma canção ou um poema, necessitam de ações em outras instâncias para a busca de soluções. Mas sempre fomos parceiros, solidários e engajados na defesa dos povos indígenas de Roraima, do Brasil e do mundo. Não é um sentimento caseiro.

 

2. RF. Como os escritores entendem a divulgação de certos escritores no estado de Roraima que, por questões políticas ou indicações governamentais, ensejam como “cânone” em Roraima, mas não tem quiçá grande mérito comparado ao valor artístico e cultural do trio Roraimeira e de obras da literatura de qualidade que vem sendo produzida em Roraima?

ZECA PRETO: Temos muitos escritores de conto, poesia etc... Acho fundamental que volta imediatamente para escolas a Educação artística, onde o aluno possa fazer seus poemas, seus quadros, suas músicas... Isso cria um aperfeiçoamento nos DONS que aparecem com seus textos engavetados, com vergonha de apresentá-los. Que volte para as escolas a Educação Artística, o mais rápido possível.

ELIAKIN: Como o movimento Roraimeira sempre foi a favor dos povos indígenas, a elite política e econômica de Roraima, rejeitou de imediato essa forma de expressão. Até os dias de hoje, nossa música não é executada em nenhuma emissora de rádio, nem na Rádio Universitária, da UFRR.  Esses falsos ídolos, esses ídolos de barro, são impostos autoritariamente agora, mas não resistem ao tempo. Nenê Macaggi foi entronada primeira-dama da literatura roraimense porque escrevia o que a elite queria.  Agora que ela está sendo lida, revelam-se os conteúdos ideológicos presentes no seu texto. Sou autor do primeiro livro de poemas lançado em Roraima, Pássaros ariscos, em 1984.  De lá pra cá, já lancei 11 livros de poemas.

 

3. RF. Em minha opinião mato-grossense, o destaque nacional de autores de obras indígenas como Jaider Esbel, Cristino Wapichana e Daniel Munduruku são exemplos de que a obra fala per se.  E não é o atributo do governo de um estado que faz a obra literária e a música terem reconhecimento fora do localismo ou de uma região. Como os escritores do trio Roraimeira entendem esse processo na formação de um possível juízo de valor à música e à literatura em Roraima?

ZECA PRETO: Nada mais universal que cantar sua aldeia... Isso por si já responde muita coisa. Eu particularmente gosto de ser chamado de Cantados da Amazônia.. Região que conheço. Aqui comemos a mesma farinha, tomamos açaí, buriti... Pra eu é uma questão de opção ser conhecido na Amazônia. O resto é consequência.

ELIAKIN: O sucesso do Trio Roraimeira sempre foi fora de Roraima. E aqui mesmo, em Boa Vista, quem nos procura para comprar discos e livros, ou contratar shows, são pessoas que não nasceram em Roraima. E há, é claro, um grande grupo de roraimenses que amam a nossa produção e se identificam com ela. Com trinta anos de caminhada artística, ano passado, 2016, o Trio Roraimeira, lotou, durante três noites, o Teatro da Caixa, em Curitiba.

 

4. RF.  Percebe-se que o Movimento Roraimeira teve assaz relevância para a construção e divulgação da diversidade cultural e identidade do povo de Roraima e de suas fronteiras internacionais. Como leitora de fora, achei muito louvável a música RORAIMEIRA ser instituída por Lei 1007/15 como o Hino Cultural do Estado de Roraima. Entretanto, creio que, assim como a literatura produzida em Roraima, as canções também não têm o destaque tão merecido em todo país. Como o trio Roraimeira entende esta recepção do público comparado ao reconhecimento que foi tão tardio quanto o de muitos artistas e escritores que lançam uma obra ou um CD e faz um sucesso talvez efêmero, mas em maior velocidade?

 ZECA PRETO: A diversidade cultural é muito forte. Uma terra feita de pajés e corações de cada canto do país ( citado na música Canto das Pedras). Claro sabemos disso, porém tomamos consciência que a solução é acomodar as diferenças e tentar criar daí uma Identidade própria...Hoje sabemos que o roraimense tem orgulho em dizer: Eu sou de Roraima... Há pouco tempo atrás tinha vergonha disso. Essa foi a terceira iniciativa de tornar a música Roraimeira em Hino Cultural de Roraima.  Eu autorizei, acho que já estava na hora e o povo também. Muito orgulho meu. Acredito que essa Amazônia se tornará um celeiro de Cultura. Acredito nesse mercado musical que tem mais 23 milhões de habitantes. Basta que 1% dessa população seja esse mercado consumidor de nossas obras... Imagina poder escoar nossas obras aqui mesmo nessa imensa Amazônia. Acredito nesse Mercado.

ELIAKIN:     Nunca fizemos arte para obter reconhecimento O Movimento Roraimeira é uma atitude de resistência ao neo-colonialismo interno. Fazer sucesso em todo país passa por mecanismos e estratégias do mercado fonográfico. Nossa arte, voltada para construção das identidades, não compete e não pode competir com algo feito para o consumo imediato ou durante um verão, um carnaval ou uma temporada. Sempre digo que aqui nós não fazermos carreira artística e sim caminhada artística. A velocidade não nos interessa, nossa arte é uma canoa que desce o rio ao sabor da correnteza.

  

5. RF. Entre outros grandes atributos, as músicas do trio Roraimeira permitem uma divulgação do turismo em Roraima, bem como da cultura e identidade. Também como divulgação de consumo e exposição nas redes sociais, as filmagens do monumento Roraima exibidas na Novela Império, da Rede Globo, permitiu que o Monte Roraima ganhasse mais repercussão quanto aos aspectos também geográficos, permitindo aos olhares mundiais a visão de uma Roraima como espécie de Pasárgada topofílica. Não obstante, essa divulgação não deixou de ser também um produto demarcado pela globalização e encenação (mise-en-scéne) efêmera do lugar lindo que é aqui. Nota-se a divulgação do Monte Roraima sequer tangenciou a lenda de Makunaima e toda a historicidade cultural indígena, a vida de indígenas nas comunidades, etc, fatos que NÃO ficam implícitos nas canções do trio, pois a poeticidade inerente aos versos permite o enaltecimento das belezas lendárias de Roraima e do povo que aqui vive. Como os artistas explicam este acontecimento na televisão sobre Roraima e a diferença grande na música que canta Roraima?

 

ZECA PRETO: A cultura é com certeza o fomento para a comercialização do Turismo. Eu te juro que pensei que iríamos acontecer (com toda aquela divulgação do Monte), pois nossas músicas e poemas são encharcados desse lindo regionalismo. Olha, talvez pelo discurso da estética em só falar e cantar o Belo. Talvez seja isso. Os nossos textos encaixavam lindamente em determinados momentos, pois tinha momentos horríveis com a devastação em busca de ouro e diamante. Faço uma citação em Roraimeira que parece uma coisa normal, mas não é: “...Diamante, ouro. Amo-te Poeira, Poeira... Será se não passa alguma coisa?”. Acho que ficaria feio dizer: “Não quero saber de diamante nem ouro. Amo-te Roraima”. Às vezes se peca por tornar as coisas poéticas.

 

ELIAKIN: Um dos maiores sucessos do trio é a música Makunaimando.  O LP Roraima, gravando em 1992, trazia em seu encarte um glossário com 76 vocábulos regionais, quase todos de origem indígena. As músicas Maloca do Perdiz, Boca da mata, Parixara, e tantas outras, exibem a cultura indígena, valorizando sua ancestralidade, ressaltando sua importância histórica.

 

6. RF. Nos versos de Mukama, há que se deleitar nas múltiplas identidades: “Quero a minha América latina preta, branca, roxa, colorida extrenorte americano brasileiro (Zeca Preto. In: Mukama)”. Como leitora, vejo um mosaico de raças e cores que formam a identidade na construção da identidade e diferença abordada por Tomaz Tadeu da Silva (2000) na obra de mesmo nome. Como Zeca Preto, Neuber Uchôa e Eliakin Rufino entendem essa diferença em Roraima hoje comparado à década de 1980?

 

ZECA PRETO: Infelizmente não li Tomaz Tadeu da Silva. Por se tratar de música autoral, gosto de abusar das palavras e verbos que não existem. Realmente um embrulhado de termos, todos com sentidos, é preciso compreender essa emoção de criação. Quero parimar a Mucajana. E no final citação das estrangeiras vindo da Guiana (na época Guiana Inglesa), que servem até hoje de empregadas domésticas, não bem tratadas. Essa história daria um livro.

 

ELIAKIN: Roraima, se não é o mais brasileiro, é o estado mais abrasileirado do país. Aqui vivem brasileiros de todos os demais estados. Duas fronteiras, uma de língua espanhola e outra de língua inglesa. A grande presença indígena.  Presença de outros estrangeiros como italianos, japoneses, árabes, etc. Diversidade é nossa identidade. Acomodação das diferenças, inclusão das diferenças, é parte do nosso trabalho artístico. Roraima é o resumo do Brasil, é a síntese do Brasil. Nós estamos trabalhando na construção da identidade do povo brasileiro, não é uma questão local.

 

7. RF. Ao escrever sobre a cultura nos trópicos, o crítico Silviano Santiago (2002, 312), elucida que o imaginário nacional e cultural não se explicita somente pelas representações que ele consegue produzir, mas ainda pelo viés de múltiplas ausências de representações. Este imaginário de representações culturais recônditas pode ser encontrado na canção Norteando, Zeca Preto e Tati Garcia, a qual abre o leque para pensarmos na identidade do sujeito roraimense, que em sua dimensão local se deflagra com os mitos e fenômenos geográficos corroborando para o imaginário plural brasileiro: o pororoca, a lenda cruviana, o saci Pererê, o mito da cobra que pode ser de Norato, o enredo proveniente das malocas indígenas sobre as façanhas do Jabuti e da Onça (especificadas em algumas narrativas orais indígenas), em particular. Como Zeca Preto, Eliakin Rufino e Neuber Uchôa concebem este imaginário cultural brasileiro presente também nas músicas do trio e não somente a representação da identidade cultural em Roraima?

 

ZECA PRETO: Essa é uma música que gosto de cantar, me sinto passeando nessa imensa Amazônia. Foi composta depois de uma turnê pela região... Foi quando vi em loco, cada reação de público ao ouvir nossas músicas, mas com a certeza de estarem entendendo o que eu falava.  Já é uma coisa boa..

ELIAKIN: Nós fazemos canção, poema, arte. Tudo é matéria-prima para a criação da nossa arte, inclusive o riquíssimo acervo do imaginário cultural brasileiro e amazônico.

 

8. RF.  Conforme a pesquisadora Cátia Wankler, as manifestações culturais são “tipicamente nordestinas, produto do fluxo migratório constante proveniente de estados do Nordeste, (...) outras de feição mais indígena e outras, essencialmente híbridas” (WANKLER, 2009, p.27). Tais feições de hibridismo cultural podem ser bebidas na canção Casa de caboclo em que a voz poética desabrocha e entoa o cruzamento das culturas indígena e a africana, um dos focos que defendo em minha pesquisa.  Como os artistas veem este hibridismo cultural aqui em Roraima e planejaram a composição das canções que compõem os vários CDs e  a obra Songbook?

 

ZECA PRETO: Essa é outra música autoral.  Quando compus, pensei em homenagear o Candomblé. Falar da fome e sede do negro etíope e todo ser sofrido: e assim preferir pedir ajuda ao meu Pai pra esse povo africano, nossos irmãos. Tirar as sandálias pra entrar/ O sumiço do frio, fome e dor/ A cantiga implorando amor/ Um sofrido tambor a rufar/ Liberdade meu Pai, Saravá/Ajuda a Etiópia meu Pai...  achei legal. Cátia Wankler, sou fã exageradamente. Amo de paixão, amiga do coração. Pra rimar: Desculpa a empolgação.

 

ELIAKIN: Em Roraima existem mais de 150 casas de culto pertencentes às religiões de matrizes afro-indígenas. Encantaria Brasileira, o livro dos Mestres, Caboclos e Encantados, de Reginaldo Prandi, reúne artigos de pesquisadores sobre esse tema. Tenho notícia de que no Acre há uma manifestação religiosa chamada Umbandaime. Temos uma cultura em permanente transformação. Nós fazemos arte, os conceitos são com vocês, pesquisadores.

  

(Nota explicativa - Esta entrevista foi realizada por mim no momento de pesquisa de Pós-Doc (Programa Avançado em Cultura Contemporânea) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em entre 2016 e 2017 e somente agora, com um ensaio aprovado para congresso, decidi publicar parte, com a autorização dos entrevistados. Antes que digam que excluí o Neuber Uchôa, afirmo que por alguma razão, na época, o autor não pôde responder, mas continuo fã e analisei as letras das músicas dos três).

 

(Foto: os direitos autorais da imagem, além dos autores, creio que pertencem a TV Roraima).