Reginaldo Miranda[1]

Um dos primeiros engenheiros civis a fixar residência no Piauí, foi o alemão[2] naturalizado brasileiro, Alfredo Modrach, onde prestou relevantes serviços profissionais e deu grande contribuição à sociedade.

Veio com o engenheiro Antônio José de Sampaio, no ano de 1889[3], tendo se responsabilizado pela elaboração da planta e execução da obra de construção da pioneira fábrica de lacticínios de Campos, inclusive pela instalação dos modernos equipamentos trazidos de Hamburgo, sua pátria. Fixando residência na referida fazenda Campos, ali tocou a administração das máquinas mesmo depois do afastamento de Sampaio, em 1901, passando a trabalhar com outros administradores, a exemplo de Gervásio Pires de Sampaio e Ângelo Acilino de Miranda.

Mas a atuação do dr. Modrach não se restringiu apenas à indústria de lacticínios, tendo prestado outros relevantes serviços ao Estado do Piauí. Quando do transporte da maquinaria para montar a fábrica, em 1894, foi ele responsável pelo projeto e construção de ponte sobre o rio Itaueira. A pedido de algumas senhoras da sociedade, em 1890, elaborou a planta do Teatro 4 de Setembro, o primeiro e mais importante da capital piauiense, que foi por aquelas ofertada ao governador do Estado, Thaumaturgo de Azevedo. Com o ciclo da maniçoba, envidou seus esforços no desenvolvimento dessa atividade extrativa. Em 9 de março de 1913, assumiu interinamente a chefia do distrito de fiscalização da defesa da borracha[4], no Piauí e Maranhão, na ausência do engenheiro-chefe do mesmo distrito, Antonino Freire da Silva, que viajara para o Rio de Janeiro, a serviço da superintendência da defesa da mesma borracha. Nessa época, juntamente com o dr. Rudolf Beacker, promoveu uma exibição cinematográfica sobre a extração do látex da seringueira amazônica no Oriente asiático, com a finalidade de instruir e incentivar os maniçobeiros piauienses. No desenvolvimento desse trabalho esteve residindo na cidade de Bom Jesus do Gurgueia (Diário do Piauhy, 8.4.1913).

Em 9 de agosto de 1919, foi nomeado para o cargo de Engenheiro Residente da Estrada de Ferro de Amarração, hoje Luiz Correa, a Campo Maior. Em face desse trabalho naquela região, em setembro de 1919, foi admitido como sócio da “União Progressista dos Artistas Mecânicos e Liberais de Parnaíba” (Última Hora, 9.8.1916; Jornal do Comércio, 10.8.1919; A Ordem, 17.9.1935).

Nascido em 1860, na cidade de Dresden, Alemanha, era filho de Guilherme Theophilo Modrach e Emília Modrach.

Alfredo Modrach veio ainda jovem para a cidade do Rio de Janeiro, ali estudando até matricular-se na Escola Politécnica. No final do ano de 1886, foi aprovado em matemática, desenho linear e na cadeira de topografia e noções de astronomia, para os candidatos ao título de agrimensor, completando o curso de engenharia topográfica em dezembro de 1886 (Gazeta de Notícias, 9.11.1886; O Paiz, 23.11.1886; 23.12.1886; Diário de Notícias, 4.12.1886).

Três anos depois veio para o Piauí, a convite do Engenheiro Sampaio, seu professor na Politécnica, aqui prestando relevantes serviços. Depois, no exercício da profissão, deixou o Piauí e foi trabalhar em Natal, no Rio Grande do Norte, a serviço da construtora inglesa “Cleveland Bridge Engineering and Co”, que executava serviços para a proprietária da obra, a também inglesa “Great Western of Brazil Railway Company Limited”, na construção da ponte ferroviária em treliça metálica sobre o rio Potengi.

Mais tarde, fixou residência na cidade do Rio de Janeiro, onde também prestou relevantes serviços, inclusive junto ao Ministério da Viação e Obras Públicas.

Em 8 de setembro de 1900, às 17 horas, na fazenda Campos, então município de Oeiras, convolou núpcias com Ana Maria de Sousa Reis, nascida em 1872, filha do capitão Joaquim José de Sousa Reis e dona Antônia Maria da Silva Reis, ali residentes. No entanto, a esposa faleceu em 12 de dezembro de 1912, na cidade de Oeiras, vítima de tuberculose. Ficando viúvo, dr. Alfredo Modrach, então residente na cidade de Oeiras, convolou novas núpcias em 6 de julho de 1915, na cidade de Teresina, com dona Maria Teixeira de Lemos, que passou a assinar Maria Teixeira de Lemos Modrach, nascida em 17 de setembro de 1880, filha do coronel Ulisses Correia de Lemos e Maria Teixeira de Sá Lemos, esta oeirense.

Do primeiro matrimônio nasceram três filhos: 1. Alberto, falecido com oito anos de idade, de febres, na fazenda Cachoeirinha, termo de Oeiras, em 28 de março de 1910; 2. Antônia, nascida em 13 de junho de 1907 e falecida ainda criança; 3. Maria Guiomar Modrach Lyra, falecida em 4 de fevereiro de 1938, em Natal, casada com Paulo Lyra, deixando descendência; 4. Maria Guiomar Modrach Lyra, casada com Fernando Lyra, irmão do antecedente (A Ordem, 10.2.1938).

Do segundo consórcio deixou os seguintes filhos, todos nascidos na cidade de Floriano: 4. Alfredo Modrach Filho (Floriano, 2.5.1916 – Rio, 24.1.1991), empregado público, estudou na Escola Nacional de Belas Artes, casado com Maria da Hora Cardoso Modrach, sem sucessão; 5. Mário Modrach (Floriano, 24.9.1917 – Rio, 19.9.1952), comerciário, casado no Rio de Janeiro, onde residia, com Eunice Alves Modrach; 6. Ulisses Modrach, falecido com avançada idade.

O dr. Alfredo Modrach, faleceu vítima de arteriosclerose e insuficiência cardiovascular, com 79 anos de idade, em 12 de maio de 1939, às  6h da manhã, na residência do filho de mesmo nome, na Rua Thereza Guimarães, 19, cidade do Rio de Janeiro, onde residia, sendo o corpo sepultado no cemitério São João Baptista. Segundo a certidão de óbito declarado pelo filho Alfredo Modrach Filho, o falecido não deixou bens materiais, apenas três filhos maiores, vez que os outros haviam falecido antes do genitor. Foi homenageado com nome de ruas na cidade de Natal e no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Com essas notas resgatamos a memória desse honrado engenheiro teuto-brasileiro que adotou o Piauí como sua terra, muito contribuindo para o seu desenvolvimento.

 

 



[1] Advogado, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. A fotografia que ilustra a matéria, de Alfredo Modrack, foi gentilmente cedida pelo promotor de justiça Carlos Rubens Campos Reis, contraparente de Modrack.

[2] Existe um registro de imigração em 13 de outubro de 1893, na Bahia, com destino ao Rio de Janeiro. Certamente, foi à Europa a serviço do Engenheiro Sampaio.

[3] Quando da celebração do primeiro contrato de arrendamento das Fazendas do Real Fisco, depois Fazendas Nacionais, cujo contrato foi rescindido com a Proclamação da República e, novamente, renovado em 1893.

[4] Ocupava o cargo de Engenheiro de 2ª Classe.