Encontro com Sophia de Mello Breyner


Rogel Samuel


Conhecemos Sophia em sala de aula. D. Cleonice Berardineli a convidou para visitar a nossa turma. Quem nos lembra é a poetisa Bernardina Oliveira, que estava presente. Foi em 1966. Só me lembro de Sophia vagamente. D. Cleo nos dava aulas de poesia portuguesa contemporânea. Sophia nasceu 1919 e morreu em 2004. Naquela época era ainda uma mulher bonita. D. Cleonice gostava de nossa pequenina turma. Certa vez nos recebeu em sua casa, onde nos ofereceu um lanche, um ótimo lanche. Ela morava, na época, na esquina da Av. Atlântica com vista para o grande Oceano. Talvez por isso tenha sido professora de literatura portuguesa até hoje. Ao lado de seu apartamento, havia outro somente para seus livros. Ela era casada com um marido muito amoroso, um médico, que a vinha buscar todos os dias depois das aulas. Viúva, passou a dirigir seu próprio automóvel até recentemente, enfrentando a Av. Brasil para chegar ao Fundão.

A mim me deu um riquíssimo presente, mas ninguém viu, foi segredo: A edição das Obras poéticas de Pessoa, da Aguilar, que tenho até hoje. Com uma dedicatória: "Ao Rogel em quem deposito grandes esperanças. Cleonice Berardinelli". Cobriu a dedicatória com uma fita adesiva, para manter o segredo e não despertar ciúme nos colegas. Não sei se correspondi às esperanças dela, certamente que não.

D. Cleo estudou conosco, comentou e interpretou Sophia.

O poema talvez fosse:


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.