ELFOS E ÁRVORES

Miguel Carqueija

 

Resenha do livro “No coração da floresta”, volume 2 da trilogia “O povo das árvores”, por Gillian Summers (pseudônimo de Berta Platos e Michelle Roper), Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro-RJ, 2013. Título original: Into the wildewood” (Flux, EUA, 2008). Tradução: Flávio Carneiro Anderson.

 

            O que salva este romance, que dá sequência às aventuras e desventuras da meia-elfa Keelie Heartwood, é a narrativa exímia e rápida, onde praticamente novos acontecimentos sucedem a cada página, e o humor entremeado, pois nem o Harry Potter, nas encrencas em que se metia em Hogwarts, era tão maltratado, insultado e perseguido pelos adultos como a pobre Keelie, de 15 anos, nos festivais renascentistas, medievais e nômades onde tem de acompanhar o pai, Zeke, um elfo autêntico. E no entanto Keelie é a heroína do romance, ela é quem, na hora H, com a sua empatia junto às forças naturais, derruba o mal e restaura a ordem.

            Um personagem importante na trama, porém extremamente irritante, é Zeke, o pai de Keelie: arrogante, cretino, imbecil, repressor, todos os xingamentos que você possa imaginar cabem nele e a Keelie, pelo fim das contas, apesar das brigas é até muito condescendente com o pai sacripantas. Ele não protege a filha, não a esclarece sobre coisas que ela precisava fazer, submete-se ao preconceito racista de elfos contra mestiços (vai às reuniões de elfos aceitando não levar a filha) e chega a deixar Keelie passar fome, além de não lhe dar mesada e obrigá-la a trabalhar em empregos idiotas sem carteira assinada, para ganhar o pão de cada dia.

            Apesar das qualidades literárias deste livro eu não consegui fazer a “suspensão de incredulidade”. Rowling conseguiu ser mais verossímil com Harry Potter.  Não percamos de vista que o mundo de Keelie Heartwood é o nosso mundo, sob ótica ficcional; não é o País das Maravilhas de Carrol ou a Terramédia de Tolkien, ou a Nárnia de Lewis.

            E simplesmente não dá para aceitar que as árvores sejam seres racionais e telepaticos, com nome e tudo, e que tenham faces nos troncos, que só algumas pessoas como Keelie enxergam; e que possam se mover, atirar bolotas ou nozes como projéteis e até se desenraizem quando muito irritadas e ataquem as pessoas. Embora o grande vilão, o elfo Elianard, possa receber a conta de muita coisa ruim que acontece, não posso deixar de pensar em que as autoras da novela erraram a mão e esparramaram no texto muita inverossimilhança; se tais coisas existissem acabariam sendo descobertas pela humanidade, como a amiga de Keelie, Lucien (equivalente à Tomoyo de “Sakura Card Capter”) descobriu.

            Vale lembrar que a magia é, em tese (se realmente existisse) apenas a manipulação mental das forças da natureza.  Assim em Keelie Heartwood, como em Star Wars ou em Harry Potter, a rigor não existe espiritualidade alguma: nem Deus, nem santos, nem Além nem orações. Keelie não pede ajuda a Deus, aos santos ou aos anjos, mas a pedras e árvores. A história transmite um paganismo da natureza, tipo “wicca” — talvez muitos leitores não percebam, mas foi o que eu senti. Infelizmente essa tendência é muito pronunciada nos tempos atuais.

            A notar porém que o romance possui muitos méritos em criatividade e agilidade narrativa e na exaltação de certos valores morais como a coragem, a lealdade, a integridade de caráter.

 

Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 2017.