Vivemos no mundo do irreal onde tudo o que vemos é somente uma sombra imperfeita de uma realidade mais perfeita.

Platão

Há quanto tempo esperavam? Não sabiam. Essa, no entanto, sempre fora a marca de suas vidas: longos momentos de um não agir, intercalados por breves períodos de intensa agitação. Contudo, o que os tornava, muitas vezes, impacientes e nervosos era o fato de estarem confinados em um espaço diminuto. Nele permaneciam tão próximos uns dos outros que tinham dificuldades até para respirar. Nesses momentos, sonhavam com a liberdade. Livres, poderiam cumprir a missão para a qual se sentiam predestinados. Para alguns, entretanto, essa seria uma viagem só de ida, enquanto, para outros, um movimento ininterrupto, partindo e voltando, de cá para lá. Porém, nenhum deles sentia medo, pois uma força invisível sempre os impulsionara orientando-os no caminho a seguir. Quando ela estava presente o espaço em torno deles se modificava, preparando-os para o que poderia acontecer. O nervosismo e a ansiedade, nessas ocasiões, aumentavam, tornando a tensão insuportável. Esse, no entanto, era um preço muito baixo a pagar. Afinal, a presença dessa poderosa força impelindo-os para frente era seu único passaporte para a tão sonhada liberdade. E quando ela finalmente fosse atingida eles, no cumprimento do seu destino, passariam a ser chamados de Mensageiros ou Portadores.

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No quarto, um pesadelo despertou o menino. Assustado, ele viu no escuro os monstros do seu sonho. Com medo, pôs-se a gritar. Seu pai o encontrou em lágrimas. E apenas quando a lâmpada do abajur foi ligada, e o quarto se encheu de luz, o menino, enfim, parou de chorar.

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Felizes por sua liberdade recém-conquistada, os Mensageiros esforçavam-se em realizar a sua missão. No fio incandescente da lâmpada acesa, em silêncio eles corriam de um lado para o outro, sem saber que, com seu esforço, os monstros que tanto assustaram o menino, como num passe de mágica, simplesmente haviam desaparecido.