Rogel Samuel

Traduzir, além de ser uma arte, exercício útil ao escritor, para excitá-lo. Traduzir o poeta que mais amamos faz do trabalho um extremo prazer. Traduzir faz aprender, mergulhar no misterioso subterrâneo do texto e das duas línguas. Poucos tradutores agigantaram o texto original, em colaboração com a origem. No meu insignificante caso digo: ainda hei de tentar traduzir “ Le bateau ivre”, de Rimbaud, com seus 100 versos de ouro puro.

Vejamos um caso de tradução comparada, de Rainer Maria Rilke, mas sem comentário:


O torso arcaico de Apolo,

Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erger-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.

(Tradução: Paulo Quintela)


Não, não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro, onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.

(Trad. de Manuel Bandeira)