Senhores,

Este livro de estreia foi escrito, essencialmente, com a segurança da reclusão. Cansei de chamar minha timidez e nervosismo de defeito. Como também quero uma noite light, prefiro chamá-los de “minha essência”. Assim, não me sinto isto nem aquilo; apenas me sinto e desejo tornar mais fácil o meu amor. Este amor é autoperdão, para apagar a ideia de eu ser, neste momento, um motivo. Estou cá confabulando amigos e parentes a esperar menos e a ganhar mais. O que está me salvando a vida é mesmo a escrita!

Para repetir Alberto Caeiro, escrever é minha maneira de estar sozinho. Vou me salvar agora desviando a atenção para breves considerações sobre a gênese do conto que intitula a coletânea, o conto Paradeiro. Logo após, espero estar antigo no resto da obra.

Aconteceu que, por conta da tarde de 19 de junho de 2009, foi-me negado controlar o mundo do personagem Antônio Soares Monteiro. Ele é infinitamente maior que a própria história. Daí o subtítulo Histórias mal contadas ou entre o medo e a saudade. Um indefeso senhor de 71 anos pode vencer todas as palavras que eu tinha de reserva em toda minha formação. Eu o obedeci, e fico feliz quando Monteiro é literatura, porque alguém no mundo pode se salvar. Alguém que ganhou sem coincidências. Pai de família e bondoso por pura distração é o que posso dizer com um sentimento impedido de inventar.  Já esse alguém salvo é quem vive com o velho e faz dele o que costumo fazer com Dostoiesvisk, Maupassant, Kafka, Joice, Prost, Herman Hesse, Borges, Cortázar, Neruda, Hemingway, Pessoa, Tchekhov, Tolstói...

Paradeiro é meu? O melhor da história é saber que Monteiro tem vida própria, mesmo quando eu fantasio seu braço em torno de meu pescoço. Seu braço não está na narrativa, e esta é a única liberdade: ganho-lhe mil braços porque da trama consigo, ao menos, meus segredos mais antigos e pouco elucidados. Este conto me é, mesmo quando estou também o descobrindo. Os possíveis leitores amigos são inocentes: Monteiro não morre na história. Acabo de descobrir que não terminei a história para quem o ler e me acaricia o rosto. Era para narrar somente a vida de um pai de família nervoso e doce. Então a traição é minha. Meu possível leitor querido vai por o livro na fogueira enquanto o possível leitor real pode comprazer-se das cinzas.

É que os livros, os livros eu apenas lia, e podia esperar por um Leopold Bloom, perseguir um Raskólnikov, entregar-me a uma Diadorim, chover uma Macabéa... 

Eu escolhia textos para amá-los e textos para ferir.. Escolhia livros e não autores. Eu oferecia vida social a um Sherlock Holmes ou negava Policarpo Quaresma ou me casava com Emma Bovary... Os livros nasciam das prateleiras, onde eu podia adotá-los por algum instante. Eles não tinham vida própria, porque feitos para lê-los, vivê-los à minha maneira. E eu os lia ora traindo-os para correr perigo, ora salvando-os para fugir do tédio. Quantas vezes atirei no peito de Pedro da Maia apenas para pintar Dorian Gray? Quantas vezes me subjuguei às mulheres machadianas somente por estar cansado da inocência de Josef K? Cansado de mim, eu costumava não deixar o Horla sozinho. Cheio de vida, eu também acenava para o Esteves tomar de conta da Tabacaria.

Mas quando da autoficção perdi todo o modo interesseiro de leitura. A história de Monteiro, eu não posso conduzir. A respeito de sua trama, pouco importa meu desprezo ou carinho. O enredo é indiferente a meus impulsos e paixões. Por isso fui obrigado à nota:

Este livro esteve melhor escrito quando da falta de história tão fácil de contar. Apenas leitores inconscientes de sua escrita salvariam minha literatura. Este livro é minha pior bondade, pois – sem paradeiro – descubro o caminho.

Esta nota dispensa todas as páginas seguintes. Eu não precisava de histórias; elas eram minhas porque eu as queria. Eu era um leitor inconsciente, para poder fantasiar. Uma vez escrevendo o paradeiro do velho, toda a coletânea crispou em algum momento. Foi quando realizei minha pior bondade: a de fechar um livro sem as despedidas propositalmente frias ou doces. O livro me escreveu de tal modo que nunca mais saberei contá-lo. Se contá-lo, posso ser traído por palavras que escolhi; se não contá-lo, estarei adiando meu caminho, e sei que ainda não sou capaz de outro.

Como tão pouca literatura é capaz de desprezar meus melhores esforços e intenções? O conto Paradeiro é justo, e não vingativo. Eu preciso respeitá-lo. Na verdade, as alegrias e as dores eu também posso ter, como um leitor qualquer. Apenas não posso mais ser bom ou ruim quando sou obrigado a ser honesto com a narrativa.

Já que apenas crispei toda a obra, há algo mais a revelar. Antes de tudo, afirmo que o livro não é alegre nem triste. O livro é. No conto Dona Maria, por exemplo, a senhora e o garoto me fazem lembrar um segredo que não digo, e eis que ganho pernas no livro; pernas de pau que me levam para meus paradeiros... Há uns fragmentos que posso viver, mesmo que fora da obra. Afinal, fora da obra os outros também vivem, posto a narrativa ser uma liberdade. No terceiro conto, temos a diarista e sonhadora Ada.  Foi atribuído a ela todo o segredo da vida. Aquela moça quer tanto viver que somente na condição de personagem é que pude suportá-la. Ferreira Gullar estava certo, o sujeito escreve quando a vida não basta. Adazinha com sua pobreza rara desenha a realidade das moças que se cumprem em qualquer circunstância que lhe for dada. Talvez Ada e Monteiro sejam os verdadeiros heróis no livro. A diferença entre eles é que Monteiro é o abraço que Ada me deu.  

Ao modo da automação temporal em Água viva, de Clarice Lispector, escrevo na madrugada deste sábado 06, e julgo que, aí nesta livraria, onde minha voz nasalizada e mansa ecoa vagos paradeiros, aí nesta livraria - a esta altura do sábado - eu esteja mais acostumado com a leitura do que ainda vou confessar: J.S, personagem do quarto conto, J.S. sou eu para falar em público. Vejam que contradição: salva-me agora quem não comprou nem leu o livro. Não quero spoilers de mim. Não é à toa que o título Redescobrindo Teresina veio fácil, e não abrirei mão dele nem agora aqui em casa, muito menos agora neste evento. Aqui me sinto de tiro certeiro: a solidão de J.S está me dando certo!...

A segunda parte do livro também é de fácil aproximação: De volta ao esboço (para indicar continuidade) e fica comigo (para sugerir, nessa metáfora morta, que as três últimas histórias não terminam nem começam o livro, mas o prosseguem fragmentadamente). Quase não dei nomes a personagens e também não me preocupei com descrições anatômicas. Alguns indivíduos se confundem com os da primeira parte, e esse mistério é também meu (gosto de ficar refém, como fez Machado de Assis ao construir ambiguidades para ele mesmo em Quincas Borbas e Dom Casmurro, para não alongar muito). O alto da montanha, A chuva e Travessia são contos mais juvenis e mais selvagens. Neste lado B, as personagens vivem seus percursos, suas profundezas faiscantes nas estradas de Água Branca, Olho D’agua e Teresina e de forma mais intensa do que na primeira parte, embora mais pueris. No lugar de fechar o livro, eu preferi chamar ainda mais a atenção do leitor para um horizonte e suas miragens; horizontes de uma inexatidão sem alardes ou prévias injustiças. Ao contrário, uma inexatidão clara, porque presente.  É a vida realizada num movimento em processo. As personagens estão sempre com novas perguntas que são silêncios, a fim de saltarem fora da obra, onde nascem as mais belas e autênticas narrativas. O possível leitor vai estar de posse de obra inacabada, como é a vida em todas as suas revelações. E está dito o necessário.

(G. Monteiro, a 06.08.2016)