Linz, 12 de julho de 1620.

Sinto vergonha de admitir o quanto de paz de espírito conquistei com a morte de dois seres humanos. A morte de Barbara e Brahe trouxe um novo alento à minha atormentada vida. Os dois sabiam apenas impor-me humilhações; a primeira, ao homem e o segundo, ao matemático. Lamento somente a morte de meu filho inocente. A doença é impiedosa, seiva vidas sem olhar o coração. No entanto, permaneço acreditando na sabedoria divina.

Alguns invejosos acusam-me de ter assassinado Brahe com o propósito de me apropriar de suas “riquezas astronômicas”. Mentiras! Sim, eu não o apreciava, sim, discutíamos o tempo todo, mas daí a assassiná-lo há uma grande distância. Não sou um assassino. Todavia, não negarei que a sua morte beneficiou-me em muitos sentidos.

As informações tão zelosamente escondidas por Brahe estão muito além do que eu imaginava. A partir deles pude confirmar conceitos que me permitiram elaborar um novo e maravilhoso modelo do universo. Além disso, fui nomeado matemático imperial. Rodolfo II tornou-se meu protetor e incentivador, assim, nada mais justo do que dedicar minha mais recente obra – “A Astronomia Nova” – a ele.

Não tenho mais dúvidas de que o Sol está no centro e é a causa do movimento da Terra e dos outros planetas. Do mesmo modo, as órbitas. Elas não são perfeitamente circulares – como defendem meus colegas –, mas elípticas. Foram setenta tentativas e cinco anos de pesquisa, mas valeu a pena. O sistema cosmológico que hoje ofereço é mais completo, mais simples e mais de acordo com a obra de Deus.

Todavia, como nasci debaixo de uma má estrela, minhas conquistas sempre vêm acompanhadas de dores e sofrimentos. Meu imperador prometeu-me uma soma considerável para a publicação do livro, porém, esse dinheiro até agora não tem passado de uma promessa. Além disso, o genro de Brahe vem importunando-me de todas as maneiras possíveis, exigindo direitos sobre o livro e querendo escrever um prefácio que enalteça seu falecido sogro e diminua todas as minhas descobertas.

Enfim, minha vida é feita de alguns poucos sucessos e infinitos dissabores. Mesmo os que se dedicam ao estudo da natureza e compartilham de minhas ideias deram-me as costas. O italiano Galileu Galilei, apesar da minha insistência, tem se negado a emitir uma opinião sobre os meus trabalhos. Agora, é ele que está sendo alvo de todo o tipo de calúnias. Sua famosa luneta só tornou seus inimigos ainda mais furiosos. Contudo, suas observações têm apenas confirmado minhas próprias descobertas. Talvez se tivéssemos trabalho em conjunto teríamos mais força para enfrentar esses ignorantes maledicentes.

Atualmente vivo outro momento de extrema tensão e perigo. Katharina está sendo acusada de feitiçaria.

Minha querida irmã Margarete escreveu-me uma carta desesperada dando-me conta do que está acontecendo com nossa mãe. A princípio pensei tratar-se de uma brincadeira de mau gosto. Afinal, Katharina nunca foi a melhor das mães, mas não é uma bruxa. Porém, para meu espanto, a situação é realmente séria, Katharina está correndo o risco de ser queimada na fogueira.

Meu primeiro ato foi enviar uma carta de protesto ao chanceler argumentando que toda a acusação é uma grande estupidez. Segundo Margarete, eles estariam tentando, inclusive, sujar meu nome, imputando-me acusações igualmente ridículas. Querem impor-me a marca de filho da bruxa.

As denúncias mencionam sortilégios variados que provocariam enfermidades, dores e até paralisia. São um amontoado de absurdos, simples fofocas de comadres, como tentei demonstrar em minha carta. No entanto, o passado de Katharina não ajuda (uma tia foi queimada na fogueira por motivos semelhantes), assim como seu temperamento irascível. Ela não consegue permanecer calada.

Margarete suplica que eu vá em seu socorro, pois o processo contra Katharina evolui rapidamente para um desfecho trágico. Assim, devo interromper meu trabalho, enfrentar uma guerra que está prestes a eclodir e desembolsar um dinheiro que não tenho. Definitivamente, na noite de meu nascimento as estrelas não estavam ao meu favor.

De qualquer maneira, preciso ir até Wurtembergue, pois consegui, junto ao chanceler, um adiamento de cinco semanas para o início da tortura. Enquanto isso, Katharina permanece presa e em completo isolamento. Devo, então, me apressar, com 75 anos, se a tortura não matá-la, as condições de sua cela o farão.

Peço a proteção de Deus nessa viagem perigosa e que Ele me ajude a encontrar as palavras certas para convencer os juízes da inocência de minha mãe. A ideia da tortura e da morte pelo fogo me repugna e apavora. Preciso impedir a qualquer custo que isso venha a acontecer.

 

Continua...