Sexto bispo nomeado para o Maranhão, embora o quarto a tomar posse efetiva do cargo, foi o primeiro deles que exerceu autoridade eclesiástica no Piauí, tendo perlustrado todo o seu território e aqui se demorado por largo período. É figura de primeira grandeza na história colonial brasileira. Teve no cônego Raimundo Otávio Trindade, historiador mineiro, um dedicado biógrafo.

Nasceu Dom Frei Manuel da Cruz, em 5 de fevereiro de 1690, na Casa do Carvalhal, freguesia de Santa Eulália da Ordem, comarca de Lousada, quarenta quilômetros ao norte do Porto. Antes de iniciar vida sacerdotal, assinava com o nome de Manuel Ferreira Freire da Cruz. Foram seus genitores Manuel Nogueira e Maria Duarte da Cruz, naturais da mesma freguesia. Segundo levantamento feito pelo referido cônego Trindade, esse notável bispo do sertão possuía os seguintes irmãos: 1. D. Maria Duarte da Cruz Queirós, casada com Manuel Ribeiro da Costa; 2.  D. Clara Freire da Cruz, casada em 1713 com Antônio Pinto Ribeiro, senhor da Casa da Ribeira, em Santo André de Cristelo, comarca de Lousada; e, 3. Antônio Nogueira Jorge, casado em Recife, Pernambuco, com D. Maria da Costa, natural daquela cidade, filha de Manuel Nunes e de D. Luzia de Almeida; filhos (todos nascidos em Recife): 3.1. Padre José Nogueira, jesuíta, professor e primeiro reitor do seminário de Mariana, donde foi violentamente retirado, quando expulsos de Portugal e seus domínios os padres da Companhia de Jesus, para desgosto de seu estimado tio; 3.2. Padre Luís Nogueira, ordenado em Mariana, pelo seu tio, a 26 de junho de 1756, foi vigário de Curral Del Rei; e, 3.3. Frei Estanislau de Jesus Maria, sobre quem nada se sabe.

Aluno aplicado e inteligente, desde cedo o pequeno Manuel da Cruz demonstrou vocação para a vida sacerdotal, sendo encaminhado para estudar no Real Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, onde, em 30 de março de 1708, aos dezoito anos de idade, vestiu o hábito dos Monges de São Bernardo. Esse mosteiro, cuja construção teve início em 1168, era da Ordem de Cister ou de São Bernardo, situando-se na freguesia de Salzedas, concelho de Tarouca, em Portugal.

Mais tarde, aos vinte e dois anos de idade, em 28 de fevereiro de 1712, conferiu-lhe o presbiterato, com dimissórias dos seus superiores o bispo de Coimbra, D. Antônio de Vasconcelos.

Prosseguindo nos estudos, desde 1.º de novembro de 1709, matriculara-se no curso de Teologia da Universidade de Coimbra, licenciando-se em 12 de fevereiro de 1719 e obtendo o doutorado em 24 do mesmo mês e ano. Em 7 de maio de 1726, graduou-se também em Cânones, na mesma instituição de ensino, “com aplausos dos mestres e crédito da Ordem”.

Em 1732, foi eleito dom abade do colégio do Espirito Santo de Coimbra. Em 1738, nomeado definidor e mestre de noviços do conceituado convento de Alcobaça.

No entanto, em face de sua extremada vocação religiosa e de sua elevada formação intelectual, foi por D. João V, nomeado Bispo do Maranhão, no mesmo ano de 1738, quando apenas iniciava as funções para as quais fora recentemente nomeado. Foi sagrado em 16 de dezembro de 1738, em Lisboa, pelo Cardeal Patriarca Dom Tomás de Almeida, sendo consagrantes D. Fr. Luís de Santa Teresa, Bispo de Olinda, e D. Guilherme de São José, Bispo do Pará.

Embarcando em navio no porto de Lisboa, depois de cinquenta dias de viagem, chega a São Luís do Maranhão em 15 de junho de 1739. E fez sua entrada solene a cavalo, pegando-lhe no estribo o capitão-general João de Abreu Castelo Branco, em 29 do mesmo mês e ano, quando tomou posse da diocese. No dia 20 de julho seguinte, deu posse de suas capelanias a 16 capelães, em que entrou um organista e um subchantre, assim como a dois mestres de cerimônia e seis moços do coro, cantando vésperas desse dia e no dia seguinte louvores ao rei dos reis, que, segundo ele, é o principal fim para que se erigem as catedrais. Em seguida passou a pregar alternadamente com um padre jesuíta de grande literatura e espírito, fazendo confissões e casamentos. Governaria pelo tempo de oito anos, um mês e dezessete dias, nos quais gastou dezoito meses sucessivos nas visitas pastorais, sendo removido para a nova Diocese de Mariana, por Bula de 15 de dezembro de 1745.

O bispado do Maranhão fora fundado por bula papal de 30 de agosto de 1677. Dos cinco bispos que lhe antecederam na ordem cronológica de nomeação, apenas três tomaram posse efetiva do cargo, D. Gregório dos Anjos (1679 – 1689), D. Fr. Timóteo do Sacramento (1697 – 1714) e D. José Delgarte (1717 – 1724, quando faleceu no exercício do cargo); dois outros embora nomeados não tomaram posse, D. Fr. Antônio de Santa Maria e D. Fr. Francisco de Lima. Por essa razão, embora seja o sexto bispo nomeado para o Maranhão é, de fato, o quarto no exercício do cargo. Ficara vaga a diocese entre 1724 e 1732, sendo governada por administradores eclesiásticos e desde então pelo bispo do cabido do Pará, com sede em Belém, situação em que a encontrou D. Fr. Manuel da Cruz.

Por essa razão, dados esses quinze anos de sede vacante enfrentou D. Fr. Manuel da Cruz, os maiores problemas e percalços para bem administrar sua diocese. Teve de disciplinar o clero, eliminando dissensões internas, organizou o cabido, fundou o seminário e ordenou noventa e um sacerdotes, muitos deles sendo piauienses, além de corrigir com admoestações os defeitos morais da sociedade, então mal acostumada com certa frouxidão de costumes. Segundo seu testemunho expressado em correspondência à corte:

“Neste bispado há muitos abusos intoleráveis, muitos vícios inveterados, que é preciso emendar e reformar, e qualquer reformação: por mais suave que seja sempre encontra contradições; e se há régulos que as fomentem, e se não castiga, não pode fazer nada o bispo, antes concluir exemplo tão pernicioso, qualquer clérigo se entreterá a descompô-lo, e injuriá-lo por qualquer leve representação, e frívolo pretexto” (Copiador, fl. 29).

Todavia, se enfrentava dissabores no Maranhão era bem recebido pela gente piauiense, a quem se afeiçoara aqui se demorando por largo período. Fora quase um bispo piauiense, tendo prestado relevantes serviços à terra. Aliás, cumpre ressaltar que o território piauiense passara do Bispado de Pernambuco para o do Maranhão através da Bula do Papa Bento XIII, de 1724, de que na época tomou posse diocesana o padre Antônio Troiano, que respondia pela bispado.

Em demorada visita pastoral ao Piauí, D. frei Manuel da Cruz perlustrou suas terras de norte a sul e de leste a oeste, conhecendo-as em sua totalidade. No entanto, uma de suas primeiras medidas, ainda em 1739, logo despois da posse e muito antes da referida visita, foi recomendar a criação de duas novas freguesias, sendo Santo Antônio do Gurgueia, no Arraial dos Ávila, que deu origem à cidade de Jerumenha, e N. Sra. da Conceição, no lugar Caatinguinha, hoje cidade de Valença do Piauí. Esse assunto é objeto de sua primeira correspondência, a mesma em que informa sobre a posse no bispado, assim se expressando:

“Remeto a Vossa Majestade algumas razões, que ocorreram neste pouco tempo, a respeito de alguns aditamentos aos estatutos por recomendação de Vossa Majestade, e também me lembra, a advertência que Vossa Majestade foi servido fazer-me a respeito de erigir paróquias no sertão do Piauí, dizendo-me se compadecia muito de que os moradores daquele sertão, pelas distâncias que há entre as suas paróquias, morressem muitas vezes sem sacramentos, e não tivessem, quem os ajudasse, e fortalecesse na horrível e tremenda agonia da morte. Para satisfazer nesta tão pia, como prudente advertência nascida da grande piedade, e  fervoroso zelo de Vossa Majestade, dou conta a Vossa Majestade com toda a clareza e individuação pelo Tribunal da Mesa da Consciência e Ordens de que se devem erigir logo duas paróquias no distrito da freguesia da Mocha, uma no Gurgueia, e outra na Caatinguinha; a qual ereção se deve determinar antes de se confirmar na igreja da Mocha, que está vaga, alguns dos opositores que agora a pretendem porque como a tal vigararia é colada, depois de colado nela o seu vigário se não pode dividir; o qual inconveniente não há nos curatos que são amovíveis, e por isso na visita faço tenção erigir as paróquias, que me parecerem precisas, e me requererem os moradores querendo-as fazer a sua custa; desta forma cumpro com o serviço de Deus, dou remédio a gravíssima necessidade espiritual de tantas almas, desencarrego a consciência de Vossa Majestade, e também a minha. Vossa Majestade mandará o que for servido. Na frota de 1739” (Copiador, fl. 1).

Em 4 de julho de 1740, elabora instruções e as envia para os reverendos visitadores do Piauí, para que a contento façam o serviço de Deus e da Santa Madre Igreja, acompanhados de escrivão, que bem possam servir sem nota alguma, podendo ser eclesiástico ou secular, de tal sorte que não fiquem as diligencias por se cumprir. Esclarece que devem se guiar pelas constituições do arcebispado da Bahia, que por pastoral dele tem mandado observar; proverão que nas paróquias haja livros para assentos de batizados, casamentos e óbitos; também, livro para capítulos da visita, inventário dos bens pertencentes à igreja, que pudesse ainda servir para anotar as receitas e despesas da fábrica da igreja; proverão sobre a boa administração das capelas e confrarias, decência dos santos óleos, remessa de rol dos confessados, comedimento nas condenações dos culpados, fixação da taxa das esmolas e cobrança dos valores em atraso, além de informar sobre a conservação ou não da missão dos índios caratiús no mesmo lugar, entre outros assuntos (Copiador, fl. 17-17v).

Em carta de 2 de setembro de 1740, dirigida a D. Fr. José Fialho, arcebispo da Bahia, diz no trecho final:

“Ao padre José Aires fiz visitador do Parnaguá, e se ele satisfizer a esta obrigação, como deve, o atenderei para outras ocupações, que basta ser afilhado de Vossa Excelência para na minha atenção ter o primeiro lugar” (Copiador, fl. 11v).

Em 1741, escreve ao ouvidor-geral do Piauí, bacharel Custódio Correia de Matos, em resposta às queixas deste, dizendo que repreendera o pároco da freguesia e seu coadjutor, por terem-no faltado com a devida atenção, assim como os orientou a respeito do procedimento nos inventários eclesiásticos, de que reclamara o ouvidor. Na mesma correspondência diz ter escrevido ao padre Francisco Ribeiro da Fonseca, missionário dos Jaicós, a quem mandara agora passar provisão, por não achar outro clérigo que para lá quisesse ir (Copiador, fl. 18-19).

Como desdobramento desse assunto escreve também ao doutor João Rodrigues Covete, governador do bispado e padre residente na vila da Mocha, repreendendo-o por não ter atendido às queixas do referido ouvidor; orientou sobre a forma dos testamentos eclesiásticos, que os deveria receber de volta do ouvidor que os apreendera, devendo sempre agir com diplomacia sobre o assunto; discorre sobre a arrecadação das esmolas para o seminário; sobre punição e prisão de alguns padres; sobre desobriga que ele padre fizera indevidamente em algumas fazendas da freguesia da Caatinguinha; também, o repreendeu por desídia em vista pastoral a Parnaguá, conforme se vê:

“Também o padre José Aires me escreveu não achara na freguesia do Parnaguá, onde visitou livro de fianças, sendo que todos os casados eram forasteiros, e que necessariamente haviam ter dado fianças; e me admirou muito de que tendo Vossa Mercê duas vezes visitado esta freguesia (nunca nesta tão precisa obrigação) digo, nunca cuidasse nesta tão precisa obrigação, fazendo praticar este tão universal estilo, para que não acontecesse, o que na mesma freguesia sucedeu achar o dito visitador uma mulher casada duas vezes, que por isso recomenda muito o direito e as constituições estas fianças, para que com esta prevenção se não facilitem tanto a semelhantes absurdos”.

Mais à frente refere-se à sua próxima vinda “a essa vila [da Mocha], que infalivelmente, se Deus não dispuser o contrário, será para o ano, que me não foi possível conseguir neste, tanto pela tardança da frota, como por me não achar ainda de todo expedito para esta jornada, no que fico já cuidando, para que no meado de agosto possa ir, desta cidade, e faço tenção entrar  pelo caminho novo do Icatu buscando o Parnaíba, e de lá avisarei a Vossa Mercê e ensinando-lhe o lugar aonde me há de mandar buscar com os cavalos, que vir me serão necessários para a minha condução; porque para a minha entrada me assiste com eles o juiz ordinário André Teixeira” (Copiador, fl. 19v-21v).

Em outra correspondência do mesmo ano, endereçada a el-rei, presta informações importantíssimas para esclarecer sobre a divisão eclesiástica de sua diocese e sobre a criação das primeiras freguesias do Piauí, inclusive sobre as duas novas por ele criadas e, também, sobre os três curatos criados pelo padre Tomé de Carvalho, agora por ele também elevados a vigararias coladas. A principal diferença é que nos curatos eram os fregueses que tinham a obrigação de manter o reverendo cura e a igreja, enquanto nas freguesias coladas essa obrigação era da Real Fazenda:

“Foi Vossa Majestade servido por resolução expedida da Mesa da Consciência e Ordens em 20 de maio de 1740 criar de novo na freguesia da vila da Mocha mais duas freguesias com párocos colados, uma na ribeira da Gurgueia, e outra no distrito da Caatinguinha; como também foi servido criar, e erigir mais em novas vigararias coladas os curatos das igrejas de Santa Maria da vila do Icatu, Nossa Senhora do Carmo do Piracuruca, Santo Antônio do Surubim, Nossa Senhora de Nazaré do Mearim, Nossa Senhora da Conceição das Aldeias Altas, e Nossa Senhora do Livramento do Parnaguá, (que são únicos curatos amovíveis que por esta hora há neste bispado) consignando anualmente a cada um dos vigários destas freguesias, cem mil-réis de côngrua pagos pela sua Real Fazenda, e porque nela não há sobejos com que se possam pagar essas côngruas, me pareceu preciso recorrer a Vossa Majestade para que à vista deste inconveniente determine o que for servido; pois não me parece justo, que os opositores se oponham as tais igrejas com a esperança de terem de côngrua cem mil reis, e não se lhe pagarem por não haver dinheiro no Almoxarifado; como não há ainda para outras despesas muito mais precisas” (Copiador, fl. 29v-30).

Outro aspecto relevante foi a defesa por ele feita das divisas de seu bispado com o de Pernambuco. Defendeu com ardor e inteligência que o divisor de águas fosse a fronteira natural do Piauí com o Ceará, inclusive invocando a bula de anexação do Piauí em que o Sumo Pontífice acata esse princípio universal ao desmembrar do bispado de Pernambuco para o bispado do Maranhão a capitania do Piauí usque ad arcem Siará, isto é, até o alta Ceará. Em 1743, informa a situação ao rei de forma bastante didática:

“Dou conta a Vossa Majestade que chegando a este bispado me deram parte os curas da Piracuruca, e Surubim, que tomando posse por ordem de Vossa Majestade da capitania do Piauí o doutor Antônio Troiano governador deste bispado naquele tempo, e fazendo-se a divisão corre este bispado, e o de Pernambuco pela serra dos Cocos, que naturalmente os divide, indo os curas da Piracuruca, e Surubim desobrigar os moradores que habitam na dita serra águas vertentes à Parnaíba, sem lhes opor o cura do Acaracu com o fundamento de que estava de posse de desobrigar aqueles moradores, e depois de várias razões ajustaram, que cada um desse conta ao seu prelado respectivé, para que eles resolvessem a matéria, e como neste bispado não havia bispo ainda está por decidir esta controvérsia para cuja resolução é preciso saber-se:

‘Que a serra dos Cocos no alto tem de largo, e de comprido muitas léguas, em cujo distrito há moradores, fazendas, e rios, uns que vertem para a Parnaíba, que corre para o Maranhão, outros que vertem para o Acaracu e Camocim, que correm para Pernambuco. As divisões que se fazem na América, assim dos bispados, como das capitanias, jurisdições eclesiásticas, e seculares, se costumam fazer por estas águas vertentes; nem é possível fazerem-se de outro modo pela extensão das terras, e muitas ainda incultas, em que não há estradas, nem se podem pôr marcos, que sirvam de divisão, como ordinariamente se costuma no Reino. Por este modo se dividiu este bispado do bispado do Pará, servindo de divisão da serra dos Tocantins, águas vertentes ao rio deste nome para o Pará, e águas vertentes à Parnaíba, Mearim, e Itapicuru para o Maranhão, por este mesmo fundamento se resolveu, que a povoação do Parnaguá pertencia a este bispado, e não ao de Pernambuco, por estar situada águas vertentes à Gurgueia, e Parnaíba, e não ao rio de São Francisco, e não se dá maior razão, porque as fazendas que estão situadas, e os que moram na serra dos Cocos águas vertentes à Parnaíba, não pertençam ao Maranhão” (Copiador, fl. 34v-35v).

Essa firme defesa da divisa piauiense com o Ceará pelo divisor de águas, ela faz por diversas vezes, ora ao rei ora perante seu colega de Pernambuco, sempre coma mesma argumentação lógica. E esse assunto ainda é atual, dada a zona de litígio territorial que existe entre os dois estados, inclusive com comissões legislativas dos dois lados. Pois, sobre o assunto continua se fazendo necessário ler a literatura e absorver os argumentos fundamentados desse grande bispo do meio-norte brasileiro.

Nos primeiros três anos de seu governo episcopal, o consumiu em pôr alguma ordem às desordens, segundo ele, que achara na cidade e comarca do Maranhão. No entanto, logo depois empreendeu desejada, necessária e demorada visita ao Piauí, partindo do Maranhão nos fins de agosto de 1742. Inicialmente pela costa do mar, depois tomando o caminho por terra para a nova freguesia de São Bernardo, ainda no Maranhão, que foi a primeira visitada; depois atravessou o “Parnaíba, que é o mais caudaloso deste bispado; da parte dalém deste rio é que verdadeiramente, e em maior rigor principia o sertão, porque em todo ele não há mais portos de mar”, arremata o referido bispo; passando pelo sertão dos Alongases e vale do Poti, visita as freguesias de Piracuruca, Surubim, o Rancho dos Patos, que o erige em freguesia, e Caatinguinha, em todas elas fazendo missões de oito dias, confissões, crismas, matrimônios e incitando o povo à construção de capelas particulares, dada as distâncias das sedes paroquiais, o que foi feito por alguns mais abastados; e, por fim, chegando à vila da Mocha, que diz ele ser conhecida por Corte do Sertão, em 12 de janeiro do ano seguinte, depois de caminhar duzentas léguas e vencer grandes dificuldades e muitos trabalhos, perigos no mar e na terra, também na visita de inumeráveis povos que residem naquele distrito, a todos acudindo dentro dos preceitos cristãos. Passou naquela vila parte do inverno e a Santa Quaresma bastante ocupado na visita da grande freguesia, missão e outras dependências da sua ocupação. Em 16 de maio de 1743 partiu da Mocha para o sertão de Parnaguá, onde chegou nos finais de julho, resolvendo muitas questões nessa localidade; diz que ela fora fundada somente há dez anos, sendo já tão numerosa quanto a vila da Mocha, porque fica na estrada real dos sertões para as Minas, constituindo-se em entreposto de contrato de gado vacum para ali exportado, prometendo assim ser em breve a maior do bispado; dali partiu em princípio de ....bro, dando voltas pela ribeira do Gurgueia e Parnaíba, no Piauí, entrou pela freguesia de Pastos Bons, no Maranhão, e desceu pelo Itapecuru chegando de volta a São Luís, em 16 de janeiro de 1744, “tendo visitado pessoalmente todos os sertões mais remotos, e infestados, ainda alguns do gentio bárbaro deste bispado, e caminhando mais de oitocentas léguas pelas digressões que fiz”, diria ele ao final da jornada. Levou consigo do Piauí, muitos jovens para ingressar no seminário, onde deveriam vestir a beca roxa, na forma das que trazem os seminaristas da Santa Basílica Patriarcal, assim como o padre Manuel Ribeiro Soares, que se integrou à sua comitiva, mandando também buscar um irmão natural para familiar do bispo.

Dom Fr. Manuel da Cruz criou ainda, no Piauí, a freguesia de N. Sra. do Desterro do Rancho dos Patos, atual cidade de Castelo do Piauí. E durante sua estada na Mocha, publicou pastoral, elaborou regimento para os vigários, manteve ativa correspondência e muitos outros atos praticou.

Depois dessa notável ação no bispado do Maranhão, com importantes reflexos no Piauí, D. Fr. Manuel da Cruz foi removido para instalar e governar a nova diocese de Mariana, em Minas Gerais, através da Bula do Papa Bento XIV, de 15 de dezembro de 1745. Dado alguns percalços planejou viajar pelo sertão do Piauí e do rio São Francisco, saindo em abril de 1747, passar o rigor do inverno no Piauí e continuando a jornada em final de maio, chegar ao destino em setembro ou outubro. No entanto, porque esperou correspondência da corte e com o atraso da frota, somente partiu de São Luís em 3 de agosto de 1747, trazendo em sua companhia alguns religiosos, entre esses o padre Vicente Gonçalves Jorge de Almeida, natural e/ou aparentado no Gurgueia, que juntamente com José Nogueira, sobrinho do bispo, mandado buscar no Rio de Janeiro, iriam desenvolver notável ação apostolar em Minas Gerais. A comitiva atravessou a baía e pernoitou no hospício do Senhor do Bonfim. No dia seguinte, subiu pelo rio Itapicuru durante vinte dias, em viagem cheia de sustos, pelas cachoeiras, moléstias e mosquitos abundantes naquelas paragens. Parando à margem esquerda do rio, mandou levantar altar debaixo de árvores para celebrar o incruento sacrifício da missa, como é permitido aos bispos do Brasil pela breve decenal – celebrandi bis in die et sub Deo et sub terra. Em alusão à jornada, a localidade ficou conhecida pelo nome de Remanso da Mariana. Chegando a Aldeias Altas, hoje Caxias, demorou-se a comitiva por 15 dias, de onde continuando inicialmente pelo rio acima, passou pelos chapadões, alcançou o Parnaíba e atravessando-o dirigiu-se pela bacia do Gurgueia, no Piauí, até chegar, em outubro, à fazenda Canavieira, hoje cidade de mesmo nome, na margem direita do referido rio. Hospedaram-se em casa dos senhores da fazenda, capitão Antônio Gonçalves Jorge e sua esposa Maria Pereira da Conceição, que não lhes eram estranhos, em cuja companhia demoraram por sete meses. Em canavieira, recuperou a saúde, refez as forças, celebrou missas e, juntamente com os religiosos da comitiva, ensinaram à meninada noções do alfabeto, das operações aritméticas e da religião. Dois fatores o seguraram nessa fazenda por sete meses, sendo o rigor do inverno e a ameaça dos índios guegués ou gurgueias rebelados, que assaltavam as comitivas e, às vezes, matavam os viandantes. Foi, então, no mês de maio, com fim das chuvas que reorganizou sua comitiva e seguiu caminho pelo vale do Gurgueia acima, contando com a prestimosa ajuda do ouvidor Matias Pinheiro da Silveira Botelho e do capitão João do Rego Castelo Branco, que os acompanharam com tropa militar até a freguesia de Parnaguá, seguindo o bispo para as Minas e eles retornando em campanha contra os referidos indígenas, de que mataram alguns, aprisionaram e afugentaram outros. Continuando jornada, alcançou o bispo e sua comitiva a fazenda Brejo de São Lucas, ainda no termo de Parnaguá, subiu a serra da Boa Vista, divisa dos bispados do Piauí e Pernambuco, alcançou a barra do Rio Preto, no lugar Manga do Rio Grande. Então, embarca no porto local e segue via fluvial até atingir a barra do Rio da Velhas, na Bahia, de onde segue por mais de duzentas léguas até Carinhanha, onde adoeceu gravemente, chegando a Vila Rica em 14 de outubro de 1748 e a Mariana no dia seguinte, depois de mais de quatorze meses de jornada. Foi recebido em seu destino com festejos apoteóticos. Sua entrada solene, com muita pompa, deu-se em 28 do novembro seguinte, achando-se descrita no Áureo trono Episcopal, terceiro livro mais antigo sobre Minas Gerais, editado em Lisboa no ano de 1749, por iniciativa do cônego Francisco Ribeiro da silva, onde reuniu os relatos e peças literárias alusivas à posse. Muito de sua correspondência foi reunida no Copiador de Cartas do Senhor Dom Frei Manuel da Cruz, Bispo do Maranhão e de Mariana, por muitos anos guardado no Museu da Inconfidência de Ouro Preto, depois publicado pelo Senado Federal, com transcrição, revisão e notas por Aldo Luiz Leoni. Foi a principal fonte do presente ensaio biográfico.

Em Mariana não foi menos conturbado o seu governo, por ser o primeiro da diocese, sendo a cidade toda reformulada, com a oposição de alguns proprietários de imóveis. Enfrentou problemas com as autoridades locais, inclusive quanto à jurisdição eclesiástica, travadas com o ouvidor de Vila Rica, Caetano da Costa Matoso. Todavia, foi profícuo seu governo diocesano, lançando a primeira pedra da igreja de São Francisco, concluindo a catedral da Sé no ano de 1750 e fundando o seminário, que ordena em sua gestão 227 sacerdotes. 

Faleceu esse notável bispo em plena atividade em sua diocese de Mariana, dia 3 de janeiro de 1764, com 74 anos incompletos. Foi um baluarte da Igreja católica que muito serviu ao Brasil, inclusive ao Piauí, deixando larga folha de serviços prestados. Merece nossa homenagem.

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REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br