Em São Paulo, está se divulgando a atividade de “contação oral de histórias”. Trata-se de uma manifestação cultural que tem origem na contação de “causos” e de lendas, tão comum em toda parte do nosso país. É algo que tem raízes nos primórdios da humanidade. É uma arte de atuação que difere da teatral, mas que também faz uso da histrionia, da expressão corporal, da modulação da voz, do gestual, ou seja, de tudo que possa ajudar a fazer o conto chegar ao entendimento e à emoção do público.


A intenção da “oral storytelling” não é didática; ao menos, não deve ser propositadamente educativa. Estimula, como a literatura também o faz, os que ouvem e o próprio narrador na contínua autoconstrução da personalidade e na cognição e reavaliação do mundo e do outro. 


O público interessado é composto de todos: crianças pequenas até idosos. Os locais de apresentação são as rodas informais, os palcos de pequenos teatros, escolas, asilos, parques, hospitais, festivais, onde quer que se possa reunir gente. A contação de histórias não é literatura. Ou seja, não é uma leitura performática de escritos ou a apresentação teatral de textos decorados. É, especificamente, algo que só existe na forma oral e presencial. O texto literário que tenha servido como fonte, a história de tradição oral, e a percepção pessoal de fatos reais, ou a criação autoral prévia do próprio narrador, tudo isso perde peso e é superado pela relação comunicativa que se forma em função da contação.


Para concluir, volto à literatura. O contador é um autor, ainda que de obra que se esgota a cada sua apresentação. A contação e a literatura convivem. De um lado, há grande espaço para o escritor produzir repertório para a adaptação do contador. De outro, o literato se apropria das narrativas de berço popular para suas obras.