Segundo a literatura histórica, no ano de 1712 nomeia-se o chantre Baltazar de Faria e Miranda para exercer o cargo de vice-vigário da freguesia de Nossa Senhora da Vitória(Mocha, hoje Oeiras), então vinculada ao Bispado de Pernambuco. Conforme o notável escritor oeirense Dagoberto Carvalho Júnior, citando Jerônimo Martiniano de Melo, que descobriu a referida provisão na Câmara Eclesiástica de Olinda, “depreende-se do fato, o crescimento da freguesia, a exigir já àquela época, auxiliar de tão elevada dignidade hierárquica" (CARVALHO Jr, Dagoberto Ferreira de. História Episcopal do Piauí. 2.ª Ed. Recife: Editora Thormes, 2011).

Foi em face dessa nomeação que a vida desse clérigo despertou a nossa atenção, nesse afã de reconstituir o passado e valorizar as cousas piauienses. Na   hierarquia católica, chantre é um título eclesiástico que designa uma dignidade dentro de alguns cabidos, colegiados ou mosteiros. Antigamente, correspondia ao papel de mestre do coro ou cantor dos salmos e responsórios nos templos principais, daí ficando indicado o dom musical desse clérigo luso-brasileiro.

Nasceu Baltazar de Faria e Miranda, na residência de seus pais, situada na Rua da Laje, Vila do Conde, comarca de Barcelos, arcebispado de Braga, no distrito do Porto, dia 6 de janeiro de 1657, filho de Thomé de Faria, escrivão e proprietário  do Ofício do Público Judicial e Notas da referida vila e de sua segunda esposa Jeronima de Miranda Ferreira; neto paterno de Francisco Alves, antigo alcaide, prematuramente falecido e de sua mulher Maria de Faria de Figueiredo; neto materno do negociante Jeronimo de Miranda Ferreira e de sua mulher Maria Neta, todos naturais e moradores em Vila do Conde, onde exerceram cargos de destaque e participaram da governança do lugar. Foi ele batizado três dias depois de nascido, em 9 do mesmo mês, na igreja matriz de São João Batista, pelo vigário Pedro de Sousa, sendo padrinhos Jácome Carneiro Barbosa, da Rua de São Sebastião, e a viúva Maria de Macedo, da Rua de São Bento, ambas na mesma vila.

Segundo consta nos livros de registros da freguesia de São João Batista da Vila do Conde, seu pai Thomé de Faria era viúvo quando casou com sua mãe, pois em 5 de novembro de 1643, havia casado com Úrsula Ferreira de Barros, filha que ficara de Manoel Luís de Barros e Ana Ferreira, constando no termo que o pai do nubente já era defunto; com o óbito dessa primeira esposa, convola novas núpcias em dezembro de 1650, com a mãe do biografado, talvez prima daquela pelos Ferreira, sendo testemunhas do consórcio, Pedro de Miranda, Pedro do Couto e João Nunes.

Na vila natal passou o nosso biografado os despreocupados anos da infância, alternando o seu tempo entre brincadeiras típicas de criança e os estudos de primeiras letras com os mestres locais. Entretanto, mal alcançou a pré-adolescência foi mandado para Recife, em Pernambuco, a chamado de um tio-avô (irmão de seu avô paterno Francisco Alves), que, por não ter descendentes o criou como se filho fosse, instituindo-o por herdeiro universal de rico cabedal, custeando o restante de seus estudos e o encaminhando para o Seminário de Olinda, onde, mais tarde, veio ordenar-se clérigo secular.

Depois da ordenação permaneceu servindo em Olinda e Recife, no Bispado de Pernambuco, como Mestre-Escola da Sé Diocesana, cargo que ocupou por dilatados anos, e regente do coro na catedral, sendo que no governo diocesano de D. Matias de Figueiredo e Melo (1687 – 1694), por ser homem de segredo, confiança e autoridade, foi enviado em missão oficial a Roma, a dar contas do Bispado. Nessa oportunidade, demorou-se por alguns dias em Portugal, visitando a vila natal para rever alguns parentes e amigos, o que faria em outras oportunidades.

Exerceu também o cargo de vigário da paróquia da vila de Goiana(PE) e vigário-geral do Bispado de Pernambuco. Em 3 de janeiro de 1707, foi nomeado Capelão Fidalgo da Casa Real, com 450$000rs de moradia por mês e ¾ de cevada por dia (PT/TT/RGM/C/0001/25792).

No entanto, em princípio do ano de 1704, esse distinto vigário luso-brasileiro, então vigário-geral e mestre-escola na Sé de Pernambuco, formula pleito para servir de Comissário do Santo Ofício no referido Bispado, cujo processo de limpeza de sangue, para apurar suas origens, estende-se por três anos, fazendo-se diligências e ouvindo-se diversas testemunhas na Vila do Conde e em Pernambuco.

Os comissários encarregados da investigação em Portugal, Thomé Lopes Negrão e Antônio Correa Paes, fizeram diligências extrajudiciais nos arquivos paroquias e ouviram noves testemunhas fidedignas e de segredo, para saberem se o pretendente era de bom procedimento, vida e costumes, se era pessoa exemplar e tinha prudência e capacidade para poder ser encarregado de negócios de importância e segredo, e se se tratava com autoridade competente ao seu estado.

Ao final das diligência feitas em Portugal e no Brasil, concluíram que o pretendente a Comissário era homem de segredo e autoridade, “por si, seus pais e avós é legítimo cristão velho, sem fama ou rumor em contrário; e com boa capacidade para servir a dita ocupação, pelo que nos parece que Vossa Senhoria, lhe faça a mercê que pede. Vossa Senhoria mandará o que for servido. Lisboa em Mesa, 6 de julho e 1706”.

No entanto, desde essa data pouco sabemos sobre a trajetória do biografado, se foi, de fato, nomeado para Comissário do Santo Oficio no Bispado de Pernambuco, e qual foi sua atuação no referido cargo.

O que sabemos, ao certo, pela notícia que abre essas notas, é que em 1712, foi nomeado vice-vigário da extensa freguesia de Nossa Senhora da Vitória(Oeiras), ao lado do padre Tomé de Carvalho e Silva, ligando, assim, seu nome ao Piauí. Porém, ainda não encontramos documentos que demonstrem sua atuação nesse novo cargo. Por esse tempo alguns jovens Miranda fixam residência no vale do rio Piauí, na mesma freguesia, então parte do Bispado de Pernambuco, onde deixam numerosa descendência, não se sabendo se eram parentes do referido vigário. Ficam essas notas como um esforço para a reconstituição de sua biografia e esclarecimento de pontos obscuros de nossa história. Que esse esforço de pesquisa encontre seguidores!

 

* Fotografia da igreja matriz de São João Batista, em Vila do Conde(Portugal), onde foi batizado o biografado.

*REGINALDO MIRANDA, é membro da Academia Piauiense de Letras.