Vim diretamente de Ouro Preto a Brasília.
Que dramática jornada através do tempo e da história!
Uma jornada do ontem para o amanhã, do acabado
 para o que está por começar,
 das conquistas antigas às novas promessas".
 (Aldous Huxley)
 
"A idéia que tenho, Presidente, é que estou
desembarcando num planeta diferente".
 (Yuri Gagarin, cosmonauta russo,
 falando a JK, em visita à Nova Capital)
 
 
 Por Ronaldo Cagiano
 
Já está desgastada a idéia de que Brasília restringe-se o círculo do poder, conhecida apenas em seus cartões postais pela exuberância da arquitetura de Niemeyer e Lúcio Costa, a imponência dos palácios e o noticiário político. Não só isso, mas o velho estereótipo de cidade destituída de alma e identidade, sem oportunidades de emprego e alternativas de lazer e cultura, caiu por terra, pois nos últimos anos a Capital da República e seu entorno não apenas sofreram um processo de colonização definitiva de seu território, como também consolidou a sua própria geração, cuja cara se (re)conhece e se impõe.


Cinquentona, apesar da miséria moral recentemente execrada no noticiário, com a defenestração de um governador flagrado em corrupção, Brasília resiste aos seus detratores. A cidade tem uma vida social e cultural que supera o estigma que injustamente lhe impinge essa cruel realidade. E a vida pulsa generosa e qualitativa além do quarteirão mítico representado pela Esplanada dos Ministérios, onde se concentra a elite política, administrativa e judiciária, que, por muito tempo delimitou a cidade com sua definição ortodoxa, quando, na verdade, a outra cidade - , vibrante, ativa econômica e culturalmente - era negligenciada pelos turistas e até pelos habitantes locais, a cidade de carne e osso, com sua gente, com seus sentimentos, com sua vida e sua normalidade.


Por muito tempo preponderou um velho estereótipo, excludente do real potencial de Brasília, disseminado pelos que realmente não a conheciam, de que o melhor programa para o brasiliense eram as praias capixabas e cariocas ou as cidades históricas de Goiás e Minas, ou que o melhor hospital de Brasília era a ponte aérea -, numa alusão grotesca à falta de opções e de recursos.


Brasília não é apenas a ilha da fantasia de alguns políticos inescrupulosos de que muitos ouviram falar, (re)colhido da crônica política. Há a urbe com suas rugas e seus contrastes, com suas demandas e seus gritos, que a fazem igual e legítima como qualquer outra.. Há a cidade além da cidade, a cidade de gente que trabalha e se diverte, de pessoas que freqüentam clubes e parques, dos empregados privados e do funcionário público, que, no seu dia-a-dia, como em qualquer cidade do mundo, seja na capital ou no interior, levam a vida e desfrutam de seu ambiente urbano.


Se Brasília não tem as esquinas tradicionais das outras cidades, por outro lado oferece aos seus moradores amplos espaços arborizados, as superquadras, onde se realiza o footing e ou se faz o cooper matinal ou noturno, como no Eixo Rodoviário (que nos fins de semana também se transforma em uma grande avenida de lazer e atividades esportivas); mais de três dezenas de parques, áreas de preservação ambiental, espaços de convivência, Jardim Zoológico e Botânico, uma orla em torno do Lago Paranoá onde se localizam os clubes sociais e esportivos, em que o ser humano de Brasília exercita, e até com maior tranqüilidade, segurança e qualidade de vida, o seu direito de ir e vir, a sua cidadania, compartilhando a vida em sua plenitude.


A literatura em Brasília também goza de destaque. A produção poética e ficcional está entre as mais férteis e versáteis do país, com autores cujas obras vêm repercutindo nacionalmente, muitos deles detentores de importantes prêmios literários, entre os quais  Alaor Barbosa, Lourenço Cazarré, Stela Maris Rezende, Lucy Watanabe, Ronaldo Costa Fernandes, Marcos Bagno, Anderson Braga Horta, Fernando Mendes Vianna, Joanyr de Oliveira, Salomão Sousa e Emanuel Medeiros Vieira e Nicolas Behr, este um dos ícones da criação independente, com sua poesia visceralmente marginal, mas ligada à modernidade, comportando, ao mesmo tempo, uma visão crítica e bem humorada da realidade brasiliense.


            Essa é a Brasília que nos permite conviver no dia a dia com a arte e seus artistas, com o teatro e o cinema e seus diretores. É a terra de Athos Bulcão, Glênio Bianchetti, Lourenço de Bem, Toninho de Sousa, Wagner Hermuche, Gougon, Hugo Rodas, Vladimir Carvalho, Cassiano Nunes e Afonso Brazza; do Concerto Cabeças, do Clube do Choro, da Escola de Música e do Jogo de Cena; de Renato Russo e sua Legião Urbana. Cidade que revelou Cássia Eller e Zélia Duncan, Plebe Rude, Raimundos e Capital Inicial, de onde saiu Ney Matogrosso, Françoise Fourton e Oswaldo Montenegro. Enfim, uma cidade que não esgota soa vocação de oferecer ao Brasil talentos múltiplos e oferecer espaços onde a diversidade se manifesta sem reservas, como o legendário bar Beirute e o eclético bloco Pacotão. Uma cidade que reflete a heterogeneidade do Brasil, patrimônio cultural da humanidade pela Unesco e batizada Capital da Esperança por André Malraux.