A realidade e a literatura se confundem. Uma corre atrás da outra, e se mesclam. No caso brasileiro contemporâneo, vivemos um período já longo de novelização tragicômica. Se fosse uma mera contação de estória, - e não uma estória sendo verdadeiramente vivida -, poderia estar sendo narrada por Nelson Rodrigues. Ou seja, se fosse literatura ficcional realista e não a nossa mesma realidade infeliz. Digo infeliz, porque nos falta o distanciamento para descortinarmos a arte em meio à encenação de que somos atores banais coadjuvantes e extras desprezíveis, no nosso papel de povo. Não falo de Fernando Henrique Cardoso, porque esse não nos faz mais mal direto. Sua novela já era, efêmera como todas as encenações reais nesta terra de Deus e do Diabo. O conteúdo dos “storylivings” passados, como o do FHC, adensam, no entanto, a riqueza contextual da corrente contação posta em cena em tempo presente, a dar-lhe maior profundidade literária. Sarney, Collor, Itamar, e antes, todos os generais, até d. João VI, passando por Getúlio, estão, todos, no sistema contextual, a que chamo de macrocontexto, que ilumina o entendimento dos textos da atualidade. O macrocontexto é tanto includente da dinâmica das estruturas, dos objetos e dos entes na dimensão geográfica humana do presente, como é abrangente da interação de estruturas, objetos e entes do passado ou dos passados. O macrocontexto impacta os textos solteiros da atualidade. Ele nos vem em ondas de dados fragmentados que, por vezes, se organizam como insights, na mente do observador, do que é profundamente, universalmente e atemporalmente verdadeiro. Por certo, se a observação for apurada e investigada, vai-se ver que a realidade de hoje, nos seus desvãos, comunica ao observador subtextos diretamente vindos do macrocontexto. Não fosse isso, o nosso corrente “storyliving” seria pobre artisticamente. A dramaturgia de Nelson Rodrigues estar nos palcos nacional, regionais e locais; o seu colunismo futebolístico ressurgiu por mérito do Lula. Esse último emulou e emula o autor pernambucano na modalidade “literatura oral”. A pista dessa influência literária me veio pelo uso que Lula fazia e faz da apreciação de o brasileiro ter “alma de cachorro vira-lata”, uma das tiradas de Nelson. A forma de apresentação de Lula, como monólogo em “stand-up”, em lugar da crônica escrita, não nega a influência do grande Nelson Rodrigues sobre o festejado e amado político de nossos dias. Nos moldes do antigo cronista esportivo, o discurso do ex-presidente, passado sem viço à presidente Dilma e deficientemente praticado por ela, é ficcional e é dramático. A pesquisadora Angela Ignatti Silva, da Universidade Mackenzie, identifica, nos artigos futebolísticos de Nelson (e o mesmo eu vejo no Lula), a ficcionalização dramatizada de uma dada percepção da realidade. Como que um “remake” simplificado, ao ponto do simplório, de uma trama complicada. Isso é feito pelo uso do aposto ou explicação para gerar tensão no ouvinte ou leitor, pela técnica do discurso direto na construção de diálogos fictícios, pela captura do leitor mediante a intensa emoção e as imagens patéticas. E ainda pela captura das orações interrogativas que são logo respondidas, e pelo uso dos vocativos. Trata-se de dramaturgia posta em palavras que não serão encenadas, uma vez que a “encenação” e a captura da mente do povo já estão feitas. Lembro-me de eu ler a coluna de Nelson. Eu cria nele e o admirava. Lula, que não existia como figura pública, estava àquele tempo, imagino, se preparando para depois de eleito presidente valer-se das técnicas do jornalista. A vida, tal qual a literatura de ficção, não nos faz ter ou ler antecedentes inúteis para o enredo. Mais cedo ou mais tarde, o que vivemos, ou lemos, nos vai reencontrar no futuro, na vida ou no desdobramento da estória. Nelson reencontrou o Lula. Em Nelson Rodrigues cronista esportivo e no homem brilhante do ABC, vê-se o mesmo dialogar dramático. Enquanto Nelson escrevia para ser lido no dia seguinte, Lula escreve ao falar, encenando o narrador-protagonista. Põe-se de pé, movimenta o corpo, a cabeça e as mãos; desloca-se no espaço do tablado. Cativa o público e, como Nelson, cria a situação de questionamento e julgamento sobre os problemas que são postos por ele mesmo. A técnica para tanto é o uso de vozes que surgem no texto, seja a voz do autor, sejam aquelas vozes que ele inventa para urdir variadíssimas tensões. São conflitos de raça, o preto e o branco; de sobrevivência, o rico e o pobre; de ética, o bem e o mal; de dominação, o vencedor e o vencido. O vocabulário é simples, de rua e do povo comum, e imensamente colorido e repleto de figuras de linguagem de compreensão imediata. Mesmo que se façam referências letradas, elas serão sempre inteligíveis no seu sentido básico e suficiente. Suponho que Lula tenha-se apaixonado pelas crônicas do grande jornalista. Quando Nelson morreu, em 1980, o sindicalista tinha 35 anos e era leitor dos cadernos de futebol dos grandes jornais. Lula, me parece, desde cedo, valeu-se de Nelson para saber conversar com os companheiros, a um ou dois degraus acima deles; degraus bastantes para ser um “igual diferenciado”, um sábio da vida, capaz de influenciar e dar conselhos. Não tinha nem tem a cultura do falecido escritor, mas tem o inegável talento dramático e dom de contar causos, com o ritmo certo e a pontuação ótima, para o bem de seus desígnios profissionais de político iluminado. Dilma Rousseff segue canhestramente o mesmo modelo, uma vez que não teve outro orientador, a não ser Leonel Brizola, também um nelsoniano, do tipo triste ou gaúcho, que não se aproveitava do futebol. Alguém lembra dele? De como dramatizava tudo? De como se movimentava no palco ou frente às câmaras de TV em seus longos monólogos? Dilma, sem carisma, sem talento literário e cênico, mas com a técnica de dramatização que os publicitários lhe passaram, imita o seu mentor dentro das poucas possibilidades dela. Dilma é mulher de ação e de nenhuma arte, personagem de espírito heroico e coração valente; não é, em absoluto, senhora da narrativa. Ela aplica recursos de linguagem que um escritor razoável afastaria. Feita essa demorada introdução, vamos ao assunto específico, que liga Nelson a Dilma. “Brasil, pátria educadora” é o dito de mau gosto que Dilma Rousseff apresentou em seu discurso de segunda posse, em 1º de janeiro de 2015. Mau gosto, porque nem Nelson nem Brizola nem Lula o inventariam. Nelson usou o termo “pátria em chuteiras” para nomear a seleção canarinho nos seus tempos de glória e de maior ingenuidade e pudor. “Pátria em chuteiras” é achado de talento. “Brasil, pátria educadora” não; é ruim. A expressão “Brasil, pátria educadora”, criada em 1º de janeiro para o imaginário nacional, como coluna dorsal do segundo mandato da doutora, é mau achado. Tempo para tal dito durar? Ou já durou? Um dia, dois ou até uma semana, como todas as crônicas futebolísticas. Mesmo as crônicas de muita qualidade artística perdem força quando do clássico seguinte e das novas peças jornalísticas. Fato é que o dito “Brasil, pátria educadora” sumiu em cinco dias, se tanto, ao menos aqui em São Paulo. Foi figura de linguagem de vida breve, como era para ser. Jornalisticamente, serviu para ensejar a manchete do dia. Só. Parece mais boato que notícia confirmada. Por tal, deu a todos certa sensação de vergonha alheia, constrangimento que sentimos como se fôssemos a Presidenta. “Pátria educadora”, por evidente, não significa o conjunto, - em carne, osso e alma -, dos nossos educadores e dos nossos professores vestidos de guarda-pós (ou jalecos) nas suas salas de aula e ambientes de pesquisa. Não é a “pátria em guarda-pó”. Escrevo essa palavra dupla no singular porque cada mestre, e a pátria, só usa um guarda-pó de vez e não dois como se dá com as chuteiras. Em suma: “pátria em chuteiras” é bom; “pátria educadora” é sem graça e constrange como um erro que o revisor de texto deixou passar. A ideia de uma “pátria em chuteiras” é sugestiva de brasileiros aguerridos e bem calçados que vão a Copa da FIFA para vencer ou para dar, no mínimo, o seu melhor. O povo os apoia integralmente. Pode-se dizer que a “pátria” os apoia; ou, no meio-termo: a “nação” torce por eles. De seu lado sério e literal, uma vez que educação é assunto sério e não lúdico, como o futebol, a noção de “pátria educadora” mostraria o Brasil, - uma entidade irreal que não fala, não paga, não ouve, não gasta, não decide e não vê -, como responsável por algo de notavelmente material, mensurável e concretíssimo. A utilização vazia da palavra Brasil é reprovável. O Brasil é a pátria de todos nós porque, de algum “modo sublime” (como diria Nelson), está além, acima e não corresponde, em absoluto, aos governos de nosso longo passado colonial, imperial e republicano, ou aos da Ditadura Militar, ou do Sarney, do Collor, do Itamar, do Fernando Henrique, do Lula ou de Dilma. Estes tantos governos não viram a educação como um imperativo ético que se impõe para haver um povo livre, lúcido e cidadão de verdade. Em suma: para haver Brasil em plenitude e glória. Todos os nossos governantes e governanta quiseram uma educação melhor aos poucos, que mostrasse melhoras se comparada com o quanto era pior antes, nos dez últimos anos, por exemplo. Especialmente, quiseram uma educação que os mantivesse como “donos do poder”, como nos ensinou Raymundo Faoro, um gaúcho, como Brizola. Ninguém se importou com o Brasil de carne, esperança, ossos e alma. A educação, na sua versão séria, nos levará a competir com o resto mundo por conta da qualidade, do volume, da produtividade do trabalhador e da inovação persistente de produtos e serviços. O “slogan” criado para Dilma pelo seu “ghost writer” ou marqueteiro, é exemplo de ironia que mente às avessas do que finge dizer. Faz do Brasil imaginário, palavra abstrata de mil sentidos, o culpado pelo passado e, de novo, o culpado pelo que não ocorrerá, em absoluto: a educação de qualidade internacional. Confunde e entorpece porque engoda em dobrado. Foge do estilo que Lula aplicaria, no caso: alguma comparação dramática com o passado “deste país”. Ele, o “slogan”, é para chefe de redação ouvir, noticiar em manchete e nos fazer sentir, aos mais letrados, vergonha alheia. Mas, no entanto, induz as mentes mais carentes de boas novas, - brasileiríssimas mentes enganáveis e enganosas -, a assumir que o palavrório oco seja milagroso por si. Ele induz a que se possa criar o real, do nada; o que não é educativo, porque é mentiroso. Na figura de linguagem da Presidenta, o desejo do povo e a promessa oca se ajustam entre si milagrosamente, como se o prodígio já tivesse ocorrido. O palavrório fabuloso, proferido com emoção, voz grave, enérgica e doutoral, é de efeito retumbante para os crentes de tudo. Talvez só isso se quisesse: mais esperançar os esperançosos incorrigíveis. Para os mais críticos, esse “abracadabra” é malvadeza inédita. É desconexão medonha entre as palavras retumbantes, de um lado, e a realidade e as intenções, de outro. Vivemos, sabe a doutora, um tempo de penúria econômica e financeira, e de inenarrável incapacidade da gestão governamental. Experimentaremos anos de acerto da nossa penúria moral, escarnecida pelo espetáculo da corrupção apoteótica na Petrobrás e no geral dos entes governamentais; Congresso e Executivo, incluídos. O “slogan” de Dilma é “voo de galinha”: curto, a medir-se em dias de efeito, e desarranjado. Só é eficaz para os que creem em “voos de galinha de ovos de ouro”. Há gente assim, muitas dezenas de milhões; porque a falta de educação os faz ignorantes e dóceis, como os querem os “donos do poder”. Faz os crédulos pensarem que haja, ao menos, a boa intenção da Presidenta. Esconde, pateticamente, - o que não é educativo -, que ainda não vamos começar a campanha épica, a tomar muitas décadas, a favor de uma subida vertiginosa de qualidade na educação dos brasileiros. Uma subida íngreme e rápida, homérica, que nos leve à alguma posição competitiva frente aos povos civilizados do Primeiro Mundo, como se diria no tempo de Nelson Rodrigues>