De Bernardo de Carvalho – O Fundador de Bitorocara, o pequeno-grande livro eletrônico do bitorocarense Elmar Carvalho, dizer o quê? Muita coisa, em breves palavras: inebriante na medida certa, qual uma taça de bom tinto carmenère chileno, ou de um argentino malbec de boa cepa. Novidade, não somente na literatura piauiense dos tempos hodiernos quanto ao formato, virtual, mas no gênero: histórico-genealógico, assunto pouco explorado pelo mais poeta, ensaísta e cronista do que historiador, magistrado inativo, porém, imortal campo-maiorense.

                Sobre os homens? O dissertado: sem dúvida, um herói singular, figura unívoca, ainda que não única neste vasto e largo celeiro de grandes nomes da historiografia mafrensina (por que não - como tantas vezes quase diz o outro homem, o autor -, bernardiana?). Mesmo que sua Bitorocara tivesse originado São Bernardo, no Maranhão, o que não o fez por questão que Isaac Newton, o físico, explica por analogia em uma de suas leis, a que diz que um corpo não pode, ao mesmo tempo, ocupar mais de um lugar no espaço – menos ainda continuar, permanecer -; haja vista, propriamente ela, a fazenda, comprovadamente, ficar distante mais de vinte e cinco léguas, de ontem, cento e cinquenta quilômetros de hoje, da cidade maranhense; como se não bastasse, com um rio a separá-las,  unindo os dois entes estatais; por si só, não haveria qualquer demérito nessa engenharia geográfica, se, de fato, não Campo Maior, mas São Bernardo tivesse nascido de Bitorocara.

            Se a lei proposta por Newton, sancionada e comprovada pela comunidade científica desde sua concepção – resistindo aos assédios da Física Quântica -  pudesse ser contestada quanto à sua conclusão – no máximo, um corpo no mesmo espaço-tempo – uma nova hipótese haveria para ser discutida: e em sendo um mesmo imutável espaço físico, mas tempos diversos? É que Campo Maior nasceu, pois esta é a data de fundação da Fazenda Bitorocara que ficava na confluência dos rios Surubim e Longá (daí porque teve a  primeira igreja do povoado como padroeiro Santo Antônio do Surubim, erguida por Bernardo de Carvalho e Aguiar, dono da terra, bem próximo à casa-grande, e de cuja primeira missa, celebrada em novembro de mil, setecentos e doze, portanto, três séculos atrás,  participou): no ano mil, seiscentos e noventa e seis; enquanto a fundação de São Bernardo, às margens do rio Parnaíba, no lado maranhense, ocorreu  em mil, setecentos e vinte um.

                No que tange ao outro homem, Elmar Carvalho, autor de Bernardo de Carvalho – o Fundador de Bitorocara, há que se dizer o seguinte: um quase workaholic (viciado em trabalho), para fincarmos um termo modernoso; apaixonado pelas letras, pela literatura em suas mais diversas acepções, estilos e gêneros, como se pode comprovar em esse opúsculo, por meio qual se meteu a fazer incursões e perquirições minudentes pelos meandros da história genealógica.

                Do confronto entre os diversos estudos e apontamentos feitos pelos mais competentes e empenhados historiadores, genealogistas e pesquisadores de escol, em relação às terras adquiridas por Bernardo de Carvalho e Aguiar, uma conclusão assoma: a certeza quanto à localização da fazenda Bitorocara: às margens da confluência dos cursos d’água Surubim e Longá, onde se encontra há três séculos povoada e viçosa a cidade piauiense de Campo Maior. Negar essa verdade parece menos ação inteligente e mais intenção de escamoteá-la para usufruto intelectual pessoal; demeritório, todavia, se ao pretenso suposto beneficiário faltar o necessário estofo cultural histórico-genealógico-geográfico. Mera tentativa exacerbada e inócua, seria, de espalhar a cizânia sobre fatos a respeito dos quais não resta senão a residual dúvida decorrente da ausência de um conceito definidor, peremptoriamente, do que venha a ser verdade absoluta; inatingível, cognitiva e racionalmente pela inteligência humana no seu atual estágio de desenvolvimento existencial.

                O mais é saborear a obra, deixando-se envolver pelas sobejas virtudes de Bernardo de Carvalho e Aguiar, o fundador de Bitorocara (Campo Maior), fazedor de amigos, inclusive dentre aqueles que até motivos teriam para não lhe querer bem nem o respeitar: os vencidos nas batalhas que precisou travar ao longo de uma vida de conquistas e glórias, mas, também, de muito sofrimento físico e moral.

                Valeu a pena, Elmar Carvalho, trazer à tona essa figura mítica, desmistificando-a. Às vozes discordantes resta tentarem mudar ou reparar a história para buscarem a sua verdade; o que não quer dizer que encontrarão a verdade.

                Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)