[Geraldo Lima]

 

Velhinhas, com cabeça de algodão, marchando rumo à igreja bem de manhãzinha. Vão alegres,  tomadas pela fé — talvez tudo o que ainda lhes resta. Não por vaidade, mas por respeito, apresentam-se bem produzidas diante de Deus. Não se trata do batom, da sombra, do ruge exagerado para disfarçar certa palidez ou flacidez da pele. Nada disso, tudo muito discreto: apenas uma roupa limpa e bem passada, um enfeitezinho aqui, um manto ali, e é tudo. Abolida também aqui aquela imagem sombria da beata, mais para bruxa que para uma serva do Senhor. Discreta elegância, isso sim. Vistas desse modo, bem poderiam despertar ainda a maravilhosa sensação do amor, da paixão, se não estou exagerando.

Esta que segue diante de mim vale a pena ser descrita: meias grossas de lã indo até os joelhos, ou melhor, sumindo por baixo da barra da saia de popelina. Parece bem aquecida no casaquinho de crochê, e se vai meio curvada não é pelo frio: apoia-se na bengalinha, sua terceira perna e esteio quando estaca para tomar fôlego. Fosse, no entanto,  uma pintura, ficaria por conta do buquê, firme na mão esquerda, a função de atrair os olhos para a perfeita harmonia entre rosas, margaridas e cravos.