Quem for ler meu próximo livro de poesia, “Das Bocadas infernéticas”, a sair pela Editora Penalux, de Guaratinguetá-SP, se conhecer meus dois primeiros trabalhos (“BardoAmar”, de 2003, e “Onde Humano”, de 2009), vai sentir o desvio temático num aspecto: a presença de poemas mais desbocados. Essa desbocação vai tanto pro lado da sátira, passando pela escatologia, quanto pro da poesia fescenina, que é o assunto a que gostaria de me-referir aqui.

Desde Pietro Arentino, com seus deliciosos “Sonneti Lussuriosi”, ao Boca do Inferno, com suas glosas de gozar muito sexual e satiricamente, a Bernardo Guimarães, com seu “Elixir do Pajé”, até chegarmos por ejaculação precoce (rapidinho!) a Glauco Mattoso, com sua explícita “Poesia Vaginal – Cem Sonettos Sacanas”, temos gozado muito esse gênero de poesia. Essas e outras leituras me descredenciaram da “pureza”, idealizada, que a poesia amorosa, por exemplo, expõe aos seus leitores. Daí, hoje, essa minha poesia estar inseminada de termos chulos e mesmo lúdicos para designar o sexo e seus elementos pirocais (Ops!), principais...

Por isso, estou avisando aos desavisados que, se houver algum resquício de pudorismo em suas leituras, não penetre esse livro – ainda mais nesses tempos de discursos fundamentalistas, em que até vestir vermelho ou amarelo pode causar problemas! Pra dar um toque mais profundo, introduzo-lhes este soneto – o último poema que escrevi para o livro -, em que homenageio o grande Manuel Maria de Barbosa du Bocage e dedico a Glauco Mattoso, o grande “desarauto da poesia fescenina” no Brasil.

Nesse soneto enviesado, meto a língua num tema que não foi caro aos poetas de séculos passados (pra mim, portanto, não saiu barato!): o sexo oral. Beijemos, pois, pois, o poema:

 

DESBOCADOS BEIJOS POR BOCAGE

 

Se a boca age para beijar bocetas,

ela foge dos antigos à tradição,

Poeta, pois chupar esses conos não

era o que tu gozavas como petas!

 

Como o-sabes, tua foda lisboeta,

depois de passares pelo Nicola,

só ocorreu com disparos da pistola

que tu apontavas pra uma greta!

 

Crê-se que, nas fodais recreações

das antigas, talvez fosse algum nojo

que afastasse de conos os manganões,

 

como tu; já beijar clitóris, hoje,

Elmano, não acumula senões,

senão fazer à xana orgasmo em gozo!