A morte é como o umbigo: o quanto nela existe é a sua cicatriz, a lembrança de uma anterior existência.

Mia Couto

Com a mão na maçaneta, ela parou. Com cuidado, para não fazer barulho, tentou ouvir. De dentro do quarto vinham soluços abafados. Afastando a mão da maçaneta, permaneceu muito quieta na frente da porta. Indecisa, não sabia se entrava ou se, simplesmente, se virava e ia embora, de preferência para longe daquele quarto, daquela casa.

De repente, os soluços pararam. Ela respirou aliviada. Reunindo coragem, bateu na porta. O silêncio se arrastou por alguns minutos, como se a pessoa estivesse decidindo se devia permitir a sua entrada. Depois do que pareceu uma eternidade, uma voz rouca respondeu:

- Quién es?

- Sou eu, mãe.

Silêncio. O barulho de alguém se levantando da cama e caminhando com dificuldade até a porta. Quando a viu, teve dificuldades em esconder a dor. O rosto da mulher que a fitava não era o mesmo que ela aprendera a amar e até invejar. Era outro. Devastado. Com as marcas do cansaço e do sofrimento. Muito sofrimento.

- Mãe... – ela começou.

- Estoy bien, hija, no te preocupes – a mulher mais velha se apressou a responder.

“Mentira!”, no entanto, não quis discutir. Era melhor assim, aceitar a ficção de que tudo estava bem, quando todos sabiam que nada estava bem e nunca voltaria a estar.

- A senhora devia estar deitada, não caminhando – ela a recriminou como se fosse ela a mãe.

A mulher mais velha a olhou com carinho, mas não disse nada. Com dificuldade virou-se e caminhou para a cadeira em frente à antiga penteadeira. Ainda sem dizer nada, segurou a escova de cabelo e devagar foi retirando os tufos de cabelo que ficaram presos. Quando os tinha todos entre as mãos, os colocou com cuidado sobre a penteadeira.

O silêncio era opressivo. O cheiro de remédios no quarto muito forte. E, não pela primeira vez, ela se perguntou quando aquele sofrimento terminaria. Depois, como sempre, sentiu a culpa atingindo-a em ondas. Respirando fundo, andou até a mulher mais velha.

- Mãe, o que eu posso fazer? Me diz, por favor!

A mulher sorriu. Um sorriso triste, cansado, cheio de dor mal disfarçada. E devagar estendeu a escova de cabelos:

- Peina mi pelo, por favor.

“Não! Meu Deus, não!”, ela não queria fazer isso. “Qualquer coisa, menos isso!”, voltou a pedir a um Deus em que ela já não acreditava.

- Hija, por favor – repetiu a mulher.

Lentamente, ela se aproximou, estendendo a mão para a escova. Com muito cuidado, começou a pentear aquele cabelo que há apenas um ano era farto e brilhante. Com lágrimas nos olhos, viu os primeiros tufos serem arrancados da cabeça. Arrancados, não, eles simplesmente se soltavam como se estivessem apenas esperando que alguém os puxasse. Não queria olhar para o espelho, pois sabia o que ia encontrar. No entanto, sem ter forças para evitar, levantou os olhos. E o que viu a fez desabar no chão chorando.

Sua mãe saiu da cadeira e sentou-se com ela no chão do quarto. Abraçando-a com força começou a sussurrar palavras de consolo e carinho. E ela permitiu, mesmo sabendo que quem tinha de ser consolada era sua mãe.

Alguns minutos depois, assim como ocorreu quando estava ouvindo atrás da porta, seus soluços também pararam. Levantando a cabeça, voltou a olhar para a mãe:

- O que eu posso fazer? Me diz, mãe!

A mulher sorriu enquanto com a manga da camisola limpava o rosto da filha. Depois a beijou em ambas as faces com um carinho infinito.

- Hija, estoy cansada...

Aflita, a filha a interrompeu:

- Mãe, não! Vai dar tudo certo. Por favor, mãe...

A mulher a impediu de falar colocando os dedos sobre sua boca:

- Hija, espera, quiero apenas... – ela parou de falar.

- O quê mãe?

A mulher procurou a escova de cabelo largada no chão e estendeu a filha.

- No quiero más peinarme! No quiero más... – respondeu tentando esconder o soluço.

Rápido os papéis se inverteram. Agora era a filha que abraçava a mãe e com toda a força que conseguiu reunir, a embalava, sussurrando palavras de carinho.

Atrás da porta fechada, uma menina ouvia atenta os ruídos vindos do quarto. Devagar, sentou no chão, em frente a porta. Estava com medo de entrar no quarto. Alguma “coisa” lá dentro a assustava. Com as mãozinhas cobriu os ouvidos, fechou bem apertado os olhos e esperou. Sua mamãe viria buscá-la quando a “coisa” fosse embora.