Desse modo, Álvaro Maia apresenta-se, desde o início de sua carreira política e de sua atividade no magistério, como um defensor da glória dos heróis do passado, o que se constata em sua conferência “Pela glória de Ajuricaba” na qual eleva essa personagem histórica a símbolo do Amazonas. No artigo intitulado “O elogio do caboclo”, Maia procura, por sua vez, desmistificar o perfil negativo em relação a esse ser, acusado de indolência e covardia, e o aponta como o guia ideal dos pioneiros e desbravadores, estes também alçados à categoria de heróis:

 
Esses homens rudes, que sentem no espírito a adustão de seus sertões e a agitação de seus males, transmudam-se em valentes, ao contato sarcástico dos caboclos, desvendam o labirinto de nossas terras e, no momento preciso, se metamorfoseiam em soldados para morrer ou vencer, cantando pelo orgulho de sua pátria. Velos-eis, em Porto-Acre, pelejadores em nome do Amazonas e do Brasil, contra um exército, bater uma nação: velos-eis enfrentar, em fronteiras indefesas, invasores imprudentes; velos-eis no Rio Branco e no Madeira, no Javari e no Negro, como sentinelas, conservando no coração o culto da terra e da gente [...][208]
 
            Além do enfoque no elemento humano que, a exemplo dos textos mencionados,  também se dá em Beiradão, o romance apresenta uma percepção do ambiente amazônico distinta daquela das obras da primeira fase do ciclo ficcional. Ainda que Beiradão evoque o determinismo do meio em personagens como Padre Silveira, o qual tem o comportamento alterado pelo ambiente amazônico, levando-o à concupiscência, a natureza não é retratada pelo estigma do “infernismo” que caracterizou, segundo Mário Ypiranga Monteiro, a produção ficcional em torno do “ciclo da borracha”. Importa mencionar que Álvaro Maia reprovou, em carta aberta ao presidente Washington Luís sob o título “Em Nome dos Amazônidas”, a denominação “inferno verde”, estampada no livro de Alberto Rangel e propôs, ao invés, a expressão “Paraíso verde”. 
            Os desequilíbrios no ambiente expressos em Beiradão são dados como resultado do processo de desbravamento tal se pode notar por esta passagem do romance:
 
Redimiam-se os seringalistas da triste fama de criminosos, explicável pela violência dos pioneiros, na arrancada para vencer o índio e dominar o desconhecido, uma pequena parte desse desconhecido [...] A conquista prosseguia em capítulos verídicos, inscrevendo os nomes daqueles homens audazes entre os que empurraram o Amazonas para a frente, espalhando barracas e caminhos, cadáveres e heroísmos nos meridianos coloniais [...][209]
 
            A justificativa apresentada no romance de que a violência e a espoliação são conseqüências de uma “sociedade em formação” afina-se com a concepção do historiador amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis, para quem esses mesmos fatores são resultados naturais de um processo de colonização ou de um “meio-sociedade em formação”. A redenção é também destacada pelo historiador: “[...] Os anos de rigor, da fase  de decadência dos seringais, ferindo seringalistas, aviadores e seringueiros, tiraram-lhes muito daquele sentimento de voracidade, de apetite insofrido que os levou àqueles excessos por demais lamentáveis.”[210]
            Nesse diapasão, os “pecadilhos” de Padre Silveira são postos como perdoáveis porque ele realiza a tarefa pioneira de oferecer assistência religiosa aos interioranos. Padre Silveira e Fábio são dois exemplos de que a carreira sacerdotal sofre um abalo numa natureza virgem, o primeiro, tendo chegado ordenado ao Amazonas, exerce o sacerdócio pela metade e o segundo, ao se deparar novamente com o seminário na volta ao Ceará, perde a vocação em virtude da estada nos bamburrais amazônicos.
            A natureza em Beiradão seduz e deixa na alma do pioneiro uma marca indelével: “[...] Estas margens, estes aguaceiros, estes sofrimentos gravam-se na gente para sempre e cozinham os dias em saudade permanente.”[211] No romance, a atração exercida pelo meio ocorre de forma extensiva, atingindo o arrivista e o abnegado.
            O que motivou a diversificação na abordagem de Beiradão quanto ao papel do seringalista foi menos um diálogo com os ficcionistas da borracha do que uma proposta política de alternativa econômica para a região. Durante a década de 1930, quando governava em sua primeira interventoria, Álvaro Maia já pedia providências ao governo federal para minimizar a crise e sugeria o amparo à lavoura, através da divisão de terras pertencentes ao Estado entre pequenos proprietários, como forma de conter o êxodo rural ocorrido com a desvalorização da borracha. Por outro lado, Santos observa que, como interventor, Maia não abandona a idéia da valorização da borracha e que tanto essa valorização quanto o apelo à implantação de um meio econômico alternativo atendiam aos interesses das classes conservadoras amazonenses e das populações interioranas.[212] A cooperação entre o proprietário e o extrator, a necessidade de fixação do homem à terra que marcam o procedimento da personagem Fábio, em Beiradão, faziam parte do programa populista desenvolvido por Vargas e igualmente assumido por Álvaro Maia.
            Vemos que a percepção do escritor no romance pouco diverge dos postulados políticos que defendeu toda a vida, que podem ser mapeados em seus artigos, discursos e conferências, mesmo tendo o romance sido escrito durante a fase de afastamento da política.
 
 
 
 
 
O amante das amazonas: o ciclo sob o olhar de um analista-autor
 
            Rogel Samuel, autor de O amante das amazonas, agrega duas características relevantes para nosso estudo sobre as obras literárias do “ciclo da borracha”. A primeira delas é a experiência que, em seu caso, não é direta, vem de reminiscências legadas pela memória de antepassados, como o avô, um alsaciano enriquecido pelos lucros da borracha amazônica, no início do século XX. A segunda característica motivadora do estudo desse romance surge do fato de o autor ser analista literário, atividade resultante de sua carreira no magistério.[213]
            Entendemos ser a atividade de analista empreendida por Rogel Samuel a promotora da diversificação de abordagem do romance O amante das amazonas. Não o nomeamos, contudo, um escritor-crítico, conforme concebe Leyla Perrone-Moisés[214] por entendermos que o autor exerce a atividade de analista paralelamente a de escritor e por considerarmos que tanto a sua produção teórica quanto a sua produção ficcional não alcançaram a extensão e o nível de sistematização necessários à qualificação de escritor-crítico, como o estabelece o estudo de Perrone-Moisés. Uma vez que Samuel não pratica a análise do texto ficcional como corolário de sua atividade de escritor, podemos considerar o oposto: que sua atividade de professor e analista possibilitou a expressão de ficcionista, expressão essa que marcará a renovação da terceira fase ficcional do ciclo.
            O amante das Amazonas realiza a brevidade que, segundo lembra o narrador de um romance de Ítalo Calvino, é necessária aos romances modernos: “[...] Hoje em dia, escrever romances longos é um contra-senso: a dimensão do tempo foi estilhaçada, não conseguimos viver nem pensar senão em fragmentos de tempo que se afastam, seguindo cada qual sua própria trajetória e logo desaparecem [...].”[215] Dessa forma, o romance se divide em 23 capítulos curtos: Viagem, Palácio, Numas, Paxiúba, Ferreira, Júlia, Desaparece, Ratos, Frei Lothar, Perdida, Ribamar, Manaus, Conversas, O leque, A livraria, Benito, Rua das Flores, Encontro, Mistério, Noite, O pórtico, Jornal, Fim. São capítulos que, por sua vez, não estabelecem uma continuidade linear do enredo, alguns deles basicamente introduzem personagens, o que reforça a característica fragmentária da narrativa.
            Fragmentado é ainda o narrador do romance. Divide-se entre primeira e terceira pessoas. Em primeira pessoa, narra Ribamar, retirante do povoado de Patos, em Pernambuco, vindo para a Amazônia em 1897. Já a voz que narra alternando a primeira e terceira pessoas tece comentários, dialoga com o leitor, insere digressões e se assume como ser ficcional: “[...]sei, e de antemão o digo, que esta é apenas uma obra de ficção, e portanto mentirosa, dentre as várias que há na literatura amazonense, e espere o leitor e a leitora o surpreender-se como, apesar disso, o fio do destino do que vai descobrir é correto. Todos os fatos, aqui expostos, foram realidades notáveis e aconteceram realmente para a minha imaginação [...].”[216]
            As narrações em primeira e terceira pessoas, portanto, não se apresentam como instâncias independentes. Por vezes, a forma indireta da terceira pessoa se personaliza. Expressa-o o fato de que o romance se inicia com a narração em primeira pessoa da personagem Ribamar para, posteriormente, no capítulo dez, ser atribuída ao narrador em terceira pessoa, que destaca: “O Manixi naquela época agonizava, improdutivo. Fazia dois anos que o próprio Ferreira não aparecia, e a sede, depois da morte do Capitão João Beleza, ficara sob as ordens de um Ribamar (d’Aguirre) de Souza, oriundo de Patos, Pernambuco, conforme o primeiro capítulo desta minha narrativa.”[217]