Corro perigo

Como toda pessoa que vive

E a única coisa que me espera

É exatamente o inesperado

Clarice Lispector

‑ Jesus Cristo! Será que ainda demora muito?

‑ Não sei, mas não adianta ficar nervosa. Quando chegar a nossa vez, eles vêm nos avisar.

‑ Quem sabe não é um sinal? Quem sabe a gente pensa melhor?

‑ Não! Eu não quero pensar mais. Cansei de pensar! Chega de “quem sabe”! Eu já me decidi. Eu fico!

‑ E se a gente conversasse com os nossos pais?

‑ Pais?! Só se eu fosse louca. Se ficarem sabendo, são capazes... Sei lá, não quero pensar nisso agora. Porém, se os teus pais podem te ajudar, acho que deves ir embora, esquecer esse lugar, tudo...

‑ Meus pais não são diferentes dos teus. A opinião dos outros sempre foi mais importante que a minha.

‑ Olha, mais uma entrou. Se quiseres desistir, ainda está em tempo. Eu só saio daqui quando tudo estiver resolvido.

‑ Tudo bem. É bobagem minha acreditar que pode ter outro caminho. O melhor é resolver esta situação de uma vez. Fico.

‑ A vida tem umas coisas estranhas. Não nos víamos há tanto tempo e fomos nos reencontrar justamente aqui.

‑ Eu também não esperava encontrar ninguém conhecido, menos ainda uma amiga de infância.

‑ Lembra das brincadeiras no quintal lá de casa? A gente era tão inocente, não tínhamos ideia de como a vida podia ser dura.

‑ Olha! A outra já saiu. Dessa vez foi rápido.

‑ Viu? Mais um pouco e tudo vai estar resolvido. Vamos ficar tranquilas.

‑ É, mas ela parecia abatida. Será que dói muito? Não suporto sentir dor.

‑ Uma conhecida me contou que a sensação é de uma cólica forte, mas, segundo ela, depois passa.

‑ Tomara. Se tiver de ficar de cama muitos dias, não sei como vou explicar. As pessoas podem ficar desconfiadas.

‑ Procura ficar calma. Vai dar tudo certo. Agora, é melhor a gente se despedir. Vão me chamar daqui há pouco. Gostei muito de te ver e obrigada pela companhia.

‑ Imagina! Eu é que agradeço, afinal tiveste de ouvir minhas queixas esse tempo todo.

‑ Quando tudo isso tiver passado, vamos nos encontrar para pôr a conversa em dia. Temos muita coisa para relembrar.

‑ Ótima idéia! Eu gostaria muito. Mas... Laura? Posso te fazer uma última pergunta?

‑ Claro. O que é?

‑ Será que Deus vai nos perdoar?

‑ Não sei. Isso não me preocupa. Há algum tempo deixei de acreditar Nele.