[Paulo Ghiraldelli Jr.]

A coluna de Caligaris na Folha (03/02/2012) fala do falso acúmulo de experiência. Talvez isso seja um sinal dos tempos que me incomoda: jovens querendo bater boca com quem é mais velho, na base de experiências que eles dizem que tiveram, mas que sabemos que não tiveram. Sabemos isso porque nós as tivemos. Trata-se da síndrome do “eu já sei”. O rapaz chega para você e finge que esquece seu currículo de três ou quatro ou cinco décadas de labuta em um ramo de atividade, e se apresenta como quem pode suprir a experiência com a inteligência. Ora, se fosse inteligente mesmo, não pensaria assim.

Como bom rortiano, não sou daqueles que divide o saber em opinião, conhecimento e sabedoria de um modo que as linhas que separam tais coisas não possam ser borradas. Todavia, posso tomar essa divisão platônica, ainda, desinflacionada de peso metafísico, mantendo apenas as diferenciações semânticas. Nesse sentido, doxa, episteme e sophia, respectivamente, podem muito bem ser preservadas para que possamos advertir alguns sabichões: no âmbito da opinião, podemos estar em níveis próximos, no âmbito do conhecimento organizado (ciência) podemos ter gente jovem sabendo mais que os mais velhos, mas a experiência de vida é também um saber e ela não caminha separada das outras esferas, ela alimenta e se alimenta das outras. Por definição, um sábio é aquele que conta para si mesmo sua idade como um trunfo. É um trunfo. Ele é aquele que viu o problema acontecer mais de uma vez fora dos livros e fora da oitiva. Isso lhe dá alguma vantagem. Essa vantagem é a vantagem da vida. Quando uma sociedade perde seus velhos, seus sábios, porque não dá mais valor a eles, ela começa a criar isso que temos hoje: o rapaz que entra na Petrobrás para trabalhar e na segunda semana reclama porque ainda é peão, ainda não está em um cargo de chefia!

O Brasil não é mais um país de jovens. No entanto, o Brasil não se tornou, como a França, a Inglaterra e mesmo os Estados Unidos, um país em que o envelhecimento da população se fez com alguma articulação a uma inteligência específica: a de ouvir os velhos, a de cultivar os sábios. Aqui, descartamos as pessoas que estão no auge do seu potencial, exatamente para dar espaço para o peão de 18 anos que se acha um gênio, e que por isso mesmo vai cometer todos os erros que podiam ser evitados se ele não se achasse um gênio e consultasse os sábios.

 A barba branca é ainda um sinal para as classes populares. Mas, para a classe média, ela perdeu o significa. São poucos os jovens de classe média que percebem logo que seus professores que “branquearam” poderiam lhes dar mais do que outros. São poucos os jovens que não pensam que os velhos são velhos em seus neurônios. Há até as meninas que chamam os mais velhos de “velhotes”, pejorativamente. Há alguns que usam o termo “velho” como xingamento. Não sabem que, para o velho, isso é um elogio. Quando me dizem: “você é um velho”, eu suspiro e digo, “putz, felizmente”. Eles me lembram de que posso recorrer à minha experiência, e não só a qualquer episteme. Mas eles próprios, os jovens, não percebem isso, e caem exatamente no buraco que eu falei que eles cairiam. Chego a sorrir maldosamente quando vejo isso, porque alguns jovens são chatos o suficiente para despertar tipo de sadismo.

Na minha atividade, de filósofo, a idade só conta a favor. Nunca contra. Mas o engraçado é ver os jovens não saberem disso. Falta a eles tanta coisa, principalmente em um país como o nosso, onde o jovem não consegue achar uma informação na Internet! Mas, é incrível que agora lhes falte também o próprio conceito de velhice, a própria noção de sophia. Por isso uma parte deles não consegue se aproximar da philo-sophia. E então, temos de tratar esses mais bobos como café-com-leite. Não podemos corrigi-los. Agem sempre como garotos de trinta ou quarenta anos, os mais difíceis de dialogar, porque se imaginam adultos e, então, corrigidos, se sentem inferiorizados quando na verdade, se fossem menos burros, se sentiriam atendidos. Há uma adolescência tardia hoje, ou melhor, maior. Ela começa mais cedo e termina bem mais tarde. E isso irrita e nos mantém no Terceiro Mundo. Os jovens se recusam a aprender. E começam a recusar a aprender até já quando estão em uma idade em que deveriam começar a ensinar verdadeiramente, após cinquenta ou sessenta anos. Os velhos inteligentes não param de aprender. Uma das coisas que me deixa mais feliz é contar com a correção de alguém, jovem ou não, inteligente, que me dá uma nova chave para novas portas.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ