[Paulo Ghiraldelli Jr.]

“Sociedade da informação rápida”. Isso é mais que sociedade da informação. Segundo Sloterdijk, este é um dos elementos de uma situação de desoneração que caracteriza a modernidade nos dias atuais. Tudo é sabido por todos.

Demoramos para construir a figura da consciência que se acha indevassável, secreta, e eis que agora, mesmo na nossa individualidade burguesa ou moderna, somos postos a nu por mecanismos eletrônicos que transmitem informações sem as quais não podemos mais viver. Tais informações tornaram a vida mais leve. Mas, ao mesmo tempo, ainda não temos uma subjetividade pós-moderna, preparada para essa total exposição.

Como eu avalio isso? Cada vez mais seremos expostos a mecanismos que irão nos fazer ou ficarmos honestos demais ou completos sem-vergonhas. O futuro dirá.

Os governantes do mundo todo e também os maridos e esposas infiéis estão com dificuldade de aprender isso.

No caso de Dilma e Lula, eles entraram por um duplo erro: 1) primeiro, desconsideraram que poderiam estar sendo grampeados, mesmo fazendo falcatruas e sendo investigados; 2) desconsideraram que o mundo em que vivemos, se há gente que ainda quer privacidade, há milhões que nunca sequer tiveram, e que não querem mais essa privacidade que faz com que os governos e os poderes de estados possam tramar contra eles – contra nós todos.

Foi isso que se abateu com a esquerda americana. Obama foi pego de surpresa pelo Wikileaks. Entre a segurança americana e entre os direitos dos cidadãos de saberem a verdade dos governos, o que fazer? Os democratas liberais e de esquerda na América, ao ocuparem cargos governamentais, ficam em dificuldades para decidir o que a direita, por sua vez, já decidiu. Esta, esconde tudo sem problemas. Fez isso na invasão do Iraque. Os liberais não podem agir assim. Eis o drama.

No Brasil, Dilma, Lula e o PT não possuem esse drama: é moral e legal divulgar tudo, mas isso nos Estados Unidos, aqui, se eles estão no governo, e estão tramando contra nós (como sempre estão), então, é ilegal e imoral um juiz corajoso colocá-los expostos na TV. É assim que pensam. Possuem cérebros suficientemente ideologizados para tal. Mesmo quando falam em “legalidade de vazamentos”, não vamos nos enganar, estão só se protegendo para esconder as tramoias que, agora, já conhecemos.

Bonner e a TV Globo, bem como Moro, cumpriram um dever de cidadania. Não há razão de se intimidar contra o poder de governo ou poder de estado – assim pensaram. Respirei aliviado. Não é fácil tomar a atitude que tomaram. Não é fácil mesmo!

Nada como a liberdade de informação. Talvez todos os governantes só fiquem mais sem vergonhas daqui para diante, levando todos nós junto com eles, mas, não há outro caminho. A vida exposta veio para ficar. O mundo será um eterno reality show espetacular. Bem vindos ao fim da privacidade, para o bem e para o mal.

No caso da exposição que mostrou Dilma e Lula tramando contra nós, adorei saber. Deveria eu ser enganado? Todo mundo sem rabo preso e sem ideologia de dinossauro, também adorou, junto com os que, claro, só querem vingança. Mas, cá entre nós, até a esquerda honesta quer vingança. Lula traiu os ideais liberais e de esquerda e está tentando enterrar tudo junto com ele. No caso específico, ninguém mais aguentava as mentiras de Lula e sua capacidade de sempre querer estar acima de tudo e bradar como “o homem mais honesto do mundo”, tão honesto que podia fazer “mensalão” e “petrolão”.

Os ideais liberais e de esquerda, volto a insistir, estão se saindo vitoriosos nesses episódios todos, ainda que o preço a pagar seja o fim de determinados setores liberais e de esquerda que quiseram compactuar com a desonestidade. Claro que, como disse, tudo isso pode dar errado. Não descarto que, por conta da super exposição, toda a sociedade fique inteira sem vergonha. Mas, isso deverá ser um outro capítulo da narrativa da desoneração na “sociedade da informação rápida”.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.