(*)Dílson Lages Monteiro

“Seria o prazer o bem supremo da vida?” A indagação ocupou o pensamento da filosofia na Grécia Antiga e, em tempos de comunicação instantânea e sem fronteiras, de uma era em que tudo parece feito para durar pouco, como bem ilustrou Zygmunt Bauman, volta a inquietar o homem. Essa inquietação é o que move a poética de Geovane Fernandes Monteiro, em “A Arte de Não Saber”.

Trata-se todo o livro, a partir do próprio título, de uma negação irônica da razão, em busca de expressar o hedonismo. Poesia de dúvidas e antinomias. Poesia de questionamentos metafísicos:

“No cuidado de não merecer

Tenho amor maior:

De nele não crer,

Amo.”

 

 Toda a obra é uma procura pela experimentação do afeto. A voz lírica dialoga com os próprios sentimentos, tentando resistir à brutalização da vida e à perda da essência do que é ser humano. Daí, a oscilação perene do eu lírico entre o prazer e a dor, criando uma atmosfera de perplexidades, desespero e melancolia, somente suplantada pela carga sígnica da própria poesia, que assume, aqui, contraditoriamente, uma função utilitária.

“Não tardes,
Se não pretendes a noite finda,
Quando ainda não houver soluços
Que nos apontem a alma.
Não tardes,
Que até o luar
Esse inefável espelho
De todos os amores
Dissolve-se na noite a fio.”

(Eclípse)

 

Essa dimensão hedonista está na gênese da recorrente sublimação do eu pela vivência do tempo presente. Quer a voz lírica controlá-lo pela possibilidade de experimentar as sensações do intangível. Ser potência e ser ato se confundem e estimulam a sutil melancolia das “coisas” perdidas. 

“Por detrás do tempo
Há um finito
(...)
Renovando despedidas.”

O percurso do hedonismo, em “A Arte de Não Saber”, transita entre o sonho e a realidade. Ser é sonhar:

“Meu esconderijo
É teu sono,
(...)
Amar tem sido
Velar tua ausência

(...)

 

            A trajetória de descobertas existenciais a qual  move o eu lírico passa, também,  pela expressão recorrente dos prazeres físicos, em metáforas e definições, de tom sensual. Ser é explodir a linguagem do corpo:

 

“O cotidiano é o maior segredo:
montanha - russa de cortinas
embotadas de Omo,
beijo óbvio e traiçoeiro,
contrassenso de sorriso neutro.
Os pecados se convertem
a imprecisas constatações,
o prazer surpreende o desejo
e há novidades na 3 x 4.
Quero teu corpo, e não a alma

(...)”

 

Em A Arte de Não saber, Geovane Fernandes Monteiro situa-se, por meio de sua poesia neorromântica, entre os poetas que fazem do escapismo a manifestação confessional do amalgama de sentimentos do ser e do estar no mundo. Nele, poesia é prazer, mas também uma tentativa desenfreada de encontrar a serenidade e o equilíbrio das vivências perdidas. Sua poética, pois, reflete a tensão misteriosa e não concreta do tempo, despertando em nós, leitores, a certeza do próprio paradoxo que é o existir:

“(...)

sigo vontades, sem tempo para escolhas

é que escolho.

Não separo alegria de tristeza;

eis a clareza”.

 

(*)Dílson Lages Monteiro é poeta, romancista e membro da Academia Piauiense de Letras.