Mas eu conheci Maya, bailarina russa. E a conheci no teatro, após o espetáculo. E quando nos encontramos passamos três dias juntos. Nossa ligação era mal vista por sua companhia. O Diretor me disse grosseiramente:

 

- Largue a Maya, seu... (e disse um palavrão em russo).

 

Na realidade ele esperava que Maya encontrasse um milionário (e ela merecia), e não a mim, refugiado sulamericano sem dinheiro.

 

Maya tinha corpo de garça, de graciosa leveza, fascinante, leve.

 

Um dia, lembro-me bem, saímos os três,

Maya, o Diretor (não me lembro o nome) e eu.

 

Jantamos e depois fomos para o meu hotel. 

 

O Diretor descobriu um disco na estante, o

Segundo Concerto para Piano, de

Beethoven, tocado por Cor de Groot, com a

Orquestra Sinfônica de Viena, regida por

Willem van Otterloo.

 

Maya passou a “dançar” o concerto, improvisando. O Diretor numa interpretação facial, gestual, sentado na sua cadeira: e foi um belo espetáculo teatral.

 

Os dois inventaram na minha frente um Balé-Beethoven.

 

Eu amei Maya até o trágico dia de sua despedida: O Diretor apareceu no meu hotel com fúria (era um homem enorme e forte), e nos separou à força (estávamos nus, na cama), e a levou com brutalidade, com autoridade brutal, e nunca mais a vi.

 

 

 

Depois de alguns meses conheci Helene Reval.

Recomendado por uma amiga, eu tinha alugado um apartamento numa casinha em Marlenheim, na place du Maréchal Leclerc, onde planejava ficar recolhido.

Fiquei muito tempo ali.

Minha rotina era de manhã saía para beber um café com croissant, um pedaço de camembert, na pequena padaria quase em frente, na mesma praça. Depois saía para uma caminhada pelos arredores, pois a senhora estava arrumando a casa. Ia quase sempre até um pequeno mercado, onde me abastecia e comprava meu almoço já pronto. Voltava quase na hora do almoço, lia um pouco depois, dormia e ouvia música. À noite saía até um bar rua Gal. De Gaule, onde bebia uma taça de vinho e olhava os carros que passavam. Às vezes voltava tarde, e ia dormir ao som daquele silêncio.

Raramente fui a Strasbourg, de ônibus, que já me parecia uma cidade grande demais. Às vezes ia a Kuttolsheim, onde conhecia pessoas e frequentava um centro budismo.

Mas desenhava e pintava umas aquarelas.

Um dia, no ônibus que me trazia de Strasbourg, sentei-me ao lado de Helene Reval. Foi amor imediato. Quase sem nos falar já estávamos abraçados. Saímos dali para um hotel onde pernoitamos.

No dia seguinte Helene foi para meu apartamento. E lá ficou.

Foi uma revolução em minha vida. Ela estava de férias, em casa de uma tia, e nos unimos na minha casa.

Quando suas férias acabaram, voltei com ela para Paris e retomei meus trabalhos na Maison Riviere.

Helene era tudo para mim. Com ela, a vida ganhava sentido. Como sua família vivia no subúrbio, resolvemos morar num Hotel, o de sempre, du Petit Louvre.