A carta de meu tio Carlos demorou quase um mês para chegar.

Meu tio dizia que precisava urgentemente falar comigo, pois estava sozinho no sítio.

Tio Carlos vivia há muitos anos no meio do mato nos arredores do Rio recluso como um eremita, acompanhado por uma governanta e um piano.

Solteiro, retirou-se e eu não o via há muito tempo.

Na carta ele me mandava o número do seu telefone (antes não tinha) e dizia que a governanta Antonia tinha falecido e que ele estava só, necessitando de minha orientação como único parente vivo de que ele se lembrava.

Tio Carlos tinha sido um advogado comunista ligado às causas sociais, era muito culto, falava vários idiomas, tinha uma biblioteca preciosa, e principalmente tocava piano.

O piano era o objetivo de sua vida, e ele estudava diariamente as 32 sonatas de Beethoven como se fosse um profissional.

Para ele, o maior intérprete de Beethoven tinha sido Backhaus (“apesar de nazista”, dizia ele).

Tio Carlos mantinha  na parede uma enorme fotografia de Wilhelm Backhaus jovem, ainda muito bonito. A foto estava autografada pelo próprio pianista, que tio Carlos conheceu em concerto. Era a foto clássica de Backhaus, sentado de lado numa cadeira, braços cruzados, o cabelão cortado à esquerda e puxado para a direita, olhando para a câmera fixamente. Devia ter uns 20 anos naquela foto. Tio Carlos tinha a coleção completa das Sonatas de Beethoven por Backhaus em disco.

Backhaus, dizia um crítico, está para os outros pianistas com o monte Everest sobre as outras montanhas. «Majestade e sutileza, técnica sobre-humana, presença e graça». Tocou por cerca de 70 anos, e foi um dos primeiros a gravar um disco. Dizem que ele teve duas fases, antes e depois da Segunda Guerra Mundial.

Antes demonstrava vitalidade, emoção. Depois, entristeceu. 

Escreveu Backhaus, «quanto mais simples, mais belo». Ele não era chegado às aparições espetaculares. Era modesto, ainda que idolatrado, reconhecido, famoso. Suas interpretações equilibradas, a delícia de seus ouvintes, não era para a demonstração de sua virtuosidade pianística.

Depois se soube que ele não só tinha sido nazista como era mesmo amigo do próprio Hitler.

Mas meu tio Carlos o adorava.

Ele tinha importado livros em vários idiomas sobre a técnica pianística de Backhaus.

Meu tio repetia sempre que Wilhelm Backhaus era o único pianista que soube tocar a Hammerklavier Sonata.

Backhaus tocou até o fim de seus dias, aos 85 anos de idade.

Enfim eu consegui falar com meu tio pelo telefone.

Prometi voltar.