[Ronaldo Cagiano]

A morte o esperava
como um ventre.

 Carlos Nejar

Os sucessivos telefonemas a que não atendia acenderam uma luz amarela. No trabalho já não sabiam mais o que fazer, se cortavam o ponto ou se ligavam para alguém da família. Mas, quem eram seus parentes?

Pouco sabiam de Heleno, sempre albergado em sua absorta e taciturna misantropia. Nada além das migalhas de informações sobre si. Quando muito sobrassía a paixão pelo Corinthians, escapa o nome de um colega de copo e de sinuca, jogo ao qual era habituè num bar decadente da baixa Augusta.

Nem mesmo a derrota que culminou no rebaixamento do Coringão o sentenciou em casa. Depressão não era com ele, a rua era o seu divã.

Enquanto uns fogos espocavam pelos lados do Morumbi, balas perdidas atingiram casas na Rocinha naquela noite. A diferença entre um estouro e outro, na Paulicéia e no Rio, eram as motivações. No Iraque muita gente continuava perdendo a vida por uma causa. Boas ou más, elas não merecem que coloquemos nossa existência à prova. Mas, o que é viver e morrer em um mundo em que as razões mudam de lugar a cada dia, ao sabor das conveniências políticas; e os dramas sociais continuam a esperar; e vida e morte se confundem numa luta de titãs, e banalizam a existência? Stalin e Hitler não me deixam mentir: um nome a mais no obituário já não é uma tragédia, é mera questão estatística. As esquinas já não (a)guardam surpresas.  

E os homens tão imóveis e gelados como o Himalaia.

E no ambiente onde trabalhava, a mesma confusão babélica de vozes, onde ele sempre se esquivava numa leitura em sua mesa atulhada de souvenirs, como a velha flâmula da conquista do bicampeonato na Copa de 62.

Há dias Heleno não aparecia. O Marcondes não costuma ser babá de funcionário, mas agora ele exigia uma explicação. Como? O homem não aparece, tenho prazos na obra, assim não dá. Nem telefona, sequer uma desculpa ou satisfação, caramba, e vocês são testemunhas, nunca reclamei das bebedeiras dele, desde que entregasse os projetos em dia.

Havia algo muito esquisito no ar. A sala não é a mesma sem ele. A Luana, com quem mais se dava, dividindo suas idiossincrasias filosóficas e o cego apego ao espiritismo, percebe algo de sinistro nesse sumiço incomum. O homem não tem ninguém, pelo menos nunca disse nada, é melhor avisar à polícia, ele pode ter desaparecido e a gente aqui sem fazer nada.
           
A varanda estava coberta por uma lâmina de poeira que se misturava ao rescaldo das goteiras da última chuva, deixando um rastro seco no piso. Algum animal passou também por ali, gato ou cachorro, espalhando a correspondência pelo chão, cravando um desenho caótico com suas patas silhuetando a cerâmica. A conta de luz umedecida do orvalho jazia na grama do jardim, sacolas de pão se acumulando, a lâmpada da sala acesa, uma falta de movimento. E um exército de varejeiras, num bailar alucinado e estridente, tentava penetrar a vidraça da entrada principal.

Não compareceu aos compromissos da semana, o ponto aberto. A última vez em que deu as caras foi no sepultamento do velho Aristides, o amigo de infância fulminado por um AVC.  

Rosimere lembrou-se de tê-lo visto na véspera da fatídica decisão entre Corinthians e Grêmio. Fumava seu cigarro, o olhos viajando na distância, nem a percebeu quando se cruzaram na esquina da Consolação com a Paulista. Sempre vagava pelo cinturão de cinemas, sebos e livrarias. O Belas Artes é meu templo, Vicente. Uma paixão visceral por cinema, teatro e literatura. Com ele descobri Win Wenders, Plínio Marcos e  Camus. Eles são os inimigos fatais da mediocridade.

Debruçado nas suas pranchetas, esmerava-se no planejamento dos ambientes, adequando-os à personalidade dos clientes da incorporadora. Ele tinha algo de quixotesco e chapliniano, o sonho misturado ao humor. Metódico e solitário, tentava superar sua insularidade, arrostando com seu olhar cirúrgico o mundo que – ele não cansava de repetir nas suas ácidas inconfidências – estava “robustecido pela efervescência dos mentecaptos, pelos fetiches do deus mercado, oscilando entre o alheamento e a passividade, a falta de comunicação e a sedução consumista, dantesco, cheio de coisificação e etiqueta, ora perdido na fé irracional, ora dominado pela beligerância.”

Nas primeiras dores, certamente teria tentando gritar, o corpo contorcendo na poltrona, a televisão ligada, a impossibilidade de caminhar até ao telefone, mas seria inútil, o sinal havia sido cortado pela conta atrasada. A quem, então, recorrer? A vizinhança era uma incógnita, não se relacionava, a não ser com seus fantasmas, ou com os passarinhos na gaiola. Mas esses já haviam sido doados a um colecionador, Heleno também já não tinha paciência nem dinheiro para manter Beethoven e Mussolini, os dois cães que trouxe de Brasília, rações caras, cuidados, veterinário e o périplo cansativo de todos os dias os coleirando pelas ruas, que mudaram de dono fazia tempo.

Naquela semana em que notaram sua primeira ausência, a folha do calendário tinha virado de novo e já estávamos em outra estação. Em Cuba, a notícia da renúncia de Fidel Castro já não pegou o mundo de surpresa. As folhas que caíam das árvores e se acumulavam ao redor da casa impingiam a nudez do outono em todas as coisas. E os americanos espreitavam com interesse incomum as primárias republicanas e democratas, que acenavam com a possibilidade de uma mulher ou um negro ascenderem à Casa Branca.

Na segunda-feira em que deveria chegar cedo ao trabalho, a reunião com os representantes de uma construtora que estudaria a viabilidade de um condomínio de escritórios nos Jardins começou e terminou sem ele.  E seu corpo estava lá, imune e imóvel aos interesses que moviam as discussões em torno de uma mesa redonda sobre o novo empreendimento.

Nada de novo na terça, a não ser despachos rotineiros dando sequência aos trâmites burocráticos em seu setor. E seus olhos já não enxergavam a luz, jazendo na penumbra da sala, tendo como testemunhas as formigas doceiras que invadiam o latifúndio do açucareiro abandonado sobre a pia da cozinha e o rádio ligado no criado mudo reverberava a voz de um locutor histriônico que noticiava mais uma das tantas cenas policiais do dia, com seus requintes de perversidade e violência.

Uma quarta-feira morta como a vida que ninguém sabia que estava ali, enrijecida e cristalizada em sua imutabilidade, vencida pela súbita visita das Parcas.

Enquanto na manhã de quinta um casal de evangélicos era detido por corrupção na alfândega de Miami, Heleno convertia-se em mistério e num hospital da Baixada Fluminense já não havia mais como alojar os pacientes infectados pelo Aedes aegypti. O caos se instalara na rede médica carioca, assim como os vermes que já visitavam sua carne, entregue para sempre ao desatino da desorganização celular.

Alheio à sua casa que nunca recebia visitas, mas restava povoada de insetos que tingiam os basculantes do banheiro, o trânsito de sexta na capital paulista acumulava cento e vinte quilômetros de congestionamento, numa repetição enfadonha do estresse urbano, apesar do revezamento de automóveis imposto pela administração de um  prefeito jactante e também cioso do expurgo dos outdoors que em passado recente transformou a cidade num mosaico surrealista e poluidor da visão  de seus habitantes.

O sábado ainda engatinhando e no centro velho da metrópole quatrocentona as obras do metrô não dormiam e uma tubulação de esgotos exalava um mau cheiro, tão insuportável quanto os miasmas que escapavam de sua casa, onde sua vida se apagou como uma lamparina extenuada.

Domingo sem sol, e a garoa não impedia que católicos rumassem à Catedral da Sé para a missa das sete, enquanto não muito longe dali, a céu aberto, protestantes divididos entre a oração e a ereção, faziam o pregão  de uma fé alucinada e delirante, onde exercitavam a chantagem espiritual e cobravam pedágio para um céu inalcançável .

Tentaram ligar para sua casa, reiterado silêncio.  Com que mais se importaria Heleno, se já não tinha sentidos para a fruição do canto gregoriano que tantas vezes fluía de um órgão, enquanto lia Proust? E que notícias esperavam os ouvidos agora transformados em bolhas de pus? Não importaria mais se o tempo brilhava ou fazia chuva, agora que o humor aquoso de seus olhos, drenado pela indesejada das gentes, num dia que ninguém sabia precisar, não resistiria à conspiração zelosa de seus órgãos fatigados.

As horas foram se repetindo numa cronologia que desconhecia as razões e reações humanas, como se multiplicavam as preocupações dos que tentavam entender um homem sem notícias. Sua ausência plantando desconfiança e preocupação no coração dos mais próximos, confundia-se com o ar rarefeito daqueles dias sem graça, enquanto lá fora anônimos seguiam o ritmo frenético da vida, confiantes nas suas responsabilidades, indiferentes à imponderabilidade da sorte, sem outra alternativa, senão continuarem ensimesmados, devastados pela realidade que os tornavam submissos e imutáveis, esperando um dia depois do outro, o salário no fim do mês, o beijo burocrático da esposa, o abraço automático  dos filhos e as expressões solenes dos subalternos.

Quando o descobriram, já era uma massa disforme e miasmática e o domingo um dia triste e sem finalidade.  Do abismo de sua escuridão insondável e sem explicação, levaram-no sem homenagens nem missa de corpo presente para um mundo sem ênfase, pomar de bactérias.
(*) 1º lugar no Concurso Nacional de Literatura da Prefeitura de São Bernardo do Campo (2010)