Os programas da prova de Língua Portuguesa, para os Vestibulares, constantes dos editais, não só das Instituições Públicas, mas também de algumas faculdades particulares, periodicamente recomendam aos vestibulandos a leitura de determinadas obras literárias. O critério de escolha desses livros é desconhecido, embora se saiba que é discriminatório, porque contempla autores muitas vezes inexpressivos em relação a muitos excluídos. Se exigissem dos alunos alguns conhecimentos teóricos acerca dos estilos de época, das funções da Literatura, em especial da função estética e da arte literária em geral, talvez fosse mais sensata a cobrança de uma análise aplicada a qualquer texto, de autoria de qualquer autor. Até que isso aconteça, fato que nos parece improvável,  temos que conviver com outra realidade.

      Nos meses que antecedem aos exames de vestibular, os professores do Ensino Médio, pressionados pelos alunos que se inscrevem nas mais diversas faculdades, passam então a intercalar as aulas de Literatura com o estudo dessas obras. Dispondo de pouco tempo, as análises desses livros geralmente baseiam-se em resumos, até por exigência dos próprios alunos que resistem à leitura integral dos textos. É claro que muitos professores começam a reagir contra esse tipo de procedimento, fazendo um esforço para realizar a leitura completa de cada obra indicada. Todavia, ninguém ignora que nesse cenário emerge o consumidor voraz de resumos.

      Às vezes, de qualidade duvidosa, esse tipo de texto é posto ao alcance do interessado não só através da Internet, mas também de livros impressos com essa finalidade.  Isso tem concorrido para que  o vestibulando, aos poucos se desinteresse pelo estudo da Literatura, mesmo porque ele sabe de antemão que no vestibular predominam questões de gramática e de interpretação de textos, sem aprofundamento literário, diga-se de passagem, já em sintonia com os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio. De acordo com esse documento, "a literatura deve estar integrada às aulas de leitura, e a metodologia de ensino deve considerar o caráter sociointeracionista da linguagem verbal, tendo o texto como objeto de trabalho, considerado nos diversos gêneros que circulam em nossa sociedade." (1) Essa conduta tem gerado uma série de equívocos quanto aos objetivos dos PCNs, acentuando o descompasso entre as escolas de Ensino Médio e as comissões organizadoras dos exames de vestibular.

      A propósito, em artigo publicado no Jornal O Globo (RJ), edição de 1-12-2001, Affonso Romano de Sant'Anna, informado por professores, já alerta para o fato de que, nos PCNs, a Literatura não se inclui na Área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, "mas uma coisa geral chamada Arte." Acrescenta ainda o poeta ter tomado conhecimento de que "a disciplina Literatura foi cortada da grade curricular do Ensino Médio pela Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro". E conclui: "Isso faz parte de um pacote de reformas para o Ensino Médio, que estão pretendendo colocar em prática dentro de alguns anos." (2)  

      Isso tudo vem confirmar o evidente desprestígio da Literatura, em relação a outras disciplinas, sem falar que alguns alunos a consideram de menor importância para o vestibular, embora se saiba que, no atual modelo de educação brasileiro, é ainda o vestibular que justifica a presença da Literatura no Ensino Médio. Para Regina Zilberman: "o vestibular, de cujo programa invariavelmente a Literatura faz parte, converte-se no limite e na razão de ser de seu ensino". (3)  A autora acrescenta que é também o vestibular que determina a perspectiva com que a Literatura é estudada.

     Por essa razão é que os editais das universidades, quando se referem à Literatura, restringem-na a um conjunto de obras, prescrito pelas comissões que presidem esses exames.   
                                                                                                                               
                                                                                   NOTAS
(1) - DUARTE, Márcia Nunes (UFRJ) e WERNECK, Leonor (UFRJ) A Literatura e o ensino de leitura para o público juvenil. http://www.filologia.org.br , acessado em 26.5.2007.

(2) SANT'ANNA, Affonso Romano. Acabar com a Literatura?  - Caderno Prosa e verso de O Globo (RJ), 1-12-2001 in http://www.blocosonline.com.br , acessado em 26-5-2007.

(3) ZILBERMAN, Regina. Literatura no 2º grau: o impasse entre o ensino e demanda social in Ensino de Literatura no 2º grau. Cadernos ALB, Porto Alegre : Mercado Aberto, 1991, p.32. 


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