Cunha e Silva Filho

 

 

       Há um sem-número de explicações  para a sociedade ou parte da sociedade civil indignar-se nos tempos atuais, ainda mais   instrumentalizados que estamos com  recursos das várias mídias  que nos cercam  globalmente. Esse é, sem dúvida, um fenômeno  social diante  do que se ouve, se vê e se comenta,   sobretudo  de governos  e instituições que não estão atendendo  às massas em conjunto.

       Contudo,  concentremo-nos no  exemplo brasileiro dos últimos  anos, quer dizer, aproximadamente dos  governos da chamada era Collor até nosso dias. Todo esse longo período se caracteriza por manifestações, passeatas e protestos  contra  os sucessivos  governos federais, sobretudo.  

       Essa era dos “Fora” – palavra  de ordem  vista em cartazes não só no  Brasil mas em vários países do Ocidente,  do Oriente,  de vez em quando,  através  do clamor das suas populações, demonstra a insatisfação e  a   repulsa por  dirigentes  que não mais comungam com os interesses de vasta parte  da sociedade.

      O tempo da passividade dos povos está desaparecendo da vida planetária e os dirigentes das nações devem atentar para essa mudança que está a caminho à medida que a civilização  vai amadurecendo e tomando  consciência  dos  seus problemas e de sua cidadania. Mesmo em países não democráticos  algum dia  essa mudança  tenderá a  acontecer.

      Tenho  convicção  de que  os mecanismos   de repressão ainda estão muito  firmes  e prestes para  agirem, porém haverá tempo  para  mudanças. A liberdade dos povos é inegociável. Não há felicidade  sem  a liberdade  de expressão,  de ir e vir.  Por isso,  é indesejável    e revoltante  a censura de qualquer natureza, principalmente a censura contra todas as formas  de representação  artística.     

        A insubmissão, na maior das vezes,  sintetiza  uma situação geral, fruto   de arbitrariedades,  de autoritarismos  e  da percepção coletiva  de que  governantes   agem mal,  governam  mal  ou  submetem  o  povo   à aceitação  de suas desídias  e de seu  arbítrio. Tanto pode ocorrer em  países não democráticos como  em países  disfarçados de democracia  ou  mesmo democráticos, porém  praticantes de  ações   que desagradam  os direitos  dos povos. A força  das massas hoje é muito mais  atuante e coesa, a despeito das divergências   de tendências  ideológicas,  contra   atitudes  discricionárias  de mandatários.

       Em parte isso se deve às mudanças operadas nos meios de comunicação,  hoje  dominados pela era  digital,  pelos compartilhamentos   de usuários de redes sociais,  como  a o Facebook,twitter, o e-mail, o whatsAp, o utube,  e outras formas  de comunicação   instantânea, todas praticamente  interligadas. Ideologias e contraideologias se veiculam  em cifras de milhões de usuários dessas redes.   Por assim dizer,  o Facebook, hoje,  virou um verdadeiro  fórum  de  interlocução em vários níveis e segmentos  sociais,   e culturais.  Escritores,  pensadores,   intelectuais dele fazem uso  para  divulgar  seus trabalhos, suas obras,  suas ideias.  Se há  um lado  hedonista,  narcísico e muita  futilidades e exibicionismos  idiossincráticos,   esse canal  nacional e  internacional  de comunicação instantânea  tem  muitas vantagens e é um   incontestável  incentivador cultural.  O que é mais:  tem um  alto alcance democrático. Todo mundo nele  pode opinar,  mostrar  seus talentos,   suas produções  na ficção, na poesia,  no ensaio etc.,  ou ainda remeter  as pessoas  a outras espaços virtuais:  blogs,  sites,   vídeos etc.   O Facebook tem, assim, uma função social   de alta pertinência: agrega  pessoas,   aproxima-as entre si,  é interativo  e uma saudável  maneira  de melhorar  as relações afetivas. Os laços  de amizade. Se for  usado com  moderação, sem    se tornar  um vício e uma dependência, a sua finalidade possui mais  qualidades do que defeitos e é uma  grande ferramenta   no desenvolvimento  da habilidade escrita  do usuário. 

      Em consonância com  esses tempos planetários, eis um assunto  que perpassa   a vida cotidiana do brasileiro às voltas  com tantos escândalos provenientes de ações e comportamentos governamentais   indecorosos, imorais e  aéticos gerados no epicentro dos poderes  executivo, legislativo e até judiciário segundo podemos  confirmar  o fato pelas  críticas acirradas de diferentes  segmentos da população brasileira. É notório  ressaltar que  não podemos  tampouco   desconhecer   estar a nação  um tanto ainda  dividida ideologicamente sem que sinais de um entendimento  comum maior  sejam apontados no horizonte das incertezas  em que todos estamos    mergulhados.

      Por outro lado, não podemos  esconder  uma  constatação:  os opositores  extremados  do PT  não se deixaram  enganar  pelo atual  governo  Temer  em que pese  estar parte considerável da mídia,   escrita televisiva ou digital  anunciando   melhoras  para a economia que, segundo  a equipe do governo e o próprio  presidente da República, está nos trilhos  e em franca  expansão. O entanto,  essa é uma meia verdade porque não é  só a economia    que leva um governo  situação de melhoria.  De nada adiante ter-se um governo  com recurso   se  esse não é logo  canalizado  a reverter  os graves  problemas que  enfrenta em setores  de grande relevância à normalidade  de uma país: a saúde, a educação,  o transporte e, no nosso caso,  a segurança.  Não é apenas  economia supostamente  melhorada   fator determinante  a um governo   de bem-estar social. Vejamos adiante  que fatores são  determinantes  para uma país saudável  e feliz.

     Comecemos pelo próprio  fundamento   da estrutura  política  do Brasil fazendo algumas  indagações nada despiciendas: Como pode um  governo  sustentar-se à custa  de  ações do executivo  que  o desabonem moralmente, como   o escândalo  que ora  está acontecendo no seio  do legislativo  em consonância  com  o executivo? É digno de manter-se um presidente que  compra  partidos, melhor dizendo,  parlamentares,  com  emendas  vultosas,  cargos,  benefícios (o que é, ipso facto,    mais  uma manifestação  da corrupção e, por conseguinte, mais agravante  e perniciosa) a fim de ganhar/mercadejar despudoramente  votos  para  se manter  no  poder a todo o custo, votos que  livrariam  o  chefe  do executivo  das denúncias  de   corrupção  e escambos  de propinas, porquanto a passiva é uma  modalidade  de  propina. É lícito  que um presidente da República  mantenha, na cúpula de seu governo,  pessoas   investigadas  por corrupção?  É legal  que  o detentor do maior cargo da nação   concorde com   propostas  de  mudanças  na Previdência (sobretudo  na questão  do tempo de aposentadoria)  e nas leis trabalhistas  que  resultem  em  perdas de direitos   adquiridos  em longos anos de vigências de leis  de amparo  aos aposentados,  pensionistas e trabalhadores  em geral? É  honroso que um  presidente  faça  vista grossa  permitindo que  leis escravocratas  sejam  aprovadas  e provoquem  retrocessos   abomináveis, com repercussão negativa   em organismos   internacionais,   na área trabalhista,  mudanças estas  que, se aprovadas,   instituiriam no campo  o trabalho-escravo (!) em pleno século  XXI? Infelizmente,  essa escabrosas tentativa   de aprovação   dessa lei, dada a repercussão  negativa que teve, não vingou.

          E mais, tudo isso para  conseguir  votos suficientes    de  parlamentares   ruralistas    para  evitar  a  o afastamento e cassação de um presidente  com  quase nula aprovação  popular? O expediente, a meu ver, de  exonerar, ad hoc,  ministros aliados do governo  com o objetivo único  de aumentar  a lista de votantes  contra a denúncia que pesa sobre o presidente é, no mínimo,   imoral. Tais  atitudes  do governo federal, por si sós,  seriam  suficientes  a fim de que  ele tivesse o mesmo  destino  da Dilma, ainda mais  tendo em conta que  ele foi vice-presidente  dela, esteve com ela em campanha para a presidência,   fazia, portanto,  parte do governo petista e ainda por cima, pertence a um partido que, historicamente, não é flor que  se cheire, sendo, talvez, mais  repudiado do que o   próprio PT.

     O avanço  da economia de um país   só seria   oportuno e bem-vindo se fosse acompanhado  de reais   mudanças de condições  da vida  do povo. Um país rico não significa necessariamente um  país  com  igualdade  e justiça social,  com segurança  e  ausência de corrupção. Tampouco  um país rico significa  ausência de impunidade porque a riqueza  pode ser fruto  da impunidade e só vai servir  a minorias  privilegiadas. Isso pode ser visto  em países como os Estados Unidos,  onde há também  miséria, violência  e outros males sociais.

        A riqueza econômica,  se beneficiar só os milionários, não será  plenamente democrática nem faz um povo feliz.   É preciso que o todo  da estrutura  política   e das instituições  de  um governo, de sua máquina administrativa   sejam  efetivamente   abrangentes  e harmônicas  na distribuição    da riqueza nacional.  Isso não se concretiza  se há pequenos grupos   sociais  que detêm  essa riqueza. A riqueza   que se distribui  a  uma minoria  de milionários é causa também  da indignação,  da  violência e da pobreza.    

     Há um fator determinante  da felicidade de uma nação que é  inarredável   do salto  qualitativo  ao bem-estar  de um país: a educação. Assim se deu com  o Japão e com outros países que  investiram maciçamente  no ensino,  com  professores valorizados, com ensino de alta qualidade,  com  universidades públicas  funcionando  plenamente e com autonomia, com boas  escolas  públicas  do ensino fundamental e  médio. Em todos os níveis de ensino devem elas ser protegidas  pelo  governo  federal, para isso  prestigiando    muito o Ministério da Educação.

        Tais universidades públicas (federais ou estaduais, devem ser transformadas  em centros  de alta  produção do conhecimento  humano e com  elevado padrão  científico-tecnológico.  Ao lado da educação seguem-se   os cuidados   com  a saúde pública, o funcionamento dos hospitais com profissionais com da área médica ou paramédica  igualmente valorizados,  atualizados,  com um  quadro administrativo  competente, valorizado  e vocacionado  para  as suas  diversas   funções, com a segurança pública ( polícia militar, polícia civil, guarda municipal, corpo de bombeiros)  que tenha o respeito  da população e  seja remunerada   à altura das suas relevantes  funções  de proteger  a sociedade e, finalmente,  que  o país seja servido  por  um transporte  de massa eficiente,  atuante,   seguro, confortável  e digno  da aprovação  do cidadão   que dele  necessite  para  locomover-se de casa ao trabalho ou vice-versa. Seriam essas conquistas sociais utópicas? Não.  Tudo isso depende  do nível de  moralidade, competência e   vontade   de um  governante  comprometido  civicamente em servir  seu país  e seu  povo. 

      As múltiplas deficiências do Estado Brasileiro são responsáveis  por todas as nossas mazelas. Se os quadros políticos  não  se derem ao respeito, se não saírem  dessa  desordem   geral em que estão afundados, se não houver  uma mudança radical   em nosso sistema   de eleição   que venha impedir  a continuidade   dos velhos e abomináveis  hábitos  políticos,   do compadrio,   do nepotismo,   do corporativismo   execrável, do número  excessivo  de  parlamentares, da procura  da política  para benefício pessoal ou de grupos,  do  lobbysmo e de outras  podridões  infestando  o nosso sistema  político,  não daremos um  só passo  em direção a uma   nova  política  brasileira    voltada  para a sociedade  e sobretudo para os que mais sofrem com decisões  e ações  dos governos, os desassistidos do poder público: pobres, marginalizados,  analfabetos,  aposentados    e pensionistas   que recebem  minguados   vencimentos e passam a velhice   privados  de tudo.

      Se no país há ainda tantos privilegiados  pelo poder público,  há milhões que precisam  de mais justiça, saúde,   hospitais, mais transporte   e – por que não? – melhores proventos  de aposentadoria. Se considerarmos  o  nível dessa  população  desfavorecida,  não poderemos   afirmar  que  somos uma democracia.  Longe disso.