Lucilene Gomes Lima

 
Primeiramente, cabe destacar a contenção narrativa do romance que, divergindo das obras que o antecederam, não se derrama em descrições, nem se excede no preciosismo dos vocábulos ou no rebuscamento dos períodos. Essa contenção revela que o autor buscava inovar em sua narrativa, atestando sua filiação ao ideário modernista.[107] Márcio Souza, no comentário sucinto que fez sobre a obra, tratou-a como uma “verdadeira floração estranha no interior de uma ficção comportada”[108] e apontou a sua inconsistência pela inverossimilhança ideológica. Djalma Batista, no ensaio “Letras da Amazônia”,[109] publicado em 1938, já apontara o livro como inverossímil sem maiores comentários. Para Souza, a falta de verossimilhança consiste em personagens membros de uma classe abastada defenderem ideais contrários a essa classe. Nessa observação, o autor talvez não leve em conta que não é totalmente improvável um membro de uma classe abastada se indignar com as injustiças sociais promovidas por essa classe. Acreditamos que a inverossimilhança em Terra de ninguém resida mais justamente em outro ponto. O de o autor tentar produzir um romance de tese sem o devido adensamento. Buscando veicular idéias feministas e socialistas através de suas personagens, o romance soçobra por carência de desenvolvimento da matéria romanesca e de consistência das personagens. Nadesca, uma das protagonistas, é incoerente não por ser membro de uma classe abastada e ter ideais de justiça social, mas porque se mantém usufruindo das benesses que o pai lhe oferece praticamente sem conflito até o final do romance, quando enfim assume uma atitude de revolta. Até então, ela que propala idéias socialistas, se comporta como uma turista passeando pelo mundo do seringal, notando seus problemas sem se envolver. Manifesta querer conhecer a forma simples de vida dos seringueiros, suas dificuldades, mantendo-se na posição de abastança. Não há, no romance, verdadeiro conflito de Nadesca que a revele como uma personagem complexa. Feitas essas considerações, não se pode negar ao romance de Galvão a tentativa inusitada de trazer a mulher para a cena central da narrativa do seringal na qual ela sempre figura como um objeto de disputa parcamente delineado. Terra de ninguém, sendo um romance publicado entre as décadas de 1930 e 1940, traz a marca do idealismo revolucionário de um período da história brasileira.[110]  O subtítulo do romance – romance social do Amazonas – e o seu conteúdo que inclui o desfecho com uma revolta dos seringueiros, levaram à consideração de que ele seria pioneiro na criação de uma prosa amazonense de cunho social. Consideração que não é de fato justa, se se levar em conta que em Inferno verde, obra de Alberto Rangel publicada em 1908, a temática social já é tratada no conto “Obstinação” que enfoca a revolta interiorizada de uma personagem caboclo o qual pratica o suicídio enterrando-se vivo na terra que lhe é tomada por um latifundiário, descrito como um apuiseiro social.[111]
A utopia de fundar uma sociedade mais justa alimentada nas décadas de 1930 e 1940 sob o influxo das idéias socialistas aparece delineada em Terra de ninguém e em outras obras do período. Amazônia que ninguém sabe, romance[112] de Abguar Bastos publicado em 1932 e depois rebatizado na segunda edição, em 1934, de Terra de Icamiaba projeta na personagem Bepe um herói socialista amazônico. Bepe sintetiza a busca de um líder nacional autêntico. A criação de uma nova arte nacional através do repúdio à velha arte da cópia do modelo europeu que Francisco Galvão propõe, no “Manifesto da beleza”, é igualmente encampada por Bastos em passagem que a narrativa de Terra de Icamiaba dá lugar ao manifesto[113]. Apesar das afinidades nas concepções estéticas entre Abguar Bastos e Francisco Galvão e de suas obras terem sido escritas em períodos próximos, assemelhando-se até no paralelismo dos títulos, o primeiro escreve uma obra diversa da temática usual da borracha. Ainda que o narrador profira críticas diretas às falhas do sistema extrativista da borracha: “O leite da seringueira, brilhante e pastoso, foi apenas um relâmpago de grandeza. Ceilão fez concorrência e matou a fortuna dos seringais”[114] não se detém na pintura do seringal, de seus tipos e de seus conflitos. Diferentemente de outras obras,  esta não realiza a estrutura convencional do romance realista, sua construção aproxima-se do discurso poético. Sem um desenvolvimento preciso de enredo, atrai mais pelas imagens do que por uma trama.[115]