[Gilberto de Abreu Sodré Carvalho] – Estranho que possa ser, a mim mesmo e ao leitor, a mentira, ou a fuga da realidade crua e simples, é coisa boa e explica muito da riqueza da vida humana em sociedade.
 Tendo em mãos o livro “A Saga do Mentiroso – Uma História da Falsidade”, por Jeremy Campbell, Rio de Janeiro: Graphia, 2008, começo por dizer que o expediente de falsear é, em maior ou menor medida, comum à cada espécie animal frente às demais espécies. Ou seja, para sobreviver ou para garantir a futura prole, os bichos, pequenos ou grandes, engodam os seus predadores e os que disputam os mesmos recursos de subsistência. Falo agora dos seres humanos.
 Nós nos enganamos a nós mesmos. Entre os humanos, na nossa evolução civilizatória cada vez mais complexa, a mentira é o motor da vida e da sobrevida, é a garantidora do progresso econômico, científico e tecnológico, além de manter atuantes, ou seja, empregados, alguns bilhões de homens e mulheres. Além disso, sem a enganação não haveria a cortesia, por via da mentira social, que os ingleses chamam de “white lie”. Não existiria a literatura de ficção, o teatro, a poesia, a pintura, a escultura, a arquitetura monumental, a música e a contação de “causos”. Não haveria o “amor romântico”, que começa na Idade Média europeia e faz a mulher virar a entidade feminina, ou seja, torna-se a amada. 
 Por que é assim? - pensei.  
 Porque sem a sensação, prévia e inventada, de poder-se cumprir uma meta muito difícil, não se correria atrás do seu atingimento; porque o empreendedor corajoso, de maneira a mais motivar-se, mente para si sobre a certeza do futuro sucesso do seu empreendimento; porque novos produtos e serviços surgem da criatividade e da consequente inovação, o que depende de o criador e o inovador fingirem-se de insatisfeitos com o que existe; porque a venda de produtos e serviços depende de fazer-se crer, pela publicidade, que eles devam ser comprados e experimentados. Porque sem arte, no seu sentido amplo, a vida seria triste e enfadonha. Precisamos fazê-la, a vida, diversificada, contrastante, coloridíssima, notável e surpreendente. A beleza está na interpretação humana e não na crueza estéril do que simplesmente exista.   
 Por certo, existe a mentira ruim. Mas isso é outro tema, que fica para outro dia, outro espaço, eu não sendo o cronista.