Verdade é mentira que não fala a mesma língua do pensamento.

Mia Couto (Estórias Abensonhadas)

 “Mentir é coisa feia. É pecado. Papai do céu não gosta”, dizia a mãe.

No entanto, a avó uma vez havia explicado que certas mentiras não eram ditas para fazer mal. Ao contrário. “Ajudavam o bem a triunfar! ” – exatamente como nos contos de fada. Portanto, segundo ela, eram aceitas e quase sempre perdoadas. Era preciso apenas ter muito cuidado para que essas mentiras não se transformassem em “mentiras feias”, pois essas, com certeza, “papai do céu” não perdoaria.

Essa foi a primeira vez que a menina se deparou com uma das várias contradições dos adultos, em uma época que ela ainda nem mesmo sabia o significado da palavra “contradição”. No entanto, sendo esperta, logo compreendeu que, no mundo dos “mais velhos”, havia coisas que, simplesmente, deviam ser aceitas, sem tentar entendê-las. Mentir era apenas uma delas.

A partir dessa aceitação das “coisas dos adultos”, a menina passou a silenciar e, na impossibilidade de permanecer em silêncio, a mentir sobre tudo que considerasse importante para a sua vida ou a vida daqueles que amava.  Sempre atenta aos olhares intensos da mãe, aprendeu muito rápido a interpretar os sinais sutis que ela enviava. Criou-se entre elas um canal de comunicação de fazer inveja a qualquer serviço de inteligência. E, na maioria das vezes, a mensagem transmitida era invariavelmente a mesma: “Fique quieta e tudo vai ficar bem”.

Assim, quando flagrava a mãe retirando escondida, dinheiro da carteira do pai, para comprar um par de sapatos ou uma roupa nova, fingia nada ver. Se o pai perguntava sobre a carteira ou o dinheiro, ela, com ar inocente, respondia sem pestanejar, “Não sei pai, não vi nada!”. E se encolhida quando percebia o olhar de fúria em seus olhos.

O problema era que para cada nova mentira, uma nova história precisava ser inventada. Gerando um ciclo angustiante e sem fim. A menina instintivamente entendia por que a mãe se comportava dessa maneira, mas sempre acabava se perguntando se não seria mais fácil dizer a verdade, não precisar mais mentir. E se afligia ao pensar no “papai do céu”. O que Ele faria se descobrisse todas as mentiras que ela era obrigada a contar. O medo tornou-se o companheiro de todas as horas, transformando seus dias de criança numa tortura difícil de lidar.

No entanto, o olhar preocupado da mãe, alertando-a para o perigo, fazia com que ela permanecesse calada. Nessas ocasiões, lembrava da avó, apegando-se a ideia de que suas mentiras seriam perdoadas. “Papai do Céu vai compreender. Papai do Céu vai perdoar”, ela dizia a si mesma.

Uma noite, quando a confusão e a dúvida a estavam deixando inquieta e mais ansiosa do que o normal, a menina, tomando coragem, perguntou:

“Mãe? Quando crescer será que vou ter de mentir?”

A mãe ficou em silêncio, pensando no que deveria responder. Depois, respirando fundo, disse:

“Se for necessário, sim”.

“E os meus filhos?”, quis saber a menina.

“O que têm os teus filhos?”, perguntou, confusa, a mãe.

“Vou ter de ensiná-los a mentir?”

A mãe ficou muito quieta. A menina a olhava com expectativa esperando uma resposta. Há tanto tempo convivia com a necessidade da mentira que não percebera o tamanho do sofrimento da filha. A tristeza estampada no rosto da menina era imensa, algo que havia sistematicamente ignorado para não sentir o peso da culpa que agora caia sobre ela.

Quando finalmente reuniu coragem para responder, a mãe não teve dúvidas e olhando firme nos olhos da filha disse:

“Não, querida. Você não vai precisar ensiná-los a mentir, porque você será feliz”.