Você me retaglou com uma generosa apreciação do meu livrinho, com uma mirada verdadeiramente sutil e poética, particularidade de quem nada de braçadas pelo mundo da palavra, com sentimento  e percepção literárias abstraídos de qualquer vezo daquele ultrapassado hermetismo que tanto viciam as teses e os ensaios. Aprecio muito a carga onírica e riqueza metafórica dos que escrevem sobre livros com essa dimensão que não prescinde do humano e existencial. E você toca naquilo que é sempre essencial profiundo,  e essa dimensão existencialista que ocorre aos bons autores (e consequentemente bons leitores) como você, dizem mais que teorias e rotulações de estilos e gêneros. A literatura, hoje em dia, se ressente de uma visão mais detida no ser. Em você, percebo essa captura do que está por trás do texto, do autor e de sua realidade.
 
Creio que nós realmente fazemos parte de um universo mínimo, essa pátria escura e impenetrável para muitos que vivem  nesse tempo de cosificação e etiqueta, em que meu caso há 28n anjos),  desprezem esse mundo que tanto nos toca e é motivo para nossa incursão literária.
 
Por isso, nossa insularidade; por isso, nosso jeito de andar meio de lado (como falava Drummond), porque não encontramos ressonância, não há diálogo possível com aqueles que vislumbram apenas as demandas e os fetiches do deus-mercado e as horrorosas seduções do mundo globalizado, onde não há espaço para a literatura. Assim, vejo nas suas palavras, tanto quanto uma compreensão da minha atmosfera criativa, como uma homenagem (que não mereço, mas me eleva, elevando também o nivel da minha responsabilidade),  o que me deixa muito feliz, porque sei que não estou sozinho nesse quixotesco percurso da grande oficina diária que a palavra nos proporciona.
 
Algo de Kafka me chamou a atenção desde adolescente, quando comecei a lê-lo. De uma de suas cartas, eu anotei e nunca mais esqueci : ''Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um punho que martela nosso crânio, para que lê-lo?'' Necessários, diz ele, são ''os livros que se abatem sobre nós como a desgraça, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos''. Sempre que leio um livro, tento antever essa perspectiva. E mais, tempos depois, dele li algo que passou a ser um lema para mim: "A literatura é sempre uma expedição à verdade. " Tento não perder essa perpectiva e noto em seu texto também uma fidelidade a esse princípios. Literatura não apenas como figuração ou de leite, mas compromisso ético e estético acima de tudo, doa o que doer, a quem doer.
 
Compartilho com meus amigos da literatura o seu belo texto, a sua amizade, a sua afetividade e seu talento traduzidos no espaço do portal Entre Textos, que vou recomendar a tantos quanto são os que fazem da literatura seu pulmão, farol e chão. Como nós.

Ronaldo Cagiano - poeta, contista e crítico literário.