Tinha cerca de sete anos de idade. Gostava de passar férias de janeiro
e julho em Fortaleza, por dois motivos: primeiro, porque foi onde
nasci, o ambiente me trazia alegria; segundo, porque lá brincava o dia
todo com os filhos de meu tio José Iran, primos Marlus e Marusca.
Marusca era dentuça, e a gente vivia caçoando dela por isso. Marlus
era gordinho, ficava muito feliz quando minha mãe de viagem sempre
parava na cidade de Tianguá e comprava uma lata de doce de leite para
lhe presentear. Comia toda num só dia, escondido é claro, não dava
nada para sua irmã, para mim mesmo ou para meu irmão Jomali.
Certa manhã, em um domingo de muito sol, todos alegres, esperando ir à
casa de praia de tio Joaquim Filho. Eu, meu irmão Jomali e meu primo
Marlus jogávamos bola na garagem da casa de minha avó. Marusca, com
febre, temia que seus pais não lhe deixassem ir, só olhava a gente
jogar bola, quando, então, aparece um pássaro preto, maior que os
outros que costumavam sobrevoar o local - um anum - parou encima do
muro da casa, e ficou observando a gente, como que a dizer algo. Meu
irmão, com 11 anos de idade, já conhecedor da mítica que rodeia o
ambiente do interior, acostumado ir à fazenda com meu pai, alertou.
- Um anum, é sinal que vai acontecer alguma coisa ruim hoje.
- Será mesmo - disse eu - preocupado.
- Com certeza - completou meu primo Marlus, sempre procurando puxar o
saco de meu irmão, o mais velho do grupo.
Minha prima Marusca, de dez anos de idade, atenta, observando tudo, calada.
Passado alguns minutos não deu outra. Todos já prontos para a viagem,
chega tia Socorrinha, mãe de Marusca, e embala:
- Não vou mais, vou ficar com Marusquinha, ela tá com febre, não pode
pegar sol, merece cuidado.
- Ah não mãe, eu tô boa, eu quero ir também - disse minha prima
Marusca, desolada, já começando a chorar.
- Você não vai, se for, vai piorar. Fico com você - sentenciou a mãe.
- Eu sabia... foi o diabo desse anum, ele só traz azar.
E meu irmão, querendo ficar por cima, completou:
- É verdade, quando o anum aparece pode se preparar...




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*Joseli Magalhães é membro da UBE-PI, professor de direito da
UFPI-UESPI e doutorando em direito processual civil pela PUC-MG.