Por Mário Perini

Nas aulas de gramática, decoramos resultados, sem cogitar do método que levou à obtenção desses resultados. A aula de gramática não comporta perguntas embaraçosas, referentes a comos e porquês que não constam do livro adotado. O professor nunca precisa justificar a análise que ensina, tem apenas que reproduzi-la tal como a encontrou na bibliografia.
Nas aulas de gramática, não se aprende gramática, não se estuda gramática. Alunos (e os professores, que também são vítimas do sistema) não sabem gramática, não se interessam por gramática, detestam a gramática.
O estudo de gramática, tal como praticado atualmente, contribui para a analfabetização científica dos estudantes: por fornecer resultados sem focalizar os métodos de obtê-los; por, muitas vezes, lidar com dados fictícios (como quando se diz que a frase me dá ele aí “não existe”); por desencorajar a dúvida e o questionamento; por encorajar a crença acrítica em doutrinas aprendidas, mas não justificadas.
Diante desse cenário, detectamos a necessidade urgente de gramáticas atualizadas em todos os níveis.
A Gramática do português brasileiro, de Mário A. Perini, é a primeira gramática do português brasileiro a ser publicada no Brasil – e a segunda no mundo, depois de outra obra também de autoria de Perini, Modern Portuguese – A Reference Grammar, publicada em 2002 pela Yale University Press. Em Gramática do português brasileiro, Perini elabora uma descrição em nível universitário do português falado no Brasil destinada a alunos e professores de letras, assim como a professores de línguas de todos os níveis. Em breve, esperamos, estarão disponíveis textos e exercícios que sigam a perspectiva aqui adotada, destinados aos alunos de ensino médio e fundamental i e ii, dentro dos objetivos que se aplicam ao ensino de gramática nesses níveis.
A Gramática do português brasileiro está adaptada aos interesses e necessidades do leitor brasileiro e assume uma atitude inovadora quando comparada com os estudos gramaticais tradicionais. A ênfase aqui está posta na sintaxe e na semântica da oração, porque essas são áreas particularmente carentes no momento, além de serem aquelas em que o autor vem trabalhando intensivamente. Mas também são estudadas duas outras áreas importantes: a morfologia e a fonologia.
É perfeitamente possível elaborar uma gramática da língua falada — e essa gramática é tão rica e complexa, e tão interessante, quanto a da língua padrão. Em vez de eliminar pura e simplesmente o estudo de gramática na escola, é preciso redefini- la em termos de formação científica. Só assim essa disciplina — parte essencial do estudo da linguagem, o mais importante dos fenômenos sociais — poderá dar sua contribuição à alfabetização científica nossa e de nossos alunos.
Parece muita coisa a fazer, e é; parece difícil, e é; e talvez fique caro. Mas não se faz educação com soluções fáceis e baratas.
O AUTOR
Mário Alberto Perini é graduado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (1967), fez o doutorado na University of Texas (1974). Atualmente é professor voluntário da Universidade Federal de Minas Gerais, tendo sido professor na UFMG, na PUC-Minas, na UNICAMP e nas universidades de Illinois e Mississípi. Atua na subárea de teoria e análise linguística, com concentração em português brasileiro falado, sintaxe, ensino de português e gramática de construções. Além destes Estudos de gramática descritiva — as valências verbais, é autor, na Parábola Editorial, das seguintes obras: A língua do Brasil amanhã e outros mistérios (20083), Princípios de linguística descritiva (20072) e Estudos de gramática descritiva (2008).
 
Serviço:
Mário A. Perini, Gramática do português brasileiro. São Paulo: Parábola
Editorial, 2010.
isbn: 978-85-7934-004-8
formato: 17x24cm
capa flexível
páginas: 368
preço: R$50,00
informações: Andréia Custódio - fone: [