O editor de Entretextos, Dílson Lages Monteiro, foi um dos convidados a participar da edição de revista literária editada pela jornalista Andreia Rocha, como trabalho final de curso. Autor de 10 obras, entre livros de poemas, prosa e didáticos, o escritor falou sobre literatura e linguagens na escola.

 Andrea Rocha - Professor,  a adoção de obras como leitura obrigatória para o vestibular é vista com bons olhos pelo senhor?

Dílson Lages – Infelizmente, embora a tendência seja de que elas desapareçam no novo modelo de ingresso ao ensino superior já em vigência, a existência dessas listas de obras literárias é obrigatória, no duplo sentido. Digo infelizmente porque elas forçam um contato do aluno com o texto literário, embora não seja esse o caminho mais pertinente. Uma história de leitura não vai surgir por conta da leitura de obras em ano de vestibular – ela é a história de uma vida toda, de leituras contínuas, de descobertas sobre as particularidades do discurso literário, acessíveis a quem de fato lê literatura. Entretanto alguém, mesmo que forçado, pode acordar para a dimensão humana e estética da linguagem literária. Se o aluno não se limitou a ler meramente resumos, quem sabe não brote desse contato o despertar de um leitor proficiente? Embora as listas de obras obrigatórias não sejam um eficiente meio de despertar o gosto pela leitura, contribuem para criar uma nova consciência. E isso já é algum motivo para comemorar.

O senhor escreveu alguns livros de poesia. Qual o lugar que ela ocupa na vida do aluno e na escola?

Dílson – historicamente, o poema é um gênero desprestigiado, porque em torno dele construíram uma série de estigmas. O poema seria um gênero ora visto como difícil, hermético, oras como simples expressão de meros sentimentos. Aliás, os estigmas também se construíram sobre a figura do poeta. Às vezes, visto como ocioso ou boêmio, outras, até mesmo como um sujeito afeminado. Esses estigmas são fortalecidos pelo desprestígio desse gênero também na escola, onde ele deveria ter lugar de destaque e onde figura pouco ou figura de modo equivocado, porque o estudo dele  ocorre quase sempre para vasculhar a dimensão estrutural do texto, observando-se características de escola literária, ou para especulações de natureza temática, num tratamento equivocado, que não contribui para se chegar à dimensão filosófico-estética e existencial que o poema deve criar.

Costumo pedir sempre aos alunos que leiam poemas, porque o leitor de poemas é um leitor de percepção apurada. É um leitor que intuitivamente aprende a lidar com a dimensão polissêmica da linguagem e, por essa razão, principalmente – considerando que a leitura do poema amplia o vocabulário ao obrigar o aluno a ver a dimensão subjetiva da linguagem e as múltiplos sentidos que uma palavra é capaz de gerar.

 

Há algum segredo especial para escrever bem, professor?

Vou responder citando o psicolinguista Frank Smith. Ele ensina que aprendemos a escrever observando os recursos de expressão. É claro que alguém pode aprender intuitivamente – lendo, escrevendo, reescrevendo sem o contato com vasta teoria sobre linguagem. Mas esse alguém demorará bem mais do que outro que teve a oportunidade de compreender e exercitar como se constrói o sentido do texto de forma orientada. O “segredo” é este: É ler, escreve e reescrever, observando os recursos de expressão.

Há algum método especial que o senhor usa para os alunos criarem um estilo próprio?

Dílson – Criar um estilo é uma preocupação permanente minha, porque o aluno só se reconhece de fato como autor, quando consegue enxergar que o processo de seleção e avaliação dos constituintes do texto é fruto de um trabalho autônomo dele. Para isso, como professor uso várias contribuições da análise do discurso, da semântica e da lingüística textual, como suporte para que a autoria seja fator determinante dos textos. Há, aliás, hoje, farta bibliografia sobre isso. E consiste apenas em livros de estilística, não.  Velhos e novos  autores podem dar sua contribuição. Entre aqueles, cito particularmente Antonio Abalat e o seu A arte de escrever em vinte lições, que li a partir de comentários de Rogel Samuel e Afonso Romano de Sant’anna; entre os novos, Gabriel Perissé e seu A arte da palavra (Ed. Manole), por exemplo. A lista é gigantesca e a ela não devem faltar livros sobre coesão textual e estudos que focalizem a sintaxe numa dimensão discursiva.

É possível ensinar a escrever poesia, professor?

È possível ensinar técnica de poesia, isso é possível. Ensinar como se criam metáforas e metonímias, como ocorre o ritmo no poema, como se cria o humor, a intertextualidade, etc. Mas ensinar a ser poeta isso é o destino quem faz.