Por Maria José Limeira

 

Amélia Pinto Pais, escritora. Alegre ou triste?Tranquila ou arrebatada? Aberta, generosa,misteriosa? Quem poderá explicá-la, a não ser ela mesma, nesta belíssima Entrevista que se dignou nos conceder, numa tarde de domingo?
"Sou uma pessoinha, de 1,45m de altura: o que poderá haver de misterioso em mim? - diz Amélia,na humildade que lhe é peculiar, lançando mão de um dos escritores de sua preferência (Fernando Pessoa/Alberto Caieiro), para se explicar: "Eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura".
Nascida em 1943, originária de uma aldeia na Beira Alta, Portugal, residente em Leiria, Professora do Ensino Secundário, nas cadeiras de Francês, Português e Literatura Portuguesa, Amélia não gosta de comentar o passado.
Por isso, não está nos seus planos escrever Memórias, nem mesmo quando se trata de falar sobre a atividade de Educadora, que abraçou, por profissão e vocação.
Ensaísta de primeira linha e poeta de vez em quando, apaixonou-se por Camões aos 14 anos de idade, ao conhecer "Os Lusíadas".
Circulam em Portugal vários estudos de sua autoria sobre esse autor.
É autora, ainda, de ensaios abordando obras de Gil Vicente e Fernando Pessoa.
Apesar de se definir como "pessoinha" que gosta de "tecer afetos", Amélia revela-se, ao contrário, uma alma grande e generosa, com admirável capacidade de sonho e entusiasmo,qualidades que considera essenciais no serhumano.
Escritora arisca, tímida por natureza, e discreta por escolha, Amélia não é uma pessoa que se entrega no primeiro momento.
É preciso buscá-la nas profundezas onde se esconde por inteiro, para trazê-la à luz do nosso fraco entender.
Nessa procura, encontramos a essência do seu pensamento, em clarões que espocam a todo momento, no decorrer da Entrevista:

"Eu não sei o que é isso de ser feliz ou de felicidade... Mas sei o que é viver contente".
"Não é fácil ser Professor em tempo de Ditadura".
"Educar, para mim, é troca de afetos".
"Continuamos basicamente a chorar e a rir das mesmas coisas que os homens das cavernas".
"Todas as perdas são tristezas".
"Não sou muito de contar. Sou mais dada a reflectir."
Conhecer um pouco de Amélia Pinto Pais é mergulhar no mundo maravilhoso de Camões,Fernando Pessoa, e de todos os grandes
poetas-pensadores dos quais é admiradora...



1. Amélia Pinto Pais: quem é você?

R: Foi irresistível a tentação de responder com um «Quem me dirá quem sou?», repetindo, assim, a interrogação existencial de Fernando Pessoa...Bom, quem sou eu? Difícil, não é? Sou uma pessoa normal, vulgar, que gosta de tecer afectos e de muitas outras coisas que dão sentido à vida.

2. Já tentou olhar-se de longe, como outra pessoa a olharia? Gostou do que viu? Ou não?

R: Gosto mais de me sentir através do olhar daqueles que estimo...tenho tido a sorte de encontrar bons amigos que gostam do que vêem em mim...

3. Não gosta de dar entrevistas a jornalistas. Porquê?

R: Não é bem verdade. Nunca recusei ser entrevistada. Só que não acontece com muita frequência – isso é normal, não? Afinal há tanta gente colunável para entrevistar...

4. O que mais admira nas pessoas?

R: A honestidade e a humildade. E a capacidade de sonho e entusiasmo. E, talvez acima de tudo o resto, a bondade e generosidade.

5. O que mais detesta nelas?

R: A hipocrisia, a petulância, o autoritarismo...

6. Se fosse definir qual a sua maior tristeza, que história contaria?

R :Não gosto muito de contar tristezas – mas sem dúvida todas as perdas, aos diversos níveis, sobretudo as irreversíveis.

7. E, já que falamos de tristeza, por que não recordar alegrias? Conte-nos da sua maior alegria...

R: A nível cívico: o 25 de abril de 1974

A nível pessoal: o nascimento do meu sobrinho único e a boa recepção aos meus livros.

8. Você parece uma pessoa muito exigente consigo mesma. O que lhe falta para ser feliz?

R: Eu não sei o que é isso de ser feliz ou de felicidade...mas sei o que é viver contente. E eu procuro ir acumulando momentos contentes. Procuro valorizar o que vou conseguindo e não pensar no não conseguido. E tenho muitas coisas que me tornam grata à vida («Gracias a la vida/ que me ha dado tanto...») – saúde razoável, dinheiro que vai chegando para o essencial e alguns acessórios, um trabalho no qual me senti realizada; e, sobretudo, a grande sorte de ter encontrado e encontrar sempre gente que me quer bem e a quem quero bem. Tudo o resto, realmente, não passa de acessório, de secundário...de pequenos contratempos, afinal. Já reparou que grande parte das pessoas não distingue entre o essencial e o acessório? E isso é causa de infelicidades várias...

9. Profissionalmente, você passou quase uma vida inteira em sala de aula, ajudando a formar gerações. Valeu a pena? Porquê?

R: Eu acho que não poderia ter feito outro trabalho na vida. Ser professor foi, ao longo de 36 anos, – tem sido – um trabalho criador e de ajuda ao crescimento. Portanto, valeu – vale sempre a pena. Como trabalho, nem tanto como emprego...Fiz aquilo de que gostei e ainda por cima fui paga para fazê-lo. Repare: - se se pensasse sempre deste modo, se calhar vivíamos mais contentes todos.

10. Como Educadora, você atravessou tempos difíceis, pois depois da Imprensa, foi nas salas de aula que a Ditadura Salazar mais exerceu sua tirania. Como conseguiu atravessar esse tempo sem se contaminar?

R: Não era fácil ser professor em tempo de ditadura. Mas era possível . Devo a um professor que tive, aí pelos meus 14 anos, a abertura à compreensão do que me rodeava. Como professora (ensinei ainda 8 anos em regime fascista), tive de ter a habilidade de falar das coisas sem as nomear, de modo claro, mas não evidente. Os textos literários ajudaram bastante a abrir perspectivas, incluindo os clássicos –por exemplo, Gil Vicente, que fazia dizer ao Anjo «Não se embarca tirania / neste batel divinal» ou, na fala do lavrador, «Nós somos vida das gentes/ e morte de nossas vidas», ou Camões e a sua denúncia do «desconcerto do mundo», ou António Vieira, defendendo os índios e recusando a guerra, como monstro, tempestade, calamidade das calamidades. E denunciando a universal antropofagia em que, como os peixes, os homens se comem uns aos outros e, mais grave ainda, os grandes comem os pequenos , tornando-se estes «o pão quotidiano dos grandes»...Isto só para falar dos clássicos...

11. Nunca pensou em escrever Memórias? 

R: Não gosto muito de regressos ao passado. Costumo dizer que não tenho grandes saudades de infância, adolescência...tenho, sim, saudades de pessoas, inclusive, por vezes, de outros «mins»... E eu fui sempre uma pessoa, com algumas qualidades e defeitos, mas sem grande importância. Importantes foram ,sim, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, João XXIII, Nelson Mandela, penso que, também Xanana Gusmão.., os santos do século XX, afinal. Ou os grandes poetas, escritores, artistas que ajudaram a tornar-nos os dias mais contentes. E os cientistas que tornaram a nossa vida mais viável...

12. Se fosse escrever suas Memórias, que fatos citaria como marcantes em sua vida de Escritora, Educadora e Cidadã?

R: Decididamente não irei escrever Memórias...

13. Você participou das mudanças que a Educação sofreu, a partir dos anos 60, quando o Professor deixou de ser uma figura autoritária e desceu do púlpito para entender melhor o que se passava com os alunos, misturando-se com eles, para explicar o que havia ao redor... Acha que essas mudanças trouxeram benefícios à Humanidade? Ou, a partir dali, tudo se complicou?

R: As mudanças em Portugal foram mais tardias – verdadeiramente só a partir de 1974...Mas eu nunca fui esse tipo de professor autoritário e distante. Educar é para mim troca de afectos, discurso amoroso, tal como é entendido por Barthes, obra que implica entusiasmo – deus em nós – mais do que transmissão de saberes. Ou por outra, só se transmite saberes se se for capaz dessa empatia que eu chamo troca de afectos...

Creio que esse é o modo correcto de se estar ou ser professor. Outra coisa foram mudanças facilitistas que prejudicaram sobretudo o correcto relacionamento na aula e, assim sendo, as aprendizagens. Nem sempre se conseguiu estabelecer a diferença entre ser autoritário e ter autoridade...Mas isso era conversa longa...

14. Poderia nos contar algum fato inusitado que lhe aconteceu em sala de aula, na convivência com os jovens?

R: Fui feliz sempre que senti que os meus alunos ficavam melhores, como pessoas, e com um olhar mais atento à compreensão do mundo que os rodeava.. Mas, claro, que, como costumava dizer-lhes, gostaria que, depois de se cruzarem comigo na vida, ficassem melhores como pessoas e cidadãos e, de preferência e simultaneamente, mais sábios...seria então oiro sobre azul. Ficava infeliz quando esta mensagem não passava ou os meus alunos achavam que era algo «careta»...ou «papo de padre».Mas tive quase sempre grandes alegrias no meu trabalho. Creio que os meus alunos sempre sentiram que eu os estimava e que, no geral, eles me retribuíam. E estima significou antes de mais, respeito pelos seus ritmos de crescimento próprios, sem invasão da sua privacidade, nem paternalismos ...

15. A profissão de Educadora reserva algumas surpresas. Você foi pega de surpresa, alguma vez?

R: Não estou muito com vontade para contar – mais para reflectir... desculpe, não é fugir às questões, é que, como lhe disse, não tenho propensão para memórias...

16. O mundo é mais feliz hoje do que antigamente? Porquê?

R:Não acho que seja mais feliz do que dantes Enquanto virmos, ouvirmos e lermos será preciso ser-se inconsciente para estarmos contentes com o mundo que nos rodeia. É que, se os progressos foram grandes aos diversos níveis, nomeadamente os científicos e tecnológicos, a nível do ser não se avançou muito. Continuamos basicamente a chorar e a rir das mesmas coisas que os homens das cavernas, possivelmente. Amamos, odiamos como sempre fizemos. Também por isso lemos poemas de amor bem antigos e gostamos deles...Porque, mesmo antigos, eles nos tocam...

Agora houve factores de progresso reais: - a noção de direitos do homem, (mesmo se eles continuam a ser desrespeitados um pouco por todo o lado), a noção de Igualdade – Liberdade - Fraternidade...Neste momento, quando desrespeitados os direitos do homem, o desrespeito tem de ser disfarçado, porque há mecanismos de controle e de censura ética diversos...e é mais difícil ser-se ditador quando se torna impossível controlar a informação. E, nesse aspecto, as novas tecnologias ajudaram bastante.Lembra-se das campanhas mediáticas e de envios de fax e mails aquando do massacre de Tienanmen ou dos massacres em Timor Lorosae ? É agora mais difícil ignorar as barbaridades que se cometem...a opinião pública tornou-se uma força importantíssima e muitas vezes bem actuante...E, apesar da obstrução dos patrões do mundo, os USA,(não confundo USA com ‘americanos’) acredito que foi um avanço a criação do TPI...

17. Você é uma grande ensaísta, como escritora. Tentou, alguma vez, fazer poesia? Poderia recitar agora um Poema curto dos seus?

R: Só fui poeta há muitos anos (ou seja, poeta sazonal...) – e desse tempo guardo cerca de 20 poemas que intitulei Intervalos do Sentir. Têm sido publicados na net, nomeadamente na lista Poesia Eternamente...Não me levo muito a sério como poeta. Então é preferível dizer: estive poeta em vez de fui (e muito menos sou) poeta. Não posso recitar, porque não posso pôr som no meu PC, mas para lhe agradar, transcrevo um deles, justamente o mais antigo (1968 ?)

Vi

No fundo do mar

Algas salgadas

Grandes

e tristes.



Dói

Saber

Que há algas

Grandes e tristes

Dentro do mar.

18. Você apaixonou-se, literalmente, por Camões, tanto que escreveu vários livros sobre ele. O que tem esse autor, que tanto lhe atrai?

R:Só se escreve, creio, sobre o que nos apaixona...e aquilo que podemos chamar de paixão por Camões deveu-se a um primeiro contacto feliz com Os Lusíadas, graças à leitura feita por um antigo professor, tinha eu 14 anos. Daí para a frente, foi a descoberta da sua poesia lírica e as sucessivas releituras que dela e do poema épico vim fazendo. Como é próprio de qualquer clássico, a sua obra nunca acaba de se ler e em cada leitura descobrimos novos motivos de prazer. Camões tem sobre outros grandes seus contemporâneos a vantagem do tal «saber só de experiências feito» de que ele fala –foi o primeiro artista ocidental a cruzar o Equador e a sentir na carne o contacto com culturas e povos diversos dos europeus. E como não lhe faltava igualmente o«honesto estudo», conseguiu integrar saber e experiência numa visão do mundo e da vida original e bem sua. 

Ninguém como ele no seu tempo se debruçou sobre a dialéctica amorosa que subjaz à sua lírica atormentada – como ninguém como ele foi capaz de harmonizar, pelo canto, o «suspirar», (retomo o título de uma polémica pioética do s.XV, «O Cuidar e o Suspirar») o amor petrarquista e neoplatónico - com o desejo físico, sensual, dando-nos uma das mais belas criações do mundo na sua Ilha de Vénus – em que, através das relações eróticas, os homens ganham dimensão divina e os deuses se reconhecem como humanos e apenas bons «para fazer versos deleitosos». O erotismo, despido de sombra do pecado, vidsto, assim, como força que diviniza os humanos, que bem amam.- 

Estamos, então, perante um dos maiores poetas do mundo e, felizmente para nós, cidadãos da mesma língua, escrevendo em português ( a propósito, parece que o português de Camões está mais próximo, a nível de pronúcia, do actual 'brasileiro, sabia? - Foi possível conclui-lo, a partir do estudo das sonoridades dos seus versos e, em particular, d'Os Lusíadas) . Muito mais haveria a dizer . Pela minha parte, tentei dizê-lo aos meus alunos e aos que leram e lêem, desde 1982,os meus, já em número de seis, livros sobre Camões.

Mas Camões não é a minha única paixão literária. Também escrevi, como deve saber, um Para Compreender Fernando Pessoa...e tenho outras paixões sobre as quais não escrevi...

19. O Século XX foi um celeiro de grandes pensadores. Na sua opinião, qual o Pensador do Século? Por que ele é o maior para você?

R: Se me pedir poetas, escritores, talvez possa indicar alguns... mas pensadores ... bom, vou citar alguns que participam das duas vertentes, aqueles que, segundo li não sei já onde, mas venho repetindo, construíram universos próprios .Por ordem mais ou menos cronológica: Fernando Pessoa (há um universo pessoano próprio...),Franz Kafka, Samuel Beckett, Jorge Luís Borges. 

Mas haveria, certamente, outros...nomeadamente os mais assumidamente filósofos...e naturalmente, outros grandes poetas e ficcionistas.

20. Cite uma frase de alguém, de ontem ou de hoje, digna de figurar num quadro, pendurado na parede do seu quarto, para ser sempre lembrada...

R: Há duas que me não canso de repetir. A primeira é de Terêncio e diz:«Sou humano e nada do que é humano considero alheio a mim»; a outra é de Voltaire e diz:«Não penso como tu, mas seria capaz de morrer para teres o direito de pensar diferentemente de mim» - esta é a melhor definição de tolerância que conheço.

E acrescento um verso de um poeta, de certo modo maldito junto dos pensadores «de esquerda»:«Amo, ergo sum – e precisamente na exacta proporção» - é de Ezra Pound...

21. Que mensagem mandaria aos jovens do Século XXI?

R: «Merece (çam) o que sonhas (m...)» - é de Octavio Paz (in Águia ou Sol?)